Quem se lembra da internet?

 

Por Emannuel

Eu não sou o maior fã de documentários do mundo. Meu conhecimento sobre cinema já é bem limitado, e no que se refere a esse tipo de filmes é ainda menor. Um dos poucos cineastas que se dedica ao gênero com o qual tenho alguma familiaridade é Werner Herzog. Curiosamente, o conheci através da ficção, com “Além do Azul Selvagem”. Deste então, o alemão cada vez mais vem voltando sua atenção aos documentários, como o belo “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, e, este ano, lançou “Lo and Behold!”, que me inspirou a escrever hoje.
O filme trata da vida conectada, mostrando um pouco da história das tecnologias de informação e como essas mudaram – e vão continuar a mudar – a nossa sociedade. Estavam presentes, portanto, dois temas que tem me interessado muito e podem ser recorrentes aqui nessa newsletter: a utilização da narrativa como um recurso à verdade na arte contemporânea e tecnologia. O primeiro é uma coisa que todos os documentários, de uma forma ou de outra, nos fazem refletir sobre; já a segunda, é mais difusa. É divertido especular sobre como celulares e computadores vão evoluir e nos influenciar daqui a décadas, ou mesmo séculos, tanto quanto é legal imaginar viagens espaciais e como torná-las realidade. Só que, entre o hoje e esse futuro distante, existem muitos percalços que nem podemos imaginar. Alguns deles são grandes e estão aí, em vários livros de ficção científica e distopia. Pode ser uma mudança climática causada pelos seres humanos, uma epidemia ou mesmo um desastre nuclear (nunca entendo porque as pessoas hoje em dia não são tão receosas com isso quanto eram na época da Guerra Fria). Outros são muito menores, e muitas vezes sequer conseguimos imaginar. Dentre todos esses pequenos e possíveis glitches no sistema apresentados em “Lo and Behold!”, um dos que mais prendeu a minha imaginação foi a de uma Idade das Trevas da Internet.
Se você está um pouco enferrujado na hora de lembrar das aulas de história, Idade das Trevas é um dos nomes (mais comum nos países de língua inglesa) para a Idade Média. Ela recebeu essa definição porque os primeiros historiadores modernos consideravam que, naquele período, o conhecimento clássico havia se perdido, e algo parecido só havia voltado a existir com o Renascimento. O eurocentrismo dessa visão pode ficar para outra semana, quem sabe, mas o importante é que esse termo pode, muito mais habilmente, ser usado no futuro para o período em que nós estamos vivendo agora. Os motivos para isso podem ser resumidos em dois: obsolescência, programada ou não, e volume de conteúdo.
Segundo a Lei de Moore, o poder de processamento dos computadores costuma dobrar a cada 18 meses. Existem divergências, com algumas pessoas achando que esse ritmo tem acelerado e outras que tem diminuído. De uma forma ou de outra, esse terreno é fértil para a aceleração de uma sociedade de consumo que já existia, de uma forma ou de outra, desde o começo do capitalismo. A questão é que, agora, esse consumo está relacionado não apenas ao nível material e à forma que temos de receber conteúdo, mas também ao de sua produção. Se, antes, todas as notícias saíam num jornal impresso, era sempre possível conservar essa informação de forma física, embora muitas vezes pudesse dar muito trabalho. Hoje, esse mesmo jornal publica a maioria de suas notícias on-line. Uma simples mudança para um servidor mais eficiente ou mais barato pode significar a perda parcial ou completa de todo esse arquivo. Mas isso não se resume aos meios de comunicação oficiais. Lembra do Orkut? Pois é. Hoje existem várias versões que copiam a rede social mais popular entre os brasileiros de quinze anos atrás, assim como arquivos de comunidades e posts em diversos níveis de oficialidade. Mas o fato é simples: a maior parte do que existia lá se perdeu. Você simplesmente não pode mais ler aquele depoimento que você não aceitou porque tinha informações que você não queria divulgar. Mesmo os esforços para salvar algumas coisas de lá que existem hoje são mais fruto de saudosismo do que de uma luta pela memória. E, é de se esperar, vão se perder quando essas pessoas não tiverem mais o interesse de manter essas recordações.
Mas não são só suas lembranças de juventude que correm esse risco. Potencialmente, todo o conteúdo hoje existente na internet será perdido. Talvez isso demore muito tempo, até a rede chegar num ponto de saturação extremo, ou talvez isso esteja mais próximo do que imaginamos e a cada dez anos, por exemplo, haja uma total renovação do ambiente digital sem que sequer percebamos. Claro, nem tudo está perdido. Existem muitas empreitadas que buscam solucionar esse problema. A criação de um arquivo digital, de um sistema anfíbio que pode ser usado no futuro ou, o que me parece mais interessante de todos, a ideia de concretizar a internet em mídia impressa. Um grupo de pessoas, por exemplo, se dedica a imprimir toda a Wikipédia para o caso de um eventual fim da internet (que pode acontecer de modos mais fáceis do que imaginamos, como o filme de Herzog bem mostra) mas seria, na prática, uma forma de preservar esse conteúdo para a história.
Engraçado pensar que, caso a humanidade ainda exista daqui a mil anos, o mais provável é que ela aprenda sobre nós através dos bons e velhos livros.

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