Reencontrando as Gilmore

Por Emannuel e Marília

Como vocês devem ter percebido pela edição #3, nós somos fãs de Gilmore Girls (ou GG, para os íntimos). Veio o revival na Netflix, devidamente assistido num piscar de olhos, e obviamente trocamos muitas mensagens sobre as impressões, felicidades e desapontamentos com a nova temporada.

Resolvemos, então, compartilhar parte disso com vocês. Parte, por dois motivos: 1) se falarmos de tudo, será um texto gigantesco e esse já ficou bem longo; 2) provavelmente vamos esquecer de alguma coisa nesse meio.

E sim, teremos spoilers. Se você não viu os quatro episódios da nova temporada ou resolveu começar GG agora, melhor deixar pra ler isso aqui outro dia. Pra evitar que você sequer cruze o olhar sem querer querendo com alguma revelação, vamos por aqui uns gifs para ganhar espaço e você fechar o email em segurança.

Inclusive, deixamos as recomendações na parte de cima, justamente para não correr risco.

Pronto. Agora, é por sua conta e risco.

Bom, “A Year in the Life” se organiza de acordo com as quatro estações do ano: Winter, Spring, Summer e Fall, e os episódios têm em torno de 1h30 de duração. O primeiro e, num certo nível, mesmo o segundo episódio parecem cobrir mais a seguinte pergunta: “onde estão essas pessoas agora?”. A gente aprende sobre a atual situação de cada personagem, muitas vezes sem grandes explicações de como pararam ali. Isso é  uma boa sacada. Contar em detalhes a história de cada um seria bastante cansativo. Fora que uma das propostas da série é deixar coisas em aberto (calma, já chegamos lá).

O “conflito” se apresenta de modo mais claro no Verão e no Outuno. Se é que podemos falar em conflito. Uma crítica comum a GG é que nada acontece. De fato, nada acontece se pensarmos em The Walking Dead ou Breaking Bad. Aqui, é de propósito. A série aborda relacionamentos e aí muita coisa acontece. Relacionamentos como um todo e não apenas românticos – outro ponto positivo: a vida das mulheres (que são o centro da série!) não gira em torno de homens. Eles estão lá junto com um monte de outras coisas. Embora, é claro, todo o fandom tenha seu time pretendente favorito, pra Lorelai e pra Rory.

Isso continua no revival. Como esses personagens se relacionam dez anos depois? Tudo muda e nada muda. Stars Hollow continua a mesma, Richard morreu. Kirk segue kirkeando a vida [top 5 melhores personagens!], Paris e Doyle estão no meio do processo de divórcio. A vida continua.

Durante a preparação pro revival, a criadora da série, Amy Sherman-Palladino, revelou que já sabia há tempos quais seriam as últimas quatro palavras ditas. Um mistério, uma expectativa e internet: precisa dizer mais? Teorias bombaram com quem diria o quê para quem. E, realmente, as tais palavras são os últimos segundos da série. É isso e créditos.

Basicamente, Rory anuncia para a mãe que está grávida (“Mom, I am pregnant”). É, então. Bombástico. E, ainda assim, super óbvio. Como não pensamos nisso antes? Tudo é um ciclo, a Lorelai repete isso mais de uma vez para a Emily ao longo dos episódios. Fechar o ciclo com um novo foi uma ótima idéia. Ainda mais pela repetição etária: Rory fecha a série grávida com 32 anos, enquanto Lorelai começou a série com uma filha aos 32. Fica claro que a história que Sherman-Paladino se propôs a contar terminou ali. A partir daquele ponto teríamos uma lógica completamente diferente entre as gerações de Gilmores, e o foco mudaria, inevitavelmente da relação entre Lorelai e Rory para a de Rory e seu bebê, pano para manga de uma série completamente diferente.

