Ócio e criatividade

Por Emannuel 

Um dos meus ditados preferidos sempre foi “mente vazia, oficina do diabo”. Primeiro porque colocava o diabo no meio de uma coisa que eu gostava de fazer, e isso satisfazia meus impulsos iconoclastas de adolescência, mas também porque ele indica, de certa forma, que não é possível um alheamento total, que, mesmo deixando de lado todos nossos pensamentos, uma força exterior viria até nós para nos preencher e estimular a fazer algo, ainda que nada socialmente construtivo.

Eu devia ter uns quinze anos quando um professor me emprestou um livro do Domenico de Masi, mais conhecido por ter desenvolvido o conceito de Ócio Criativo. Não era esse o livro, mas seu título estava na capa, naquelas estratégias de marketing do tipo “do autor de”, e acabou sendo o que mais me impactou, porque fiquei imaginando o que deveria ser esse tal de ócio criativo. A minha imaginação imediatamente me levou a acreditar que era algo parecido com esse velho ditado, um argumento de que, se não fazemos nada, a vida ou o universo uma hora chega e dá um puxão na nossa perna, uma inspiração. A verdade não é essa, e o sociólogo defende algo muito mais realista, e também muito mais chato. Mas, naquela época, inspiração do nada era algo que fazia muito sentido para mim. As tardes eram cheias de horas sem nada para fazer, e mesmo aquele cochilo pós-almoço de dava tempo suficiente para estudar, ler, escrever e passar horas olhando para o teto do meu quarto pensando em todas aquelas coisas que a gente sempre pensa quando tem quinze anos.

Sem dúvida, essas horas só existiram para mim porque não era uma daquelas crianças (ou adolescentes, nesse caso) que tinham várias atividades. Não tinha aulas de inglês ou jogos de futebol, só via meus amigos nos fins de semana, esse tipo de coisa. Nesse sentido, minha juventude foi muito mais vazia de experiências, então eu precisava inventá-las. O que fez com que, mesmo assim, fossem muito importantes para mim, para quem sou hoje. Quando lembro como escrevia naquela época, caderno depois de caderno, não posso deixar de ter inveja de mim mesmo. Talvez a adolescência seja só uma época na qual nossa criatividade aflora, mas isso não muda o fato de que, muitas vezes, tenho a impressão de simplesmente não ter tempo ocioso na minha vida atual.

Essa é uma observação um tanto controversa de se generalizar. Por todos os parâmetros, eu tenho muito tempo livre. Meu trabalho consome muito pouco da minha vida e mesmo as outras atividades às quais me dedico são bem modestas se considerarmos quanto tempo realmente tenho todos os dias. Passar duas horas escrevendo todos os dias, por exemplo, não faria muita diferença na minha rotina. Mas acho que não tenho tempo ocioso pelos mesmos motivos que toda minha geração não o tem: porque temos milhares de opções para nos ocuparmos quando não estamos fazendo nada. Nosso cérebro nunca está realmente parado.

Nossa geração trabalha como se não houvesse amanhã. Seja porque está fazendo o que ama e isso paga pouco então você tem que fazer muito mais do que o normal, ou porque você está naquele trabalho não tão legal para acumular uma grana e poder começar sua vida adulta bem, mas esse trabalho tem horas extras desumanas. Quando você chega  em casa coloca a nova série da netflix na sua TV e mesmo naqueles trinta segundos entre um episódio e outro manda uma mensagem no whatsapp para o seu crush ou checa as centenas de mensagens naquele grupo de amigos que você não vê há tempos. A pausa no almoço são complementadas com vídeos de gatinhos fazendo coisas fofas. Aprendemos a dormir ao som de podcasts para não pensar na morte e na imensidão do universo e outras coisas do tipo que sempre entram na nossa cabeça nessas horas.

Pareço um ludita falando assim, porque a maior parte das atividades que ocupam nosso cérebro hoje está de alguma forma ligada à tecnologia. Mas nem tanto. As possibilidades digitais simplesmente amplificam uma tendência que é nada mais do que humana. O ócio nos força a confrontar e pensar em coisas que muitas vezes nos são desagradáveis. Não existe nenhum problema em não querer pensar nessas coisas. Mas a troca que fazemos é uma que, muitas vezes, nos cansa mais do que esperamos. O cérebro em atividade constante não espaço para manobrar, para desenvolver ideias, criar coisas novas. E aquelas atividades, que dependiam da nossa falta do que fazer para serem realizadas, ficam de escanteio.

No fim, a minha ideia sobre ócio criativo pode estar completamente errada, mas ainda mantenho a convicção de que uma mente exausta não consegue produzir nada que mereça ser feito. Tudo se desmonta numa colagem de coisas que tiramos daqui e dali, nunca de nós mesmo, porque perdemos o tempo do auto-conhecimento.

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