Poesia sem barreiras

Por Marília

Quando adolescente, a poesia me assustava um pouco. Na escola, os poetas eram OS POETAS, tinham uma aura de grandiosidade como OS FILÓSOFOS. A relação era de admiração à distância.

Não sei se por isso acabei lendo pouca poesia. Quer dizer, acabei lendo para as aulas ou para o vestibular. Fernando e seus heterônimos, Drummond, Manuel, Mário, Vinicius… E, considerando meu nome, referências a Tomás Gonzaga eram inevitáveis. Pequeno parênteses: honestamente, nunca curti muito Dirceu – a Marília parecia mera desculpa para Dirceu sair se gabando por aí.

Voltando, acabei seguindo poesia de acordo com aquelas grandes linhas literárias. Dificilmente procurava poemas por curiosidade. Existia um medo, um painel de vidro que dificultava minha interação com essas obras. Talvez pela barreira linguística ou pela obrigatoriedade do negócio todo… Poesia era algo para ver e apreciar de longe.

Nessa mesma época de vestibulares, acabei trombando com um poema da Florbela Espanca que despertou uma reação diferente. Se não me engano, foi a professora de redação quem me passou a dica. Fui atrás da autora e gostei muito daquele livrinho que encontrei – uma edição de bolso da LP&M. Foi a primeira experiência mais próxima com a poesia.

Acabei me interessando por outras leituras, outros autores e deixando a poesia um pouco de lado. Comprei aquela edição laranja linda do Leminski. Folheava, lia uma coisa ou outra. Mesma coisa com a obra do Manoel de Barros. São versos a que recorro de vez em quando e que não geram uma reação visceral ou apoteótica – embora sem dúvida sejam poetas brilhantes.

Até que, há uns dois anos, ganhei A rua da padaria, da Bruna Beber, de um amigo queridíssimo (oi, Lé <3). O cartão trazia uma instrução: “O primeiro poema é um soco no estômago. Esteja avisada.” Abri o livro no mesmo dia, no ônibus, voltando pra casa. O aviso claramente não fora suficiente. Fechei o livro e passei o resto do caminho pensando sobre aqueles versos. Nos dias seguintes, terminei rapidinho o livro, que se tornou um dos preferidos da vida. A poesia falava comigo. Logo depois, acabei lendo um útero é do tamanho de um punho, da Angélica Freitas. Outra voz, outro tipo de escrita e mais um espaço no coração. Foi um clique, um estalo – igual ao que Florbela me causou há tantos anos.

Corta para 2017: em janeiro, trombei de novo com livros que tiveram o mesmo efeito. Estava no Twitter quando vi @thatafabris comentar que dois livros muito legais estavam em promoção na loja Kindle brasileira. Dois livros de poesia escritos por duas mulheres negras, o que me interessou ainda mais. E assim comprei bone de Yrsa Daley-Ward e salt. de Nayyirah Waheed.

Yrsa é filha de mãe jamaicana e pai nigeriano e foi criada pela avó adventista no norte da Inglaterra. Não tem muitas informações sobre Nayyirah pela internet. Pelo que encontrei (e pelos poemas), sei que é uma mulher africana, imigrante e que atualmente mora nos Estados Unidos.

bone e salt. (assim, em minúsculo) estão disponíveis apenas em inglês e espero muito que a tradução venha em breve. São poemas incríveis, curtos e intensos. Me vi grifando e marcando praticamente os livros inteiros. Tirava foto pelo celular e enviava para amigos com um “olha isso que incrível!!!” ou “putamerda, saca essa mulher!!”. Lia em alta velocidade, depois voltava, relia, pensava naqueles versos por dias…

Esse potencial da poesia é tão magnífico. Um acender dentro da gente, que tem a ver com como aqueles versos nos falam, com o conteúdo que nos relaciona… E me bateu uma realização bem besta mas não menos significativa: são mulheres escrevendo. Alguns disclaimers: poesia pode ser universal e nos atingir independentemente de quem escreva – tanto que essas duas poetas falam muito sobre raça e ancestralidade, dois temas que não fazem muito sentido pra minha vivência e que, ainda assim, me atingiram em cheio.

Também não significa que goste apenas de poetas mulheres. A questão é que justamente elas me causaram reações tão intensas. Há um elemento de conexão, que fala diretamente à minha experiência de mundo como mulher. E há, também, elementos outros, de outras vivências, outras referências, que geram uma reação tão intensa.

Daí que tenho pensado no quanto poesia é um negócio maravilhoso. Como a conexão que estabelece nos aproxima daqueles versos, daquele conteúdo, daqueles experiências, daquelas pessoas que escreveram, declamaram e leram. Estabelece uma relação tão forte e tão intensa que permite falar sem sobrenome: Bruna, Angélica, Yrsa, Nayyirah, mas também Manuel, Mário, Oswald. Ela traz outros olhares, outras vozes, outras considerações e, de uma maneira quase mágica, todo esse outro acaba se referindo a nós também. Claro que não sempre e nem com todas as vozes: preferimos uns e outros poemas, uns e outros autores. Mas descobrir mulheres poetas tem sido, pra mim, redescobrir aquele estouro que a poesia dá, sem barreiras e sem distanciamento.

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