O momento para soltar a bomba foi típico cliffhanger. Você está lá, todo emocionado com a decoração linda que o Kirk fez pro casamento, aquele momento todo fofo, explode coração e boooooom. Caralho. Muita gente foi às redes sociais pedindo uma continuação da história. Não quero. O propósito da série, como disse ali em cima, é deixar tudo aberto. A vida segue e segue em muitos caminhos. Finais abertos são bem problemáticos para fãs e conseguir que sejam bem-feitos e graciosos é muito difícil. Amy Sherman-Palladino mandou super bem. Nem tudo precisa ter um “felizes para sempre” e nem tudo precisa ser concluído, fechadinho, bonitinho. A realidade não é assim.

O divertido foi entender, só no fim, a conversa que Rory tem com Chris. Naquele momento, achei estranho. A cena até pareceu ser uma montagem, evitando colocar os dois no mesmo plano, ressaltando o estranhamento. Porém associei ao livro que ela está escrevendo. Nem reparei que ela sequer bebe o café que ele fez todo um esforço para comprar. Ah, Palladino, you got me. Também é a junção dessa cena, e algumas outras, que permite estabelecer um paralelo entre mãe e filha e seus pretendentes. Sem deixar as coisas explícitas, a série indica que Rory tem seu Chris (Logan) e seu Luke (Jess). Sendo #TeamJess, essa é, pelo menos, a interpretação que me convém. Tudo contribuindo para aquele sentimento que permeia GG, o de que as duas são muito parecidas, ainda que sejam completamente diferentes.

Algumas cenas foram muito amor. Toda a troca entre Rory e Paris no banheiro de Chilton é incrível e extremamente gifável. Também adorei, claro, a sequência na praça decorada, antes do casamento. E, embora deteste Logan e seus amigos, achei uma graça a montagem com Beatles e todo o clima saído diretamente de um filme de de David Lynch. Dito isso, admito que essa sequência é quase uma perda de tempo do revival (o Emannuel coloca o musical nessa mesma categoria; a Marília concorda que toma bastante tempo mas gostou da homenagem à Liz Torres). Como sempre, Emily e Lorelai estão ótimas, e como bônus, a série conta com várias aparições rapidinhas e bem especiais.

Agora, nem tudo são flores, né, migas?

Algumas coisas me incomodaram. Primeiro que, apesar das estações dividirem a série, a coisa meio que parece acontecer de um dia para o outro, ou de uma semana para a outra. Tá, pode ser só metafórico, mas é pra ser um ano na vida (até o título mostra que será algo aberto!). Senti um ritmo meio apressado e olha que é Gilmore Girls (life is short, talk fast). Entendo também que nem tudo cabe e cortes foram necessários.

Ainda assim, ficou estranho. Fica a impressão de que a série teria se encaixado bem no modelo de temporadas antigo, não nesse ritmo Netflix. A própria ASP disse que lutou para que os episódios não fossem disponibilizados de uma vez, como o serviço de streaming normal, e é difícil não ver sua razão: uma temporada que se desenrolasse com tempo teria criado uma tensão maior para a cena final, e tornaria o efeito da série mais duradouro. Sim, é verdade que nossas redes sociais estão presenciando uma tsunami de artigos sobre GG há meses. Só que também não podemos negar que o pico cultural desse modelo de entretenimento é muito curto. O outro grande sucesso do ano, Stranger Things, já parece coisa do passado, e sabe-se lá se irá ressurgir com o mesmo poder na próxima temporada.

A Lorelai parece estar procurando o que pode dar errado no relacionamento, achando buracos que, talvez, nem estivessem por lá antes. Acontece na vida real, quem nunca? Esse foi o plot mais condizente com a personalidade que vimos ao longo das sete temporadas, era absolutamente a cara da Lorelai ter essas dúvidas, ainda que isso provavelmente devesse ter acontecido anos antes. Faz parte da personagem se sentir podada por um relacionamento como o que tem com Luke. E, agora que não tem mais Rory como uma defesa, ela precisou encontrar por si só a paz de abrir mão de algumas possibilidades futuras. Sua história com o Firefly Inn, no entanto, foi decepcionante, pela falta que Sookie fez.

