TV sem TV

Por Marília

Sempre fui muito viciada em televisão. Não sei bem como isso aconteceu nem se meus pais pensavam sobre a questão do excesso de estímulos visuais para uma criança. Suspeito que fosse uma estratégia da minha avó para sossegar, por um tempinho, as muitas crianças que passavam o dia lá.

Por isso, boa parte das minhas referências vêm da televisão. De certo modo, não brinco ao dizer que fui formada com Cultura, SBT, Manchete, Globo… e tinha que ver de tudo porque a disputa do controle se fazia entre vários primos. No fim dos anos 90, rolou TV a cabo em casa. Aos canais abertos, adicionei Cartoon Network, Nickelodeon e Discovery Kids (que, na época, era para diversas faixas etárias, não só piticos). Sabia os horários dos desenhos de cor. Depois de certo horário, meus pais dominavam o controle; até lá, era uma maratona de desenhos e seriados.

Porque, sim, já rolavam seriados: Beakman, Clarissa, Pete & Pete, Kenan & Kel, Sabrina – A feiticeira adolescente, o Clube do Terror (quando algum amiguinho ia dormir em casa e eu queria pagar de corajosa) eram as séries de criança. Mas também via A Feiticeira, Jeannie é um Gênio, I S2 Lucy,  Um maluco no pedaço, Punkie – A levada da breca, Alfie – o ETeimoso, Blossom, O Mundo é dos Jovens, Anos Incríveis…

(Pausa: cara, aparentemente tempo livre não faltava. Ainda rolava brincar com meus primos, lição de casa, aula de inglês, balé… Como rendia o tempo, não?)

Mais velha, fui incorporando outros repertórios: Friends, Gilmore Girls, Seinfeld, The OC, Will and Grace, e fui ajeitando os horários para assistir as séries na ordem. Porque, antes, não precisava necessariamente ver na ordem, com uma ou outra exceção. Agora, alguém na escola ia comentar o que aconteceu e, se você não viu, problema seu com spoilers (não usávamos esse termo então).

Pois pensando sobre isso, lembrei de um texto no Croniquices sobre a volta de Gilmore Girls e a nostalgia do ritual que a série envolvia. Sinto falta disso: reservar aquele dia ou aquele horário para um episódio (pelo menos, um de cada série). Atualmente, apenas Sherlock, da BBC (vide minha recomendação), gera todo esse planejamento. Por três semanas, não marco nada no domingo à noite, sei que vou dormir pouco e estar mal-humorada na segunda-feira. Três semanas a cada dois anos – um misto de dor e alívio.

Poderia fazer isso para outras séries por conta própria, bastando disciplina e organização? Claro que poderia. Tenho vontade, paciência, saco ou disposição pra isso? Claro que não.

Como a Vanessa escreve na crônica, temos tudo tão fácil e tão disponível e é tanta coisa que fica difícil decidir por onde começar. Humores variam, fico “zapeando” infinitamente pela Netflix e acabo mesmo assistindo vários desenhos novos ou revendo séries antigas. Fora que uso Netflix Roulette exatamente como um shuffle de música: pulando várias até aparecer algo que minimamente me interesse. Não exatamente aleatório ou desbravador.

E nem só de Netflix se vive: mais serviços de streaming estão oferecendo produções exclusivas. A Amazon Prime finalmente chegou ao Brasil, com séries muito elogiadas pela crítica e vencedoras de prêmios (vide Transparent – em inglês). A HBO agora lançou o HBO Go para assistir suas produções sem precisar assinar TV a cabo – diferente do HBO Now. Até a Globosat está pensando em lançar um serviço de futebol ao vivo e filmes. Lembra que a Netflix perdeu muitas novelas mexicanas de seu catálogo porque a Televisa resolveu investir em seu site (#saudadesAUsurpadora)? Fica mais difícil tomar uma decisão.

Claro, isso tudo tem um recorte de classe e região bastante específico. Não estou desconsiderando o contexto brasileiro em que a TV aberta, especialmente as novelas, tem um peso muito forte. Ainda assim, o impacto do online é forte: a Globo disponibilizou os primeiros episódios de Justiça e Supermax primeiro na internet. Creio eu porque se pensa a repercussão entre o público nas redes sociais. O burburinho ajuda a impulsionar a estreia na televisão.

Temos muitas opções de conteúdo para escolher só que não precisamos necessariamente da TV. Inclusive, a decisão por TV por assinatura ou serviço de streaming depende dos interesses pessoais. Escolhas. Separar o que gostamos do que não nos interessa pode ser difícil. E tem sempre aquele episódio de Friends que a gente adora rever. O repertório de referências cresce e vamos conhecendo outras coisas parecidas com aquela primeira. É bacana embora ainda me confunda e me exaspere um pouco. Mas isso a gente leva pra terapia, rs.

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