Os EUA e o Nobel de Literatura

Por Emannuel.

Eu não sou fã de nenhum tipo de esporte. Mesmo há alguns meses, com o furor da Olimpíada no Rio, não me senti motivado a assistir nenhuma modalidade de forma consistente, só pegava uma ou outra disputa quando a TV estava ligada ou algo parecido. Mas eu entendo a fascinação que mobiliza milhares de pessoas a prestarem atenção e se empolgarem, seja com uma Copa do Mundo ou com uma partida na várzea mais próxima, porque sinto a mesma coisa, apenas direcionada a algo diferente. Para mim, o equivalente mais próximo desses eventos esportivos internacionais é o Nobel de Literatura.

Mesmo que você não seja a pessoa mais inteirada no mundo dos livros e esteja lendo essa newsletter por nossos valiosíssimos comentários em outras áreas, já ouviu uma ou outra coisa sobre o prêmio. E, especialmente nesse caso, é bastante provável que o resultado desse ano tenha chamado a sua atenção, afinal, o ganhador foi ninguém menos do que Bob Dylan. As opiniões, como era de se esperar, se dividiram. De um lado, é fácil compreender que algumas pessoas esperam do Nobel uma chance de conhecer artistas que, em outras condições, jamais alcançariam esse nível de notoriedade internacional, como aconteceu, recentemente, com Patrick Modiano. Outras simplesmente não consideram que letras de música sejam literatura (uma posição bastante estranha para nós brasileiros, que estudamos músicas de Chico Buarque na escola, mas comum mundo afora) ou que as do ganhador sejam tão boas assim. Os argumentos a favor de Dylan, no entanto, questionam essa visão quadrada do que é literatura e compactuam com a academia sueca, que citou Homero e Safo entre os predecessores da forma de arte praticada pelo americano.

A minha tendência é a de concordar com esta última visão. Não apenas como fã de Bob Dylan, mas como entusiasta do poder da literatura. Ela não deve se restringir à palavra impressa, como o teatro e a narrativa oral evidenciam. Também para o próprio prêmio, essa decisão se revelará importante. O Nobel enfrenta um desafio vital, que só aumenta ao longo dos anos, o de se fazer relevante num mundo com tantas opções à sua existência. Desde de que Sara Danius se tornou a secretária-geral da academia, podemos observar uma grande diferença na escolha dos vencedores. Nos últimos dez anos, por exemplo, quatro mulheres foram laureadas, algo sem precedentes na história do prêmio e que pode indicar uma mudança em sua trajetória nos próximos anos (apenas um dos ganhadores, no entanto, não era branco). Agraciar Dylan aumenta o interesse do público geral. É de se esperar que a pessoa que ganhar no próximo ano, por mais desconhecida que seja, vá ter um impulso de popularidade muito acima da média daquele dos ganhadores nos últimos anos.

A escolha também parece ter sido um comentário sobre as intersecções entre cultura e política, especialmente num ano em que os EUA foram abalados pela ascensão de Donald Trump. Ao contrário do novo presidente estadunidense, mais conhecido por seu preconceito, machismo e truculência, Dylan representa um país que questiona as políticas conservadoras, é o símbolo de uma geração que lutou contra a segregação, as guerras e que acolheu elementos de culturas diversas num discurso tipicamente americano. O mundo da arte não poderia dar mostra mais evidente de estar contra tudo que Trump significa.

O que não quer dizer que o resultado não signifique um problema para escritores estadunidenses que, ao meu ver, mereciam o prêmio tanto quanto Dylan e, caso se repita o mesmo gap de 23 anos até um novo vencedor no país (a última foi Toni Morrison, em 1993), ou mesmo metade disso, já estão virtualmente fora da jogada.

As chances de Ursula K. Le Guin ser laureada nunca foram altas. A escritora de 87 anos ficou famosa por sua produção na ficção científica, um gênero que era e continua a ser visto como parte de uma literatura de baixo nível, por mais que nas mãos de Le Guin tenha servido de instrumento para abordar questões de gênero (A Mão Esquerda da Escuridão), as ambiguidades das utopias políticas (The Dispossed), preservação ambiental, espiritualidade e uma série de outros temas que, se fizesse parte do mainstream, fariam dela uma nobelizavel previsível. O preconceito com o gênero que a tornou famosa obscureceu suas glorias literárias por anos: sua poesia ainda é pouco apreciada e mesmo sua prosa mais realista está encontrando seu espaço apenas agora, após ser publicada pela Library of America, fazendo com que Le Guin seja a única escritora viva a entrar no cânone oficial da literatura nos EUA, ao lado Philip Roth.

Já John Ashbery, 89, é, provavelmente, o mais influente poeta vivo. Nunca entendi a razão para ele não ser mais apreciado. Meu carinho por seus poemas veio de uma relação de continuidade que inicialmente imaginei para sua obra, como se partindo diretamente de Auden. Assim como o poeta inglês, Ashbery une erudição com facilidade, seu ritmo é natural, seu trabalho foi bastante influenciado pelo surrealismo, dadaísmo e outras vanguardas europeias, o que faz com que seja difícil para a nossa razão, mas atinja níveis interiores, mais sensíveis. Sua inventividade formal, suas traduções e sua militância no movimento LGBT fariam dele um grande concorrente ao Nobel. E, já que os suecos estão se atualizando no mundo da música, poderiam dar o prêmio para alguém que fazia parte da mesma cena do Velvet Underground e Andy Warhol.

Por outro lado, é muito fácil entender impopularidade de John Barth, 86. Sua fixação com barcos (ao menos quatro de seus livros desenrolam suas tramas em embarcações), suas constantes preocupações com metalinguagem e histórias dentro de estórias e, finalmente, sua posição firmemente favorável ao pós-modernismo e as polêmicas que disso decorrem. Mas são exatamente esses fatores (exceto o fetiche náutico), que fazem de Barth um ótimo exemplo da tradição literária desde os anos 60. O único americano em semelhante posição seria Thomas Pynchon, mas o caráter mais acessível de Barth, faria dele uma aposta mais segura para o Nobel.

Essa lista é bastante resumida, e poderia se estender por mais dezenas de nomes, muitos dos quais, por serem mais jovens, ainda tem alguma chance de sobreviver a essa janela, como Lydia Davis. O maior prêmio da literatura provavelmente vai passar um tempo sem ir para a terra do tio Sam, o que quer dizer que vamos ter mais chances de ver laureados de lugares que podem não ter chegado à Suécia pela porta da frente. Será que veremos alguém daqui do Brasil receber a medalha de ouro? Isso parece um assunto para discutirmos nas próximas temporadas do Nobel.

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