Rory… ai, Rory, miga, me ajuda a te ajudar. Desde o meio da série, os criadores tentaram humanizar a personagem, com defeitos e atitudes que contrastam com a menina boazinha-perfeita. É super importante e muitas das coisas “erradas” que ela fez eram compreensíveis. Nessa minissérie, são justamente as contradições que fazem de Rory a personagem mais interessante. A personagem sempre foi aquela que os fãs adoravam detestar. Seja por ser uma garota estudiosa e precoce, nas primeiras temporadas (o que é uma posição pouco defensável), ou por isso tudo vir acompanhado de uma expressão de Miss Universo absolutamente forçada (o que é ligeiramente mais compreensível). Mesmo as pessoas que se identificavam com ela, com sua nerdisse e sua paixão pelos livros, queriam mesmo é ser cool e independente como a Lorelai.

Dessa vez o público caiu em cima da Gilmore mais jovem por seu comportamento não condizer com a idade. Aparentemente, só por ter 32 anos ela precisava ter uma vida estável, tomar decisões maduras e ser a imagem fantástica de uma dama da sociedade. A questão é que os seres humanos não funcionam assim. Não é só porque uma pessoa passou dos trinta que ela é menos infantil do que aos dezesseis. E olha que a Rory era bem madura para alguém com dezesseis! O verniz de maturidade é algo que aprendemos a usar, no entanto, ele é superficial. Amadurecimento é um processo difícil, e não é raro encontrarmos sessentões que sejam tão imaturos quanto adolescentes, ainda que tenham que fingir serem algo diferente em situações profissionais ou familiares.

Aqui nós vemos Rory por dentro, na sua vida mais íntima. Ela perde um emprego por ser muito profissional e outro por não ser o suficiente. Ela está ainda presa num relacionamento abusivo, que se estendeu por anos em uma situação desconfortável às custas de sua sensibilidade romântica, como acontece com tantas pessoas. Porém, incomodou, aqui, a diferença de abordagem de conteúdos semelhantes em dois momentos da série. Quando Rory transa com um Dean casado, foi todo um auê. Agora, ela tem um caso (sim, caso!) com um cara noivo e ninguém fala nada? Rory se afastou a tal ponto de Paris e Lane que nenhuma das duas amigas conversa com ela sobre o que está acontecendo? A relação entre elas parece muito mais de mão única – Rory se hospeda nas duas casas, conversa com Paris sobre seu divórcio, mas não aborda a própria bagunça da sua vida emocional. Nem Lorelai parece querer se intrometer aí. A personagem parece abandonada, o que aumenta o sentimento nos espectadores de que ela está perdida.

É fácil reduzi-la ao estereótipo de uma geração. E, de fato, muitas pessoas com trinta-e-poucos, chame de millennials ou de geração y, se veem em situações parecidas. Existe a imagem de que essas pessoas não têm maturidade, são indecisas e acham que o próprio umbigo é o centro do mundo. Tudo isso transforma Rory em uma caricatura fácil de ser criticada. Faz com que ignoremos ou minimizemos os conflitos pelos quais ela está passando enquanto pessoa, vistos como mera “frescura”. Conflitos que podem ser divididos com membros de sua e de qualquer outra geração. Ela enfrenta um mercado falido, com jornais impressos fechando aos punhados e entrando na tal era da pós-verdade. Hoje, é muito difícil ser uma jornalista como Christiane Amanpour, que a pequena Rory admirava. Ela está sem casa, sem perspectiva profissional e com problemas de relacionamento. Nesses casos, costumamos agir mais ou menos como se tivéssemos 16 anos, nos melhores e nos piores casos.

