Precisamos falar sobre séries de TV

Por Emannuel 

Eu sei que nunca é bom começar um texto com um disclaimer, mas tudo que vou falar aqui em baixo não muda o fato de que sou viciado em séries. Por muitos anos minha situação foi das piores. Quando estava no segundo ano da faculdade, ou algo assim, passava dias inteiros vendo Friends ou Gilmore Girls, que descobri naquela época e se tornaram minhas preferidas. Mesmo hoje, que diminuí o ritmo, continuo vendo muita coisa. Desde o começo do ano já devo ter visto umas cinco temporadas completas de diversas séries. A minha recomendação essa semana é uma delas. A verdade é que, para quem é da nossa geração, de classe média, as séries (não necessariamente de tv, já que muitas vemos direto no computador, a ponto de descaracterizar esse nome) são uma presença inevitável. Você fala sobre elas com seus amigos de trabalho ou faculdade, assiste junto da pessoa com quem se envolve romanticamente, elas geram conteúdo para suas redes sociais, seja com reações a episódios, recomendações ou simplesmente GIFs no tumblr.

Nesses sentidos, é fácil entender porque tantas pessoas consideram os seriados como ocupando o espaço que a literatura, que os romances, tinham no século XIX ou no começo do XX. Elas, muitas vezes, estão afinadas com a vida contemporânea e os gostos do público atual do jeito que as outras mídias não parecem ter conseguido alcançar ainda, se é que um dia o farão. No entanto, mais importante do que que isso é o fato de que temos um volume de séries grande o suficiente para atender diversos tipos de necessidade, agradar muitas pessoas diferentes, de um jeito que seria impossível para uma única pessoa acompanhar tudo, ou mesmo se interessar por tudo, mas não é um número exorbitante a ponto de ser impossível selecionar o joio do trigo. O número de livros publicados, por exemplo, é muito maior do que aquele do que está sendo chamada a Era de Ouro das Séries. O que significa que podemos ler reviews de praticamente todas os seriados atualmente no ar, muitas vezes episódio por episódio, mas apenas uma porcentagem insignificante de livros ganha a mesma atenção. As séries estão ao nosso alcance, nós podemos escolher o que vamos ver com uma eficiência considerável. Essa possibilidade significa que as chances de que vamos gostar cresçam, e se repitam, nos levando a consumir uma atrás da outra.

Séries fazem com que nos sintamos bem. Mesmo quando não são agradáveis. Elas proporcionam uma sensação de familiaridade que só pode se desenvolver em períodos longos. Mesmo os melhores filmes raramente conseguem desenvolver personagens em um par de horas da mesma forma que poderiam ao longo de várias temporadas. Por isso tantas vezes o cinema se volta para acontecimentos ou situações. Mesmo a subjetividade dos personagens se desenvolve através de um momento chave, em geral o encontro ou reencontro entre os protagonistas, como nos filmes de Polanski. Os seriados funcionam numa lógica diferente: eles podem criar uma imagem mais completa, através de diversos acontecimentos e de uma exposição. Por isso, sua força motriz são os personagens, basta ver Friends.

Um efeito colateral que essa lógica exerce sobre nós é a dependência emocional. Os seriados são aquele feijão com arroz de todos os dias. Assim que nos acostumamos com os personagens, tudo se torna mais ou menos previsível, ou ao menos seguro. Buscamos aquilo que nos fez gostar de uma série como uma gratificação constante. Vamos ver aquele procedural sobre detetives solucionando crimes ou drama sobre a queda de um anti-herói porque sabemos o que esperar, não importando quantos twists tenha a narrativa, já que essas próprias mudanças bruscas criam um padrão. Sabemos quais botões aquela série vai apertar, e é isso que faz com que escolhamos X ou Y. Caso contrário, não faria sentido dedicarmos tanto tempo a ela, desistiríamos no primeiro episódio.

Esse conforto é algo que não experimentávamos antes. No cinema, durante aquelas duas horas, não sabemos o que nos espera. O desenvolvimento mais lento de um livro não fornece a gratificação instantânea. O investimento emocional que precisamos fazer nessas mídias é muito maior do que aquele de assistir um seriado que já sabemos que nos agrada. De forma semelhante, as séries se tornam um hábito, e é sua recorrência que nos dá segurança, que transforma um entretenimento em um vício. Assim como com as novelas, continuamos assistindo-os por inércia, por costume, para não quebrar o ritmo daquilo que nos dá conforto. Mesmo quando a história nos trás algum incômodo, fazem isso de forma segura, quase como se estivéssemos vendo um show de horrores, satisfazendo uma curiosidade mórbida. De forma semelhante, o sucesso que esse formato está demonstrando se expande para outras mídias. Um livro faz sucesso quando pode ser adaptado para a TV, os filmes se convulsionam em infinitas continuações, histórias no mesmo universo, para reaproveitar personagens com os quais já estabelecemos alguma ligação emocional. Essa dependência pode ser uma manifestação da famosa dificuldade de amadurecer que dizem que a nossa geração tem, algo com o que não concordo, mas que daria muito pano para manga e vai ficar para uma edição futura.

Assistir uma série é se manter dentro da nossa caixinha, a zona de conforto. Isso não nos proporciona as novas experiências ou as pequenas epifanias que é o que esperamos das formas de arte, apenas uma diversão segura, que faz qualquer pessoa se assustar quando pensa no tempo total em que dedicou àquilo. Mais do que isso, são raros os exemplos de seriados que dão prazer estético (eu só consigo pensar nos dirigidos por Bryan Fuller, como Hannibal ou Pushing Daisies) ou desafiam intelectualmente (nenhuma faz isso de forma consistente, apenas um ou outro episódio das primeiras temporadas de Black Mirror ou a premissa que Lost acabou estragando). A grande maioria não passa de uma versão de fast-food audiovisual. Sem dúvida isso tem a ver com o fato de a maior parte dos seriados que consumimos tem origem nos EUA. O que significa que os valores de produção são altos, criando uma falsa aura artística. São construções que fazem sentido por se incluírem no esquema de uma cultura pop que consumimos diariamente, desde que nascemos. Por isso mesmo o estranhamento quando vemos algo mais próximo de nós é grande. 3%, por exemplo, teve uma recepção ótima no exterior, algo que se deve, sem dúvida, a uma boa dose de exotismo. Os estadunidenses que se acham mente-aberta tratam nossa ficção como o exemplar de uma pureza perdida em seus meios de produção. Os brasileiros, por outro lado, só vêem ali um requentamento de técnicas oriundas das telenovelas. E nem sequer das novelas da Globo, mas sim as da Record, com suas ambições monumentais. Uma amiga (Oi, Helena! o/) comentou que nosso padrão pode ser maior com séries nacionais por ser mais fácil de perceber os pontos fracos das atuações, clichês e coisas do tipo. Isso faz todo o sentido, ainda que eu adicionaria a esses elementos uma volta à realidade que muitas vezes é desconfortável para quem busca o escapismo das séries. O argumento do imperialismo cultural é muito fácil, apaga os reais laços de dependência que se criam nessas situações, por isso mesmo prefiro a metáfora do vício. Os elementos políticos ainda estão ali, o nosso traficante, seja a Netflix ou o Torrent, representa um discurso feito para ser espalhado, como se fosse universal, mas o que torna isso realmente problemático não é isso, mas sim a forma que esse hábito nos controla, reorganizando nossa forma de experimentar cultura; transformando-a, mais do que nunca, numa forma de consumo.

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