Sobre a dança

Por Emannuel 

Meu primeiro contato real com a dança aconteceu quando eu devia ter uns quinze ou dezesseis anos. O colégio estava organizando algum tipo de evento, que hoje não consigo lembrar qual poderia ter sido, e parte dele seria uma valsa com estudantes do meu ano. Talvez uma forma de trazer as festas de debutante para dentro do âmbito escolar. As pessoas que se voluntariassem teriam que participar de uma série de aulas com a professora de dança da cidade – acredito que tivéssemos mais de uma, mesmo então, mas essa era a única que eu conhecia – para aprender a coreografia que ela inventara. Fui um dos primeiros meninos a me candidatar. Talvez por uma inclinação que tinha na época de tentar me envolver com o maior número possível de formas de arte, mas, provavelmente, porque meu crush ia participar.

Tivemos aulas semanalmente, por três ou quatro meses, nas quais aprendemos o mais básico da valsa – seus três passos – e até algumas firulas, sem as quais a apresentação não faria sentido. Até hoje lembro a mecânica simples que aprendi naqueles dias, mas o ensinamento mais importante que me ficou foi o de não levar jeito para a coisa. A parte racional não foi tão complicada, eu conseguia reproduzir os movimentos, se não com graça, ao menos com precisão. As partes coletivas eram as mais fáceis, dava para perceber o momento de fazer o que fosse pelo grupo. Mas eu não tinha o ritmo – o que também estragou minhas aspirações musicais – nem a capacidade de me entregar de forma física e emocional.

Depois que essa apresentação passou, me conformei que minha relação com a dança seria apenas de espectador dali para a frente. Não que o álcool ou a empolgação não tenham me dominado além na conta na pista da balada; isso acontece quase sempre, mas não é dança, é um simples pavoneamento. Essa experiência, ainda que tão curta, fez com que minha consideração pela dança se tornasse enorme. Nenhuma outra forma de arte, na minha opinião, une o autocontrole e a entrega de forma tão intensa. Mesmo sua irmã gêmea nas artes performáticas, a atuação, é muito mais restrita pela consciência. Ao atuar, o sujeito é mediado pelo texto, a ação é compreendida primeiro com a razão. Na dança o próprio corpo é o meio. Mesmo as mais rígidas coreografias são obrigadas a expressar toda sua subjetividade através da matéria, em processos que, justamente por serem mecânicos, desnudam a alma.

A ideia para esse texto me veio quando pensei em recomendar um vídeo de Serguei Polunin, dançando ao som de Hozier (Take me to church) e dirigido por David LeChapelle, que, ao meu ver, exprime como poucos essa capacidade da dança. Talvez o responsável por esse vídeo ter viralizado tenha sido a popularidade das pessoas envolvidas nele, o que faz com que muitos cheguem a achar até que é o clipe oficial, enquanto não passou de uma experiência entre o diretor e o bailarino. Mas quando decidi que ia dar essa recomendação para vocês aqui, fui rever e percebi como me fez pensar nessa forma de ver a dança. Quando assisti pela primeira vez, compartilhado por algum site ou rede social, não fazia ideia de quem era Polunin. Minha ideia de dançarino famoso ainda se resumia às várias vezes em que via “O Sol da Meia Noite” no corujão da Globo durante a adolescência e ficava embasbacado ao ver Baryshnikov dançando. Ou a primeira cena de sapeteado de Gregory Hines. A história do filme, em si, nunca foi importante para mim, mesmo hoje só lembro que era sobre um americano que gostava da União Soviética e um russo que fugira para os EUA.

Esse é um mal do qual as formas de entretenimento que tentam se apropriar da dança acabam sendo vítimas. Mesmo clássicos, como “Cantando na Chuva” se resume a momentos teatralizados, como aquele que Cosmo canta – e dança – a genial “Make ‘em laugh”. Portanto, foi uma quebra das minhas expectativas quando, em 2012, uma das épocas em que estava mais viciado em séries, comecei a assistir Bunheads. Era uma série simples, sobre uma dançarina de Las Vegas (Sutton Forster, famosa da Broadway que conheci nessa série e acabei virando fã) que se muda para uma pequena cidade e começa a ajudar na escola de dança da sogra. As coreografias são todas acessíveis, embora não infantilizadas, podem ser facilmente apreciadas por leigos como eu, e tem o claro objetivo de fazer com que público jovem se interesse pela arte. O trunfo da série, no entanto, é ser criada por Amy Sherman-Palladino, que ficou conhecida por Gilmore Girls (veja mais nas recomendações de hoje!) e consegue trazer aquilo que gostávamos em GG para esse novo mundo. Nem todo mundo concordou comigo, infelizmente, e a série acabou sendo cancelada em 2013, antes de sequer poder criar a sua própria identidade.

Mas essas referencias a cultura pop são apenas a ponta do iceberg. Ainda que o vídeo que deu o impulso inicial desse texto seja considerado uma revolução na forma de apresentar a dança para o público atual, a presença física é algo que ainda faz uma diferença enorme. Talvez por ter crescido num mundo em que o cinema era algo banalizado, as apresentações teatrais não me parecem algo tão alienígena. Ou talvez seja o fato de serem duas mídias tão diferentes, com linguagens tão separadas que não nos confundimos entre elas. A dança não teve essa vantagem, esse costume. Quando a vemos numa tela, ela é apenas uma tentativa de captar a sua presença real, algo que não só é difícil de fazer, mas como a esvazia de sentido. Pode ser que se houvesse uma língua distinta, essa comparação ganhasse outro valor, mas mesmo o musical, que se traduz com mais sucesso do que outras formas de dança, se sustenta nas mídias a distancia por poder se utilizar de mais recursos além da simples fisicalidade dos bailarinos. Só fui ter uma noção real disso quando, em uma virada cultural, há uns três anos, quando assisti “As Canções que você dançou para mim”, da Companhia Focus. Não gosto de Roberto Carlos, cujas músicas inspiraram o espetáculo, mas a experiência foi de transcendência. Desde então, sempre que um guia cultural cai nas minhas mãos, uma das primeiras coisas que vejo é a programação de dança.

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