Isso nos leva às questões de classe em GG. Toda a empatia da classe média contra a aristocracia que estava presente nas sete temporadas originais, agora se esvai. Lorelai não luta por sua independência financeira a muito tempo, Rory viaja para lá e para cá sem a menor dificuldade, e o fato de ter se formado em Yale obviamente contribui para as cobranças de que falamos acima – embora ninguém aborde a questão do endividamento estudantil. Esse é um dos pontos mais difíceis de defender desta nova safra de episódios. Uma série tão real em sua abordagem de alguns espinhos de relacionamentos, especialmente familiares, se deixou perder completamente no mundo de conto-de-fadas que Stars Hollow sempre correu o risco de se tornar. As sandices ditas por Emily sempre formaram um compasso moral invertido. Sua relação com as empregadas e a forma em que dava importância desmesurada a aparências e eventos sociais era uma sátira de uma classe alta que se mantinha numa torre de marfim, completamente desligada da realidade da classe média. Os conflitos que moviam a relação entre as duas Gilmore mais velhas eram, em último caso, econômicas. O dinheiro (e a falta dele) foi a força que deu o pontapé para a história que estamos acompanhando, lá no primeiro episódio. Agora, Emily e Lorelai não se batem mais por dinheiro ou por status. As poucas vezes em que falam sobre o assunto são estranhamente pacíficas. (A Marília gostou das cenas de terapia, porque sempre quis que todas as personagens da série fizessem terapia. O Emannuel não gostou tanto assim dessas cenas, porque, embora a atuação de Kelly Bishop seja uma delícia de se ver, a relação entre as personagens perdeu muito).

Tudo isso, é claro, é um reflexo da morte de Richard. A falta que o patriarca da família fez aqui foi enorme. Não só porque seu personagem, ainda que falho, como qualquer ser humano, era muito querido. O sorriso maroto que dava à neta fazia com que acreditássemos naquele carinho de avô. Contudo, sua falta desregulou toda a luta de classes interna de GG. Para demonstrar a evolução que foi forçada sobre Emily por conta da morte de seu marido, ela deixa para trás todos os traços aristocráticos que enriqueciam (perdão pelo trocadilho) toda a série. Talvez Richard seja o culpado por todo o esnobismo de Emily. Isso, olhando em retrospecto, enfraquece muito a série original, transforma sua personalidade que era o centro gravitacional da família em algo derivativo (a Marília não acredita muito nisso. Ela acha que toda a rejeição de Emily ao mundo em que vivia com Richard se trata justamente da dificuldade que ela tem de lidar com sua presente ausência e a constante lembrança que tem do marido naqueles ambientes). A relação de Emily com a família de sua empregada é usada como para representar sua evolução. O resultado, no entanto, parece mais uma forma de letargia em cima de uma piada ruim, o que engrossou as críticas acerca do racismo da série, com um elenco muito branco, e que reduziu seus personagens de outras etnias a estereótipos, como acontece agora com Berta e como aconteceu antes com a família de Lane.

Falando em Lane, senti falta dela, e da Paris, ao longo dos episódios. Em Verão e Outono, as duas mal aparecem. De novo, sabemos das condições de um revival: vários personagens para mostrar,agendas difíceis de bater. Mas cadê o apoio dazamigue? Rory conversa com Logan e Jess sobre sua situação, mas não com Lane e Paris. Lorelai enfrenta a possível perda de Michel sem contar com Sookie. Aliás, cadê Melissa McCarthy? Como explicar sua ausência no coreto bem no casamento da Lorelai?! É triste ter uma apariçãozinha só! Poxa, não podia nem ter uma cena de conversa por telefone, pessoal?!

Enfim. Problemas toda série tem. Ainda acho que, dentre os retornos atuais, esse revival foi um dos melhores. Não destruiu a série, como aconteceu com Arrested Development. Não pareceu anacrônica como Fuller House. Foi na medida certa.

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