Bomba nostálgica?

Por Marília

Passei os últimos meses esperando ansiosamente pela estreia “Gilmore Girls: A Year in the Life” – continuação, produzida pela Netflix, da série de mesmo nome. Não lembro bem quando Gilmore Girls estreou no Brasil. Lembro chegar da escola e assistir os episódios à tarde pela TV a cabo. Lembro do quanto me identificava com a Rory, o quanto queria ser a Lorelai…

Saber que a série teria uma continuação com praticamente todos os personagens gerou uma reação mais ou menos assim. Deu um quentinho no coração. Mas não foi exatamente inesperado. Quer dizer, foi e não foi. Quantas produções ganharam continuações, spin-offs ou remakes nos últimos anos? Teve filme novo da franquia Jurassic Park, Star Wars (Force Awakens, Rogue One e vem mais por aí),  Mad Max: Fury Road, Caça Fantasmas… Temos Girl meets world, Fuller House e episódios novos de Arrested Development. Pokemon Go e as mil e uma análises sobre seus efeitos nas relações pessoais, no vício em celular, relacionando até com urbanismo. Live actions da Disney! Não posso nem começar a falar de A Bela e a Fera e o quanto ainda estou surtando com o trailer. Até o Lollo voltou.

Sexo vende. E nostalgia? Bom, vende bastante também. O apelo de marketing da nostalgia é muito forte. Como Hilary Smith coloca, é nova embalagem numa ligação emocional (em inglês). Por exemplo, hoje em dia, temos jogos em muitas plataformas: computador, console, celular. Jogos os mais variados possíveis, com estruturas diferentes, efeitos especiais que dão um pau em vários filmes, criando galáxias inteiras (em inglês)… E, mesmo assim, quanta alegria não gerou o re-lançamento do NES, da Nintendo. Sem falar em Stranger Things, uma série baseada inteiramente na nostalgia.

Esse apelo comercial é ainda mais claro na moda. Dia desses, andando pelo shopping, vi uma adolescente usando aquelas gargantilhas de henna. Eu usei isso quando era adolescente. O choque foi meio grande. Vejo muitos adolescentes e jovens usando coisas que eu usava, só que repaginado, com um toque cool, moderno, vintage.

Charlie Lyne tá certo quando diz que a nostalgia é “bittersweet” (em inglês), as emoções vêm misturadas. Fiquei bem feliz com a volta de várias séries e a continuação de histórias que me são queridas. Por outro lado, estranho também esse apelo que o passado têm, porque pode gerar uma visão totalmente distorcida de outros tempos. O apelo emocional pode criar lentes cor de rosa ao olharmos o passado, seja ele individual ou coletivo.

Hilary Smith fala de uma teoria segundo a qual as décadas têm um pico de maturação de 20 anos. Essa regra pautaria a nostalgia das mídias de massa. A Revista Época fica até nostálgica da nostalgia de antigamente, uma vez que a nossa é pautada pelo consumismo, pelo material. Não sei se é bem assim. Quer dizer, a indústria cultural com certeza usa desse recurso com um público que cresceu nos anos 90/00 e que agora tem dinheiro próprio para consumir. O lucro é garantido, a aposta é certeira.

Por outro lado, não se restringe ao consumo. Tem gente tentando entender esse apelo nostálgico dos anos 90 para os millennials – que não viveram essa década. Vi vários artigos debatendo por quê, em tempos de Netflix, Friends faz tanto sucesso com esse público (aqui e aqui, por exemplo). Talvez o ideal de um mundo mais simples. Talvez apenas uma questão estética.

Usando a moda como exemplo, não sei se essa regra dos 20 anos ainda se aplica. Passamos bem rápido de uma volta aos 80 para uma volta aos 90. Polainas em alta e, de repente, batons marrons com cintilância. Tô aguardando receosa a volta dos anos 2000. Tem uma citação do Frank Zappa (em inglês) que é bastante adequada pra essa loucura nostálgica. Pra ele, a diferença de tempo entre o evento e a nostalgia do evento está cada vez menor. É possível a nostalgia chegar ao tempo presente?

É a nostalgia que está desenfreada ou é só nossa percepção dessa celebração nostálgica que foi intensificada? Creio que temos sim um pico nostálgico, porém essa percepção pode ser maior do que a nostalgia em si graças à internet e o intenso compartilhamento de notícias, lançamentos e listas do Buzzfeed. Afinal, também temos produções novas por aí.

Nostalgia não é necessariamente ruim. Olhar o passado carinhosamente não significa olhar sem críticas. Isso permite ressignificar as produções no contexto em que foram produzidas. Parte essencial de trazer algo do passado para o presente é pensar como fazer isso sem deixá-lo anacrônico, sem sentido. Por isso alguns remakes funcionam, outros, não.

Charlie Lyne argumenta que é justamente isso que faz a cultura pop avançar. Nada existe isoladamente. Sofremos influência das referências anteriores – individuais e coletivas. Retomá-las (com carinho e com cuidado) não é só divertido, é também necessário.

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