Vaporwave

Por Emannuel 

Como vocês já devem ter percebido, eu sofro da síndrome de quero-ser-cult. Sou daquelas pessoas que torcem o nariz para cinemas de shopping, que gostam de ver séries que ninguém mais vê e de livros que estão fora de catálogo desde que a palavra “ele” era grafada “êle”. E na música o sentido é o inverso. Na adolescência tinha aquela obsessão louca de descobrir as bandas mais interessantes (ou nem tanto assim), antes de qualquer outra pessoa. Desde 2013 tem ajudado o fato de que estou escrevendo para o You! Me! Dancing! (os meus últimos textos do ano para o site já estão no ar), o que me leva a ficar em contanto com as novidades musicais constantemente. Apesar disso, a necessidade de ir atrás do novo foi diminuindo, sendo substituída por outros padrões. Isso poder ter a ver com o que a ciência diz sobre nosso gosto musical se cristalizar a partir de uma certa idade (em inglês). Mas a verdade é que continuo buscando novas sonoridades, só que, ao invés de “prever o que vai ser pop”, o meu gosto tem se voltado para coisas mais experimentais (minha recomendação dessa semana mostra um pouco disso, no campo do cinema). Na maior parte do tempo isso significa post-rock, um gênero bem próximo do indie que ainda ocupa um lugar quentinho no meu coração, de bandas como The Years of Rice and Salt, ou melhor banda brasileira atualmente em atividade (na minha opinião, claro), Hurtmold. Quando estou me sentindo muito intelectual, um pouco de free jazz também. Mas um gênero com o qual ainda estou tentando me adaptar é o vaporwave.

A proposta do vaporwave é a de ser uma espécie de meme sonoro. Uma das mixtapes mais interessantes que achei, aliás, se chama “Aesthetic Memes”. Tudo nesse estilo musical parece ser uma referência. Os samples de comerciais, programas de TV e outras músicas formam a base. Quando fiquei sabendo disso, antes de ouvir, pensei que essas utilizações aconteceriam de uma maneira muito óbvia, mas estava errado. Na maior parte do tempo sequer é perceptível que a música que você está ouvindo não deveria estar ali, que ela veio de outro lugar. Pelo menos quando a produção é bem sucedida. Esse aspecto também é interessante. Estamos acostumados com um mundo em que as pessoas que fazem música são ícones, seja como banda de rock ou ídolo pop. No vaporwave essa ordem se inverte. As pessoas que produzem essas mixtapes são anônimas, artistas que constantemente trocam de pseudônimo de acordo com o que estão fazendo naquele momento. Por isso e pelo uso subversivo de recursos sonoros tirados dos mais variados lugares (sempre sem permissão, é claro), o vaporwave é visto como uma forma de resistência ao capitalismo, uma estética que critica as promessas e fantasias desse modo de produção usando tudo aquilo que ficou marcado no inconsciente da nossa geração que cresceu nos anos 90. A ligação com essa época é tão forte que tudo que vemos relacionado ao estilo musical parece saído diretamente do Windows 95 ou de um episódio de Os Simpsons. Aliás, essa animação merece seu próprio subgênero, o chamado simpsonwave.

Não impressiona que tenha conquistado um grupo de seguidores fiel, se expandindo para o tumblr e para a arte contemporânea. Como era de se esperar, para os hipsters de verdade, o gênero já está morto (em inglês). Ao mesmo tempo que alguns artistas se profissionalizaram e passaram a produzir conteúdo original, o que, por si só, pode ser visto como uma traição às origens anti-capitalistas do vaporwave, uma forma de se vender ao sistema, ainda que mantendo um selo independente.

Para outras pessoas, como eu, o vaporwave ainda é uma novidade à qual não consegui me adaptar bem, talvez por não lidar muito bem com nostalgia (veja o texto da Marília sobre o tema na edição passada) ou porque a forma em que está espalhada pela internet faz com que pareça ter tanta coisa para ser descoberta. Tem mixtape para quem gosta de funk, de cultura nipônica e até para quem procura algo mais pop.

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