O tal bode dos musicais

Por Marília

Com as premiações recentes, saíram muitos comentários sobre La La Land e, de quebra, sobre musicais como um todo. Taí um gênero que não agrada a todos. Tudo bem, porque não é pra gostar de tudo. Porém, junto com a crítica ao filme e ao gênero, costumam vir críticas aos fãs de musicais, com uma pitada de esnobismo. Já falamos sobre preconceito literário aqui e cabe reforçar:  pessoas podem gostar de coisas diferentes ao mesmo tempo. Dá para ouvir Childish Gambino, ler Natalia Ginzburg, assistir Thor e curtir tudo isso sem crise.

Honestamente, adoro musicais. A grande falta de qualquer talento para cantar ou dançar talvez tenha reforçado meu carinho pelo gênero. Sou dessas que vê um musical e aí ouve a trilha sonora em looping e arrisca – sem sucesso – aprender as coreografias.

O que não significa curtir absolutamente todos os musicais ou olhar para o gênero sem críticas. Por exemplo, detesto Moulin Rouge. E, mesmo com Meryl, a versão para os cinemas de Mamma Mia não foi lá essas coisas – e a peça, em São Paulo, sofreu com uma protagonista muito inferior aos colegas de cena.

Também tenho dificuldades com musicais que são inteiramente cantados (conhecidos como sung-through). Algumas pessoas acham ridículo; eu acho cansativo. A parte ridícula depende do conteúdo das letras. Les Misérables é inteiramente cantado. As músicas são muito boas, porém falta uma pausa (obrigada, intervalos do teatro!). É um musical bem emocionante e dramático. São poucas as cenas de humor.

Rent, por outro lado, é quase todo cantado, com algumas falas entre as músicas. Adoro a obra e ela é bem ridícula – no melhor e no pior dos sentidos. O ridículo é usado de propósito e sem perceber também. A obra é engraçada, despachada. E as letras são um pouco absurdas: “You look familiar / Like your dead girlfriend” entrou para os anais. Mesmo assim, me divirto imensamente assistindo. Outras peças são totalmente baseadas no absurdo como The Book of Mormon – e, por isso mesmo, maravilhosas. Quero dizer aqui que é bom abraçar o ridículo de vez em quando.

Músicas ajudam a contar uma história. Veja bem, não disse que toda música ajuda, que apenas músicas ajudam ou que toda história precisa de uma música. É um recurso dentre muitos. As músicas têm a ver com o momento, podendo reforçá-lo ou fazer contraponto a ele. E, nesse sentido, atuam para transportar e intensificar partes de uma obra. Além disso, músicas transmitem mensagens de uma maneira muito fácil, facilitando a conexão com personagens e situações que vivem.

Não precisa ser música composta especificamente para aquela peça ou filme. Em 2014 (se não me falha a memória), assisti Vingança, um musical feito inteirinho com músicas do Lupicínio Rodrigues. Foi maravilhoso, uma das melhores montagens que já vi. Rock of Ages faz o mesmo com vários sucesso do rock.

Outra crítica é que musicais não são realistas, porque ninguém sai por aí cantando do nada. Esse argumento me incomoda porque realismo não exatamente é base para avaliação. É apenas um elemento da obra. Várias produções não são realistas: Game of Thrones, Senhor dos Anéis, Harry Potter. Nem por isso são odiadas ou rejeitadas apenas com base nessa premissa.

Musicais são diversão, entretenimento e cheios de referências. As músicas de Hamilton, por exemplo, são repletas de referências do hip hop (em inglês). Não só isso: também fala sobre diversidade num momento político muito específico. Hair é um produto de seu tempo e, por isso, funciona muito bem para entender o contexto histórico dos EUA nos anos 1960. Trazendo pro contexto brasileiro, assistir Wicked, uma peça centrada na amizade de duas mulheres, num ano que tanto se falou sobre feminismo foi providencial. É escapismo e não é. A obra pode estar super relacionada com o contexto em que é produzida ou não – e, de novo, tudo certo.

Por fim, justamente por essas referências, musicais podem servir de porta para acessar outros conteúdos. Alguns musicais são clássicos do cinema (Cantando na Chuva, por exemplo), outros são ícones cult (The Rocky Horror Picture Show). Ambos podem servir para explorar mais obras cinematográficas. Exemplo pessoal: Nine é baseado em Oito e Meio, do Fellini. Nunca tinha visto o filme e fiquei curiosa depois do musical.

Ou seja, musicais são, basicamente, como qualquer obra. Tudo bem se você não gostar, mas deixa o amiguinho cantar as show tunes em paz.

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