Sendo cri-cri: Rent

Por Marília e Aline (em contribuição especialíssima!)

Como já estabelecido na última newsletter, musicais são amor. Rent é um dos musicais mais famosos desse universo. A peça estreou oficialmente em 1996 e foi adaptada para o cinema em 2005 com boa parte do elenco original reprisando seus papéis. Baseada em La Bohème, de Puccini, conta a história de seis pessoas vivendo na Alphabet City (East Village), em Nova York, conhecida por abrigar muitos imigrantes latinos e africanos e que sofreu forte processo de gentrificação a partir de meados dos anos 90 – ou seja, justamente no período em que a peça foi criada e produzida.

Rent é uma das principais obras a desconstruir a imagem clássica dos musicais. Chegou em uma época em que os horizontes do gênero estavam se expandindo e a música era cada vez mais vista como um maravilhoso recurso para contar todo tipo de história. Tanto que um dos maiores temas de Rent é o HIV/AIDS. Vários personagens são soropositivos. Algumas das melhores músicas, como “Life Support” e “Will I”, falam das angústias relativas à doença. Rent humaniza muito bem a situação, mostrando a convivência com a doença e as questões postas a viventes e sobreviventes.

Além disso, Rent aborda – direta e indiretamente – a diversidade. Personagens latinos, negros, judeus, brancos, homens, mulheres, gays, héteros, drag queens… Retomar essa peça hoje, num ambiente de ódio e intolerância, é essencial. Por nos aproximar de diversas vivências, opiniões, realidades, personalidades, criações, jeitos, tira aquilo que nos faz outro. Conhecimento é a melhor arma contra o preconceito e, conhecendo esses personagens, levantamos um muro.

Bom, tudo isso para dizer que uma adaptação da peça está em cartaz no teatro Frei Caneca, em São Paulo. Não é a primeira versão brasileira de Rent e esperamos, com toda força, que não seja a última. A produção é de baixo custo, o que não prejudica a montagem – pelo contrário, Rent tem exatamente essa pegada. A dura vida de artistas boêmios em Nova York é um dos eixos da peça. O próprio nome do musical remete às dificuldades financeiras dos personagens, que não conseguem pagar seus aluguéis. Os cenários e figurinos funcionam em sua simplicidade.

Manter a banda no palco durante a peça é uma proposta diferente e interessante – lembrando que Rent é um musical inteiramente cantado, com algumas frases pelo meio – e essa escolha passa a percepção de um show, o que cabe muito bem na trilha rock’n’roll. As traduções, no geral, também agradam, algumas mais que outras. “Life support” ganhou bons versos, como “Viver é pra já” (“No day but today”) e “O que passou não vai te definir” (“Forget regret or life is yours to miss”). Por outro lado, o verso “Me aceita ou vaza” (“Take me or leave me”) não caiu tão bem.

Por ser praticamente sung-through, é imprescindível que os atores tenham poder vocal e presença de palco – e aqui está o problema dessa montagem. Myra Ruiz e Max Grácio foram (as únicas) escolhas acertadíssimas. Depois de fazer Nina (In the Heights) e Elphaba (Wicked), Myra faz jus a Maureen, um dos papéis mais cativantes da história. Max, que até o segundo ato não tem a oportunidade de realmente soltar seu vozeirão, impressiona ao cantar a reprise de “I’ll cover you” – uma cena arrepiante, no melhor sentido.

Outras boas participações incluem papéis cômicos menores, especialmente nas cenas de recados na caixa postal. É impossível não rir com Thuany Parente fazendo Alexi Darling e Carol Botelho como Sra. Cohen – ambas muito boas. Bruno Sigrist faz vários pequenos papéis e consegue segurar bem o rojão. Aparentemente, ele faz o cover de Mark e seria bem interessante ver como fica o rapaz num papel maior. Bruno fez Moritz em O Despertar da Primavera e conseguiu segurar o então dueto com Letícia Colin, um belo crédito para se carregar.

A escolha dos demais, no entanto, não se explica. Livia Graciano não estar no papel de Joanne é, honestamente, um insulto. Lívia canta as notas altas de “Seasons of Love”, originalmente de Joanne, mas o papel em si foi dado a Priscila Borges. Sua representação da séria advogada em um relacionamento lésbico com uma artista boêmia não é de todo mal, porém poderia ser consideravelmente melhor. O contraste com a poderosa voz de Myra Ruiz em “Take Me or Leave Me” é evidente. E não passou despercebido que Priscila, branca, está fazendo o papel de uma mulher negra. Na peça original, Joanne é negra, o que a montagem optou por manter – seus pais são vividos por atores negros. Entretanto, diante da opção de uma atriz negra com uma voz potente o suficiente para arrasar nas notas de Joanne, a montagem escolheu dar o papel a uma atriz branca com dreadlock e uma voz mediana.

Um dos personagens mais queridos de Rent é Angel. A drag queen tem ótimos números, é engraçada, pula, canta e dança. Diego Montez esbanja simpatia e dança muito bem nas altíssimas plataformas usadas por Angel. Talvez a produção tenha privilegiado as habilidades de dança de Diego. Infelizmente, sua potência vocal deixa a desejar, em especial ao dividir o microfone com Max.

Roger e Mimi são a parte mais dispensável de Rent. Os personagens são chatos, suas músicas são um tanto bizarras – intencionalmente – e o final, quando Mimi tem uma overdose, beira a vergonha alheia. Para que Roger e Mimi funcionem, o tom ridículo tem que ser proposital – os atores precisam de carisma, boa atuação e boas vozes para que o público não se envergonhe com cada cena. Thiago Machado (Roger) tem bons momentos e impõe um visual mais punk ao personagem. Não mantém, entretanto, a qualidade ao longo de toda a peça – sua atuação tem baixas consideráveis.

Ingrig Gaigher tem excelente expressão corporal, o que evidentemente é importante para viver a dançarina e stripper Mimi. Entretanto, nem só de pernas altas se faz “Out Tonight”. Em seu grande solo, tão pouco se escutava de sua voz que mal compreendíamos a letra em português. Se por falta de potência vocal ou desregulação do som, o fato é que a banda se sobrepunha aos vocais – aliás, um problema que se repetiu em outros momentos da peça. Em “Without You”, os suspiros de Ingrid exercem um papel maior do que sua voz. Mimi é uma personagem sexy, explosiva e intempestiva, e exige uma voz com potência para refletir sua personalidade. Ingrid, infelizmente, não entrega.

Entre todas as escolhas questionáveis para o elenco, Bruno Narchi não foi a pior, mas dada a importância de seu personagem, talvez tenha sido a que mais prejudicou a peça. Mark é o narrador da história, a cola entre os personagens. É também o vocal que conduz a música mais importante da peça enquanto os demais lhe fazem coro. Mas Bruno some entre as vozes dos colegas em “La Vie Bohème”. Talvez mais um problema de desregulação de microfone. Porém, a pouca potência de sua voz é aparente em outros momentos – e sua atuação não consegue cativar o suficiente para a história que conta.

Gostaríamos de poder fazer outra recomendação ao fim desse texto, mas, infelizmente, precisamos admitir que vale mais investir em uma boa sessão de pipoca com o filme de 2005 do que na atual montagem brasileira. Aliás, em uma boa sessão de vinho e cerveja, por favor.

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