Best-sellers do The New York Times

Por Emannuel 

O jornal The New York Times é, há bastante tempo, uma referência para as vendas de livros na terra do tio Sam. Eles publicam, semanalmente, várias listas de mais vendidos, e figurar nelas geralmente acaba aparecendo na capa da maioria desses. É um dos parâmetros para se medir o sucesso de uma obra. Talvez o principal deles. Recentemente, no entanto, o jornal anunciou que cortará boa parte das listas específicas, especialmente as voltadas para o mercado virtual. O que quer dizer que muitas campanhas de marketing perderão o filão de contar vantagem dessa maneira, e vão precisar concorrer em categorias mais amplas.

A resposta foi, como era de se esperar, bastante negativa, especialmente no Twitter. As pessoas mais afetadas, para não dizer prejudicadas, por isso são os autores de livros self-published. Se, há alguns anos, era muito difícil ou custoso lançar um livro, pois esse precisava da aprovação de uma editora ou de um grande investimento por parte do autor, hoje a internet facilita esse processo. A Amazon tem todo um sistema que permite que aqueles que seriam apenas aspirante a autores coloquem suas obras no mercado. Publicar um livro, especialmente virtual, se torna algo semelhante a postar em um blog. Foi dessa forma, ou de semelhantes, que alguns dos grandes sucessos dos últimos anos estouraram, como a série 50 tons de cinza ou o romance de ficção científica The Martian. E chegaram até a lista de mais vendidos do New York Times.

Para muitos desses casos, a única validação de qualidade se manteve justamente no número de vendas. A saga escrita por E. L. James, por exemplo, é amplamente execrada pela crítica, e sua falta de qualidade literária chegou até mesmo ao espaço da opinião pública. Ainda assim, quando lançou Grey, recontando a mesma história do primeiro livro de sua trilogia por outro ponto de vista, ela vendeu mais de um milhão de cópias em apenas quatro dias. Qualquer editora mataria por um sucesso de vendas como esse. Cortar listas de autores auto-publicados, portanto, é uma tentativa do New York Times de defender que os livros não devem ser validados apenas pela sua rentabilidade. Pode ser otimista pensar que isso será suficiente para melhorar a qualidade da literatura. Afinal, quando um desses livros é bem recebido virtualmente, não vão faltar ofertas de editoras tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, o jornal se exime da responsabilidade de dar visibilidade a isso. Do mesmo modo que não é qualquer troll da internet que tem espaço em suas páginas (ao contrário do que acontece no Brasil), não haveria motivo para exaltar as vendas de “qualquer coisa”.

Sem dúvida, essa é uma visão problemática. Basta pensar em quantas vozes não têm acesso aos meios de publicação tradicional. Mas podemos ver a dicotomia entre os dois extremos desse mercado. De um lado, temos as editoras, especialmente aquelas pequenas e independentes, que fazem um trabalho extraordinário de seleção de obras, preparação gráfica e, muitas vezes, tradução. Se, lá fora, existem Open Letter, Persephone ou Deep Vellum, aqui no Brasil temos a Patuá, a Ubu e tantas outras. Essas editoras não colocam as vendas em primeiro lugar, mas sim a qualidade e a chance de dar visibilidade aos invisíveis da sociedade. Self-publishing está no extremo oposto. Ainda que sua motivação seja um desejo da pessoa que escreve de fazer circular suas ideias, a palavra final é sempre dada pelas vendas.

Dentro do próprio mercado, no entanto, as maiores críticas estão voltadas ao fim das listas de quadrinhos e mangá. Está última não fazia muito sentido de qualquer modo. O mangá é, em sua esmagadora maioria, uma publicação serial e contínua. A venda de um único número em toda uma franquia tem um valor muito diluído. De forma semelhante, os quadrinhos semanais, com seus X-Men e Super-homens, se encaixariam no mesmo quesito. Quem sai prejudicado, nesse caso, é o modelo de Graphic Novel, que agora vai precisar concorrer com as novels que não são graphics. Ou, se meu trocadinho não surtiu efeito, os romances tradicionais. Evidentemente, isso significa uma concorrência muito mais complexa. Alguns quadrinhos, como Sandman, Maus ou Watchmen, já conseguiram vencer essas estatísticas, mas são casos muito raros. Uma editora pequena, que provavelmente irá investir numa história ousada, dificilmente conseguiria chegar a esse patamar. Esta falta de reconhecimento é tida, por muitos, como a causa desse tipo de arte ter permanecido, por grande parte de sua história, como algo de nicho.

Uma das questões que eu não pude deixar de me fazer é por que essas listas deveriam ser feitas pelo New York Times. Nada impede de uma publicação do ramo de quadrinhos, por exemplo, de ter sua própria lista. Ainda que o NYT seja uma referência e que a objetividade seja algo cada vez mais raro, acredito que essa tomada de poder seria algo verdadeiramente positivo. Assim como o corte dessas listas pode ser positivo para os valores e para a análise qualitativa ao invés de quantitativa no meio que é o jornal.

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