Entretenimento e conhecimento

Por Emannuel

Sempre fui meio nerd. Ou, como a gente dizia nos idos anos 90, CDF. Isso não quer dizer que era particularmente inteligente, nem que tinha facilidade com alguma área específica do conhecimento, mas simplesmente que eu gostava de saber das coisas, de acumular informações. Acho que foi isso que me fez começar a gostar de ler de verdade. Me agradavam aqueles livros sobre lugares diferentes, muitas vezes escritos ou ambientados no passado. Eu sentia que aprendia com isso e simplesmente ter esse conhecimento era algo muito prazeroso.

Conforme o tempo foi passando, descobri muitas outras coisas que se tornaram mais importantes para mim na experiência da leitura, e a imensa maioria daqueles factoides que havia guardado na memória foram se perdendo, por um motivo ou outro. Hoje em dia simplesmente saber um fato ou outro não me parece importante, é uma daquelas coisas que acabam colocando na nossa cabeça, que “decorar” uma curiosidade não tem muito valor, que é mais importante ter uma capacidade de fazer contas ou de pensar a história criticamente, essas coisas que são superimportantes de ouvir quando somos crianças, mas que desestimulam a curiosidade. Quando leio um livro agora, gosto de que me faça pensar, ponha meus valores em questionamento, mesmo quando leio sobre uma realidade diferente, a visão panorâmica prevalece. Se reler O Vermelho e o Negro, por exemplo, vou pensar na estrutura social e política da França no segundo império, deixando passar batidos detalhes sobre como as pessoas dançavam ou seus hábitos alimentares, por exemplo. Esses pequenos detalhes não precisam mais ficar na nossa memória, caso surja a curiosidade, é só sacar o telefone do bolso e procurar a resposta no Google.

O que não quer dizer que minha necessidade por factoides sumiu completamente, ela só migrou para outros meios de entretenimento. Só nessas doze edições da newsletter já declarei o meu amor pelo podcast No Such Thing as a Fish duas vezes, e farei isso mai uma vez: se você é uma pessoa que, como eu, adora informações curiosas, ou simplesmente curte podcasts, não pode deixar esse de fora da sua lista. A cada semana, a equipe de host traz quatro fatos, dos mais variados tipos. Você vai aprender muito sobre animais, acontecimentos históricos, ciência, e até uma ou outra coisa prática para a vida. Tudo isso apresentado por um time de comediantes realmente engraçados e cujo entrosamento faz você se sentir parte grupo. Alguns dos temas abordados em episódios recentes são: o que acontece com ET, do filme de Spielberg, nos livros que dão continuidade à sua história, ou como um dos bichos mais lindos que eu já vi pode envenenar até vinte pessoas, mesmo sem ser venenoso.

Sou tão fã desse podcast que já devo ter escutado cada um dos seus episódios mais de dez vezes, e continuo descobrindo coisas todas vez que coloco os fones de ouvido. Sou tão fã, na verdade, que fui atrás do programa de TV que deu origem ao podcast. Os apresentadores do NSTAAF são a equipe de pesquisadores por trás da tradicional série QI, da BBC (abreviação de Quite Interesting, Bem Interessante). O programa, apresentado por Stephen Fry, escritor e ator, ao lado do comediante Alan Davis, recebe uma série de participantes, como a Sue Perkins, apresentadora do Great British Bake Off, para episódios temáticos. Com temporadas correspondentes a letras do alfabeto (a mais recente, N, teve episódios dedicados a Números e Noodles, por exemplo), a série funciona quase como uma enciclopédia de curiosidades, apresentadas com bom humor, de um jeito que ficaria ótimo num programa da TV Cultura dos anos 90, mas com um humor britânico por vezes nada infantil  (e todos os episódios estão, sem legendas, no YouTube!).

Esse tipo de cultura, servida em doses homeopáticas, tem um charme muito especial. É muito divertido experimentar as coisas desse jeito, elas tem gosto de entretenimento na nossa boca. O que não é dizer que seja um entretenimento popular. Poucas pessoas além das que realmente têm um impulso interno por descobrir coisas interessantes porém irrelevantes poderiam se interessar.  Mesmo podendo gerar um ou outro comentário legal numa mesa de bar, essas formas de entretenimento não criam um conhecimento verdadeiro, no máximo despertam seu interesse para ir atrás de algo. É completamente diferente do que acontece em séries que tem um propósito em algum nível educacional, como a minissérie documental Cosmos.

Originalmente criada nos anos 80 por um dos primeiros físicos a entrarem na cultura pop, Carl Sagan, Cosmos é uma série que explica conceitos básicos para entender o universo, seja sobre micro-organismos ou buracos negros. Por mais carismático que Sagan seja, no entanto, vale muito mais a pena ver a versão mais recente, em que Neil DeGrassi-Tyson recria a trajetória da série antiga de forma mais acessível para o público contemporâneo. Ela mantém o escopo da série original, apresentando diversas informações científicas por vezes densas através de uma narrativa fácil de compreender, que acompanha grandes descobertas de vários ramos do conhecimento. A nova versão não se restringe a cientistas clássicos, como Newton, mas busca incluir na sua narrativa algumas figuras com as quais a história e a fama não foram tão gentis. É, sem dúvida, a melhor minissérie documental para quem quer aprender um pouco sobre o universo, ao mesmo tempo conseguindo ser muito mais divertida do que sua concorrente inglesa, Wonders of the Universe, na qual Brian Cox explora tematicamente tópicos muito próximos dos abordados por Cosmos, mas, ainda que também seja carismático, sem a mesma descontração. Temos a impressão de estar vendo um documentário como os daqueles canais da TV a cabo que ninguém assiste, enquanto Cosmos tem o distinto gosto da diversão.

Ambas as séries estão disponíveis na Netflix, que tem investido também em documentários próprios, que, no entanto, ainda não atingiram um equilíbrio interessante entre conhecimento e entretenimento, ficando muito mais próximo desse último. Séries como Abstract, sobre designers, tem um grande potencial, mas caem na formula de Chef’s Table, focando um personalidades, não em informações. O modelo é ótimo para falar sobre restaurantes (embora mesmo aí fique cansativo com o tempo, perdendo o vigor de Jiro Sonha com Sushis, que inspirou a série gastronômica), e parece um desperdício de fatos. Mas é uma tendência bastante compreensível. Quem se interessa pela informação são aqueles CDFs, enquanto as histórias pessoais tem um apelo muito maior, atraindo públicos que podem não ter nenhum interesse nos tópicos originais.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s