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Sobre o medo

Por Marília

Nos últimos dias, tenho pensado bastante sobre medo, por diversos motivos. O primeiro foi a época de Halloween, em que, além de festas à fantasia, proliferam maratonas de terror e horror. E aí a mídia em questão fica ao gosto do freguês: filmes, séries, livros… O canal da Tatiana Feltrin, por exemplo, faz o mês do horror há quatro anos, com indicações diversas.
O segundo motivo é que me meti num desafio cultural com alguns amigos e uma das categorias é “ler um livro de terror/horror”. Nesse ponto é importante contar uma coisa: sou muito medrosa. De verdade. Você achou Stranger Things sensacional? Eu também, mas só consegui assistir durante o dia ou com outras pessoas em casa. A série me fisgou mais pelos elementos nostálgicos do que pelo suspense e pelos sustos.
Resolvi ler um livro de contos do Stephen King para cumprir o desafio. Voltei aos meus 15 anos, quando li “Horror em Amytiville” e tive pesadelos por uma semana. Nunca vi o filme. Na metade do primeiro conto, que nem é tão tenso assim, batata: pesadelos em uma fazenda americana na década de 1920.
Não gosto de sentir medo, não gosto de tomar susto. Não entendo quem gosta. É quase como ler comentários em sites de notícias: incompreensível. Respeito quem curte, até tenho amigos que são fãs. Em meio a essa celebração do medo, tento entender essa história de sentir prazer em sentir medo.
Um dos últimos episódios do podcast Guardian Books (em inglês) contou com a presença de Susan Hills, autora de A Mulher de Preto (o livro foi adaptado para o cinema em 2012). O pontapé inicial da conversa é sua nova obra – uma coleção de histórias assustadoras -, mas o papo abarcou uma discussão do gênero “terror” de maneira mais geral, seus elementos e porque algumas pessoas se atraem por esse tipo de narrativa. Susan fala especialmente das ghost stories (ou histórias assustadoras, numa tradução possível).
Podemos discutir uso, (in)adequação e mesmo necessidade das categorias e divisões em gêneros em outro momento. Fato é que, pelas minhas andanças na internet, essas produções para assustar estão divididas entre terror e horror. Lincoln Michel, por exemplo, explora a diferença entre as duas num artigo sobre o vocabulário do medo (em inglês). Sara Cavanagh fala do tema usando outros nomes: ghost story e gore-feast.
O terror constrói tensão, nos deixa apreensivos, acelera o coração, faz roer as unhas, apertar as mãos, fechar os olhos… que foi mais ou menos o que eu senti durante a apuração da eleição americana. Há a possibilidade de algo assustador – que se concretiza ou não. Alguns elementos que criam a atmosfera do susto já se tornaram tão clássicos que sabemos exatamente quando algo vai acontecer. O episódio “Playtest/Versão de Testes” da nova temporada de Black Mirror brinca com isso. Afinal, quem não sente vontade de gritar “saí daí, idiota, você vai morrer!” quando um personagem resolve entrar sozinho num lugar escuro para descobrir a fonte daquele barulho estranho?!
Geralmente, esse tipo de produção trabalha retendo informações, não tem cenas muito explícitas de violência. Deixando de mostrar coisas, a obra obscurece para criar expectativas. Aliás, terror tem muito a ver com realização e quebra de expectativas. A melhor explicação que ouvi para gostar de assistir filmes de terror foi: “É o mesmo princípio da risada: ele pega nosso cérebro de surpresa” (oi, Rudi!). Talvez eu não seja a maior fã de surpresas.
O horror, por outro lado, mostra claramente o objeto que gera o medo. Vemos o assassino matando adolescentes a (muitas) facadas ou o monstro despedaçando suas vítimas. Tem um close na serra elétrica e no sangue jorrando. Lincoln Michel fala, inclusive, que o horror pode, com toda essa exposição, chegar a esvaziar a tensão criada pelo terror. Essas são as obras que pendem mais para o gore, para a sanguinolência. Deixam o público horrorizado e até enojado (dependendo do quanto se exibe).
Claro, as duas categorias não são totalmente separadas. Autores usam elementos de uma e outra para compor suas obras. Tampouco bastam esses elementos: um filme ou um livro de terror/horror sem uma boa história beira o cômico. Volto, de novo, à experiência pessoal. Gosto de alguns filmes de horror e de terror – aqueles de baixo orçamento, sem história, com péssimos efeitos, sangue em excesso, morte atrás de morte… Esses não costumam me incomodar. Muitas vezes, trazem um humor inesperado.
Além disso, um horror sangrento sem bom roteiro é, para mim, entretenimento garantido. Benjamin Bailey fala que essa previsibilidade dos elementos, a garantia de que tudo fica bem e a ausência de relativismo moral são alguns dos fatores que atraem o público (em inglês). A combinação desses elementos cria uma fórmula a que muitas obras recorrem. Outro atrativo citado é a adrenalina. Obras de terror/horror permitem lidar com nossos medos num ambiente controlado. Nada vai acontecer conosco. E, ainda que o final não seja feliz, quando acaba, podemos voltar à vida normal e seguir em frente.
Percebi, lendo sobre esses atrativos, que eles não funcionam para mim. No entanto, existem outros fatores que me fazem sentir que estou perdendo alguma coisa ao abandonar totalmente esses gêneros em nome das noites bem dormidas. Susan Hills conta procura, com o terror, perturbar as pessoas. Meu irmão diz que gosta justamente desse efeito. Aliás, quanto mais realista/plausível, melhor, porque seu objetivo é ficar com medo da nossa realidade.
A realidade me parece assustadora o suficiente. Porém, me interessa o uso dessas produções para nos fazer refletir, trazer visões diferentes sobre essa realidade. George Romero fez isso em A Noite dos Mortos-Vivos e, mais recentemente, Jordan Peele tem sido elogiado pelo uso do horror para abordar a questão racial nos Estados Unidos.
O terceiro motivo para pensar sobre medo é esse momento tão retrógrado em que vivemos. Esse medo pode ser usado para tantos fins. O medo do diferente pode nos fazer eleger pessoas completamente ineptas para a presidência da maior potência militar mundial. Ou pode ser usado para nos fazer pensar sobre nossa própria posição no mundo e tentar transformar o medo em outra coisa. Espero que, nesse contexto em que vivemos, perturbar as pessoas ajude a sacudir as pessoas e gerar mudanças.

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