Inquietações sobre o futuro (mais ou menos distante)

Por Emannuel

Os algoritmos estão por todos os lados. Nas recomendações musicais do Spotify todas as segundas, nas campanhas publicitárias de todos os tipos, até na disposição dos produtos nas prateleiras do mercado ou no design do seu sapato. E sua presença só aumenta. Estamos tão imersos neles que imaginamos um futuro cada vez mais dominado por esse tipo de cálculo matemático. Nem todo mundo se sente confortável com essa ideia. Na verdade, podemos dizer que existe um estranhamento natural do ser humano a esse processo. Freud chamou isso de unheimlich; é aquele calafrio que sentimos quando um objeto inanimado parece vivo, e nada seguiria mais a risca essa definição do que um monte de equações que parecem pensar por si próprias. A reação esperada quando nos deparamos com isso é a de achar uma péssima ideia. De certa forma, muito da tal cultura hipster tem um pouco a ver com isso. As roupas feitas artesanalmente, as mídias analógicas, tudo isso lembra o nosso inconsciente de uma época em que tudo estava sob o nosso controle, que eram as nossas mentes que faziam todas as considerações da sociedade, e os resultados, fossem bons ou ruins, poderiam facilmente ser atribuídos a fatores dentro da nossa compreensão.

Essa é uma visão conservadora que, como todas do tipo, têm uma relação muito forte com nossos medos. Do mesmo jeito que os conservadores óbvios têm medo de que imigrantes roubem seus empregos e mudem sua cultura, esses conservadores menos óbvios, que muitas vezes parecem progressistas, se assustam com a perspectiva de que os algoritmos vão acabar com milhares de trabalhos tradicionais e concentrar o poder ainda mais numa classe favorecida. Esse é um medo bastante lógico, e quase inescapável quando consideramos a facilidade que o sistema capitalista tem de se adaptar a descobertas científicas e tecnológicas. Mas será que esse risco deve fazer com que excluamos completamente a possibilidade de que esse tipo de mecanismo não possa ser, por outro lado, um elemento que nos apropriemos para mudar esse sistema de produção, talvez produzindo um mundo onde a opressão do trabalho não seja sentida como até agora o é na história? O futuro que Marx e Engels argumentavam na Ideologia Alemã (completo, em inglês, no mesmo site) no qual uma pessoa poderia se dedicar ao artesanato, à filosofia, à ciência, sem necessariamente ser artesão, filosofo ou cientista se tornaria muito mais próximo com a apropriação de tecnologias facilitadoras como os logaritmos. Ainda que seu poder possa tão (ou mais) facilmente causar um futuro distópico como os de 1984 ou Admirável Mundo Novo.

Isso já é assustador o suficiente, mas se trata apenas de uma das três ecologias (completo, em português) que, segundo Félix Guattari, caracterizam as relações humanas: a com os outros seres humanos, chamada ecologia social. Além dessa, o psicanalista francês identifica a ecologia mental, que seria a relação do individuo consigo mesmo, e a ecologia ambiental, que caracteriza as relações entre os seres humanos e o mundo externo. Esse último ponto é um no qual as tendências conservadoras e progressistas costumam se misturar novamente. Toda a militância ambiental gira em torno do conceito de manutenção da natureza, se não um retorno a uma visão idílica dela. O antropoceno poderia ser revertido, ou ao menos amenizado. Mas o que faz do antropoceno menos natural do que as eras geológicas anteriores, se somos nós também parte do ambiente? Sim, uma sexta grande extinção está em curso, mas sem as cinco anteriores, nem sequer estaríamos aqui. Isso não quer dizer que tudo está lindo, que devemos continuar destruindo o mundo como estamos fazendo, mas que repensar os paradigmas disso é algo necessário. Replantar florestas e preservar animais é algo bom moral e esteticamente, mas não é necessariamente o caminho para aumentar a absorção de dióxido de carbono, por exemplo.

Viver num mundo sintético não nos parece agradável, assim como a ideia de implantarmos equipamentos eletrônicos nos nossos corpos causa aquela mesma sensação de unheimliche que experimentamos com os logaritmos, por mais que reconheçamos os benefícios de aparelhos como marca-passos e óculos. Mas a verdade é que nosso modo de vida atual, que nos parece tão comum, jamais passaria por natural há algumas décadas. Para retomar um lema marxista, “é preciso historicizar sempre”, e isso significa não só entender nossas condições de vida contemporâneas, mas também que as condições futuras são historicamente construídas, e que não podem ser descartadas simplesmente por um conservadorismo oriundo do medo.

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