A Serviço dos Fãs

Por Emannuel

No ano passado, um amigo postou nas redes sociais sobre o filme Warcraft, e seu comentário me fez pensar. Ele argumentava, basicamente, que os críticos tinham caído em cima de um filme que, no fim das contas, valia o ingresso no cinema. Eu não cheguei ao ponto de seguir seu conselho ao pé da letra, mas acabei dando uma chance para o filme eventualmente, depois de já ter saído de cartaz. Por que fiz isso? O filme é dirigido pelo Duncan Jones, que além de ser filho do David Bowie, meu artista preferido ever, também já foi o responsável por alguns filmes bem legais, especialmente Lunar. Mas fui ver com expectativas baixas, afinal, já tinha ouvido muitos comentários negativos também. Poderia ter sido muito pior, é verdade. A premissa básica da história não é tão ruim, para quem cresceu vendo Sessão da Tarde, mas é cheia de clichês, e nem todos eles são bons. As atuações, no entanto, são unanimemente horríveis. Me pareceu absurdo que um estúdio tenha escoado tanto dinheiro nessa produção, feita para ser um blockbuster, mas não tenha se dado ao trabalho de investir em nenhum ator ou atriz decente. Até Eragon tinha Jeremy Irons e Rachel Weisz, embora não tenham sido suficientes para evitar aquele desastre.

Muitas vezes consideramos a crítica como uma simples manifestação de um esnobismo, ou mesmo de um preconceito, cultural. Qualquer um de nós já passou por aquela situação de gostar de uma coisa que é considerada ruim. Essa é basicamente a descrição do conceito de guilty pleasure. E, nessas horas, inevitavelmente pensamos “quem são essas pessoas para decidir o que é bom ou não?” ou reconhecemos que gostamos de algo por motivos que escapam à razão. Ou seja, nos dividimos entre o não-reconhecimento da crítica e o fato de sermos fãs. Um dia vou escrever sobre a diferença entre avaliação estética e gosto, mas hoje pretendo focar mais no outro ponto.

Ser fã de alguma coisa é meio como estar apaixonado. Não existe uma razão que mereça esse nome para fazer parte de algum fandom. As razões são muito mais pessoais. O fã é sempre uma função social, muito antes de ser uma questão de gosto. Aquele desenho que você via quando criança representa uma parte da sua história, é uma forma de criar um laço que representa, para sua própria consciência e para as demais pessoas, uma parte de quem você é. Aquela banda que todos os seus amigos curtem é um símbolo da sua identidade de grupo; vai muito além de ter um assunto para conversar ou companhia para os shows, para o fã, aquilo faz parte da sua vida. Por isso é tão difícil avaliar racionalmente uma coisa com a qual nos relacionamos dessa forma.

Aquele meu amigo é fanático pelos jogos que inspiraram o filme de Warcraft. Ele conhece as sutilezas que o foram colocadas ali justamente para pessoas como ele. Porque isso é uma das coisas que alimenta a indústria cultural contemporânea. Seus produtos não apelam para a qualidade, ou mesmo para o gosto, pois o retorno disso seria sempre marginal, pouco seguro. O que sempre dá resultados é apelar para esses fatores sociais que fazem com que a experiência cultural se torne uma marca de identidade. O fan-service é basicamente isso; um agrado dado aos fãs que vai apertar seus botões emocionais, revivendo sua experiência de satisfação. Diante disso, quem conseguiria fazer uma avaliação fria e calculista?

E, do mesmo jeito que todos naquele grupinho de amigos emo gostava de My Chemical Romance, as referências do fan-service nem precisam ser tão diretas assim. Esquadrão Suicida, por exemplo, um filme sobre personagens que mesmo quem gosta de quadrinhos possivelmente não conheceria, foi massacrado pela crítica, considerado em muitos veículos de informação como um dos piores, se não o pior, filme de 2016. No entanto, foi um dos maiores sucessos de bilheteria do ano passado. Simplesmente por fazer parte do mesmo universo de Batman e Super-Homem, por estar num momento em que quadrinhos são algo que tocam esses botões.

Isso, é claro, nos traz a outra questão: quando a estética e o gosto são abandonados, a única métrica da qualidade de uma coisa é seu sucesso. No caso dos filmes que citei, o dinheiro que fizeram com a bilheteria serve como sua validação, por mais que sejam ruins e ninguém goste deles. O problema aí é maior, e está intimamente ligado ao sistema capitalista. Mas isso não muda o fato de que essa bilheteria representa o alcance dessas obras. A simples escolha do público de ter ido ver Batman Versus Superman ao invés de algum outro filme indica a eficiência do fandom, pois a escolha se baseia no significado que o consumidor relaciona àquilo. Ver esse filme é uma escolha feita com base nas pessoas com quem vai poder discuti-lo, a companhia no momento, o significado e proximidade que aquele tema tem do indivíduo. É um investimento de tempo, se não de dinheiro, e o fã é aquela pessoa que quer uma poupança segura, não riscos. Gosto e qualidade são dois pequenos fatores num mar de possibilidades.

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