Preconceito literário

Por Emannuel e Marília

Ver uma pessoa absorta em um livro gera curiosidade. Rola aquela esticada de pescoço, torcida de cabeça, olhar de lado, tudo para conseguir ver a capa, o autor, o título. E aquela leve julgadinha, quem nunca, né? Aposto como você já ouviu ou pensou ou até disse coisas como “Paulo Coelho, jura?”; “Afe, pra que você vai ler esses romancezinhos bestas?”; “Livro de youtuber, socorro!”.

Já fiz isso, hoje tenho me policiado, por diversas razões. Primeiro, quem sou eu para determinar o que uma pessoa pode/deve ou não ler? Cada um lê o que bem entende. Um livro que eu posso detestar, outra pessoa pode amar. Se não devemos julgar um livro pela capa, menos ainda uma pessoa pelo que ela lê.

Toda experiência de leitura é válida. A gente sempre aprende alguma coisa com um livro, principalmente sobre nossos próprios hábitos de leitura. Descubro que certas narrativas não me atraem, alguns estilos de escrita não funcionam pra mim, gosto mais de uns autores que de outros. E, acima de tudo, sei que nada disso é estático, definitivo.

Fases de leitura são comuns. O que procuramos de ler naquele momento varia em função de inúmeros fatores. Amanda Nelson cita alguns (em inglês): educação, criação, acesso – vale lembrar que livros são caros e nem todo mundo tem uma biblioteca pública por perto -, status socioeconômico, disponibilidade e até nível de stress, ou seja, sua tolerância para lidar com um livro que exija dedicação maior.

É engraçado como temos esses preconceitos com as pessoas pelos livros que estão lendo. Alguns autores são execrados – Paulo Coelho, Elizabeth Gilbert, John Green. Alguns gêneros não são considerados “literatura” – HQs, ficção científica, young adult, chick lit, terror, horror. Até best-sellers são desconsiderados exclusivamente por serem best-sellers, lembra do Dan Brown?

Temos os clássicos, os livros cultos, dignos de “gastarmos tempo” lendo. E temos o resto. Sério mesmo? Na época em que o filme “A culpa é das estrelas” saiu, eu vi muitas pessoas comentando sobre o John Green. Muitas dessas pessoas dizendo que esse cara não era literatura e que adolescentes são burras por amarem de paixão essas obras.

Parênteses: curioso como são as “mulheres estúpidas” muitas vezes o alvo desse esnobismo literário: meninas que gostam de young adult, mulheres que gostam de chick-lit, leitoras de romance. Corremos o risco de anular totalmente o gosto de uma pessoa pelo mundo dos livros apenas desclassificando o que a interessa.

Voltando, fiquei curiosa com todo o babado e resolvi ler “Cidades de papel”. Gostei. É uma história de adolescentes se conhecendo, criando novos laços, repensando relações e amizades, numa época em que crescer (se formar, no caso) é incontornável. É uma grande obra do nosso século? Não sei, vai que. Eu me diverti lendo. Vou deixar de ler o Nobel de literatura por isso? Claro que não. Inclusive, porque, como colocamos num dos textos da última newsletter, o fato de Dylan ter sido premiado mostra muito sobre como o conceito de literatura é mais amplo do que costumamos pensar.

E esse preconceito não para desse lado das páginas. No ano passado, Kazuo Ishiguro, um autor conhecido por seus livros imaginativos, se negou a reconhecer que sua obra mais recente, O Gigante Enterrado, seria parte do gênero fantasia (em inglês). A vontade de escapar desses rótulos muitas vezes é puramente comercial. Quem escreve quer ser lido pelo maior público possível, e quantas vezes não evitamos ler alguma coisa porque não estamos no clima para uma história de terror ou achamos romances policiais extremamente previsíveis? Nesse sentido, o preconceito literário é uma estratégia de marketing, pois separa tudo em caixinhas que podem ser vendidas com mais facilidade, seja na hora de organizar as prateleiras da livraria ou em direcionar os anúncios no facebook ou outras mídias. O tiro sai pela culatra, no entanto, quando as etiquetas ostracizam uma parcela enorme de pessoas que poderiam estar aproveitando aquela história.

Outras vezes, os autores rejeitam um gênero literário porque tem divergências ideológicas com ele. É o caso de Margaret Atwood, que defende (em inglês) escrever ficção especulativa, ao invés de ficção científica, ainda que seja constantemente marcada com esta última etiqueta. Ela busca, através dessa separação, manter os pés no chão, fazer com que seus livros não sejam vistos como um escapismo, mas sim um comentário sobre nossa realidade imediata.

Esse é um tipo de preconceito literário que tenta não reduzir o que lemos, mas sim aumentar nossa visão sobre isso, questionar um mundo em que temos um impulso incontrolável de colocar tudo em caixinhas. É exatamente por isso que os clássicos costumam escapar. Quem, hoje, apontaria o dedo e diria que a Odisséia é um livro de fantasia ou Jane Eyre Chick-lit? Naquela época não existiam editoras dedicadas unicamente a young adult, nem revistas que só publicam ficção científica, como as que popularizaram o gênero nos anos 50, e muito menos um departamento de marketing que precisasse focar seus recursos.

Ao mesmo tempo, o surgimento de todos esses fatores não passa do reflexo de uma sociedade que se torna cada vez mais individualizada. Precisamos dessas etiquetas para marcar nossas diferenças. Nesse caso, o preconceito literário é só um entre muitos; gostar de um determinado tipo de filme ou música costuma ter um efeito ainda maior, especialmente durante a adolescência. São essas coisas que servem de fundamento para nossos círculos sociais, o que gera uma sensação de identidade tão forte que, não raro, faz com que rejeitemos as coisas que não se acomodam nas caixinhas que, em função dos fatores que a Amanda Nelson citou, escolhemos como nossas.

É justamente nesse momento que o simples ato de separar as coisas em gêneros literários salta para o preconceito ou esnobismo, como chamam os anglófonos. Assim como em qualquer outra área, a pessoa que tem preconceitos literários age por repulsa irracional a uma ideia que tem daquilo que não conhece ou que não gosta, aos estereótipos que relaciona àquele tipo de escrita ou como imagina ser a pessoa que gosta de ler aquilo. Há vinte anos, era impossível imaginar as pessoas que liam O Senhor dos Anéis ou HQs sem que viesse imediatamente à mente o nerd socialmente desajustado com óculos fundo de garrafa, típica figura mitológica dos filmes hollywoodianos dos anos 80. Era essa a ideia que as pessoas fora da caixinha tinham das que estavam dentro.

Mas, ao mesmo tempo, eram essas preferências literárias que ajudavam pessoas que, muito frequentemente, eram excluídas de alguns grupos sociais a encontrarem outras com quem podiam se relacionar, criar uma comunidade. Essa, por sua vez, tinha um impacto enorme em suas personalidades, seus modos de vida. E esse é um impacto que se mantém nos livros até hoje. Não importa se é para formar um clube do livro entre amigos que você não veria com tanta frequência sem isso, ou aquelas trocas culturais que são tão importantes na adolescência, ou servir para puxar assunto com uma pessoa que, com o tempo, será muito importante na sua vida. Nossas identidades literárias são muito mais do que uma simples forma de dizer que gostamos disso ou daquilo.

E, no entanto, há quem ainda queira diminuir o que lemos. Ficção científica? Escapismo. HQ? Cresce. Chick-lit? Vai trabalhar. Young adult? Alienação. Horror? Entretenimento barato. Desse jeito, só lendo Dostoiévski no russo original para escapar de críticas.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s