Desenho não é (só) para crianças

Por Marília

Para me desligar do mundo, poucas coisas funcionam tão bem quanto animações e desenhos. Assisto por horas, matando temporadas ou emendando um filme atrás do outro. Engraçado que, geralmente, não consigo fazer isso muito bem quando a coisa é com o mundo “real”. Não que um filme ou uma série “live action” não possam ter esse efeito – inclusive, têm. Sinto que consigo me desligar mais quando é um desenho (para fins de texto, vou alternar os dois termos). É tão gostoso, tão livre, tão divertido.

Mesmo assim, tem gente que considera coisa só de criança. Quer dizer, algumas produções são voltadas para um público específico. Por exemplo, há mais ou menos 10 anos, o Discovery Kids (TV por assinatura) tem dedicado sua programação a crianças bem pequenas, geralmente em idade pré-escolar, com um viés educativo. Certos desenhos funcionam melhor para públicos em faixas etárias diferentes – isso inclui adolescentes e adultos!

Isso não significa que um adulto não possa se divertir com um filme para crianças. Minha mãe sempre via A Bela e a Fera comigo. Era meu desenho favorito, então dá para imaginar quantas vezes assistimos aquela fita (#indicadoresetários). Meu pai preferia – e ainda prefere – desenhos estilo Tom & Jerry ou o desenho do Papaléguas. Do alto dos meus 28 anos, confesso que zapear entre canais infantis é uma das atividades favoritas na casa dos meus pais.

Hoje, parece que desenhos vêm com mais referências feitas para adultos. Filmes da Pixar e DreamWorks são feitos para “toda a família”, com piadas para apreço de pais e filhos. Ou colocando uma referência que passa batido pelas crianças mas faz um adulto dar risada. Shrek é um dos melhores exemplos: satiriza o gênero dos contos de fadas, está cheio de referências à cultura pop e piadas de duplo sentido. Na parte das séries, O incrível mundo de Gumball, Gravity Falls e O irmão do Jorel cumprem super bem esse papel.

Só que desenho não é só um programa familiar. Encontrar um desenho na Netflix é muito chato embora o serviço tenha uma boa oferta. Existe uma seção “Anime” (ponto pra Grifinória!) e uma seção “Filmes para a família e crianças” – que é importante mas, poxa, não é só isso. Animação é um dos muitos meios de se contar uma história. E, nesse sentido, há uma variedade incrível de histórias, traços e faixas etárias!

O Adult Swim, por exemplo, é um canal que dividia o horário noturno com o Cartoon Network e agora está no TBS Brasil (TV a cabo). O foco? Desenhos para adolescentes e adultos – Space Ghost Costa a Costa e Harvey Birdman são os que lembro de assistir. Já temos até alguns clássicos nesse meio: Simpsons, South Park, Family Guy – desenhos que fazem sentido para um público mais velho. Mais recentemente, Rick e Morty e BoJack Horseman (disponíveis na Netflix) seguem nessa toada. BoJack, aliás, parece uma série que só por acaso é desenhada.

Outros ficam no meio do caminho – Hora da Aventura e Apenas um show são para crianças mas não são para crianças. Fico imaginando como uma criança vê esses programas e não consigo me colocar no lugar. Há elementos que atraiam o público infantil – só não são os que me atraem (dãr, você não é criança!).

Mesmo falando de filmes, existem muitas animações contando as mais variadas histórias das formas mais diferentes possíveis. Ainda assim, as animações premiadas no Oscar são aquelas “para toda a família” no estilo Disney, Pixar ou DreamWorks. A Pixar ganhou oito vezes desde que a categoria de animação foi introduzida em 2001 (em inglês). Entre os indicados de 2017, temos três filmes considerados “indies” e dois do Walt Disney Animation Studios. Realmente espero que Zootopia não leve. Adorei o filme, é fofo e divertido. Porém não acho que é uma animação melhor que Kubo, por exemplo (ainda não vi os outros concorrentes para opinar).

Parece que, na hora de decidir a melhor animação, o critério é “diversão para todos” ou filmes que nos fazem sentir como crianças de novo. Isso não é ruim em si. Mesmo porque a nostalgia é um fator nas animações – talvez, justamente por isso, seja mais fácil desligar do mundo com elas. Desenhos que nos fazem sentir como crianças outra vez (como Zootopia, Procurando Dory ou mesmo Frozen) são uma delícia de assistir. Agora, ser a principal razão para premiar filme parece desmerecer toda a categoria.

Deadpool me fez rir demais e sair do cinema mais leve. Nem por isso vou indica-lo a melhor filme de 2016. A experiência pessoal conta e muito. Inclusive, você pode sim discordar de mim e indicar Deadpool nessa Academia imaginária de que falamos. Mas esse é o único critério para avaliar uma obra?

Animações têm muito potencial, elas proporcionam uma liberdade de criação difícil de conseguir num filme (ou numa série) “normal”. Dá para brincar mais sem gastar tanto. Dá para fazer o público sentir uma gama imensa de emoções com personagens totalmente diferentes e histórias inesperadas. Tudo isso com um viés artístico e criativo diverso daquele do mundo real. Quero que isso seja mais valorizado e, para isso, a premiação de outro tipo de obra no Oscar pode ser fundamental.

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