Premiando mulheres

Por Marília

Quarta-feira foi o Dia Internacional da Mulher. Nas redes sociais pipocaram matérias sobre o tema, seja abordando  os desafios, preconceitos e violências enfrentados por nós todos os dias, seja celebrando mulheres que marcaram a história, que estão mudando o mundo, empreendedoras, inventoras e afins.

Numa dessas, esbarrei com uma galeria do Estadão com mulheres que ganharam o Nobel de Literatura. Eram poucas fotos. Achei, do alto da minha inocência, que apenas algumas das mulheres que tinham ganhado o Nobel estavam ali. Não. Ali estão todas as autoras que levaram o prêmio. Catorze mulheres. Ca-tor-ze.

Resolvi procurar as laureadas em outras categorias do prêmio. Obrigada boas almas da internet: um artigo na Wikipédia (em inglês) lista todas as mulheres vencedoras do Nobel (em todas as categorias) entre 1901 a 2016. Confesso que existir uma entrada só sobre isso já me desanimou: provavelmente, não seriam muitas. E não são mesmo: 48 mulheres ganharam o Nobel em mais de um século de premiação. Quarenta e oito. O Nicolas Cage fez mais filmes do que isso.

Svetlana Alexievich foi a última mulher a ser premiada: Nobel de Literatura em 2015. Isso significa que nenhuma mulher levou o prêmio em 2016 – a última vez que isso aconteceu foi em 2012. Sério mesmo? Nenhuma contribuição de nenhuma mulher em nenhuma das seis áreas contempladas foi digna de prêmio?

Refletindo muito bem a sociedade, obrigada, a situação só fica mais triste pro Nobel quando analisamos por raça, etnia, religião ou distribuição geográfica. A primeira mulher negra a ganhar o Nobel foi Toni Morrison em 1993 (em inglês). Apenas duas latino-americanas receberam o prêmio: Gabriela Mistral (Literatura, 1945) e Rigoberta Menchú (Paz, 1992). Shirin Ebadi foi a primeira mulher muçulmana da ganhar o Nobel (Paz, 2003).

Uma das razões apontadas para o Nobel ter tão poucas mulheres entre os laureados é que mais da metade das categorias são ciências (em inglês) – e sabemos as barreiras existentes para nós nesses campos (oi, Estrelas Além do Tempo!). Dividindo por categorias, temos: 4 prêmios em Química, 2 em Física, 1 em Economia, 12 em Medicina, 14 em Literatura e 16 em Paz. Somamos 49 prêmios, mas somos 48 mulheres: Marie Curie divou e levou dois prêmios – um de Física em 1903 e um de Química em 1911.

Toda premiação é política. Nessa safra recente de premiações, saíram muitos artigos na gringa sobre os prêmios terem ficado mais políticos ou listas com os momentos mais políticos do Oscar 2017 (em inglês). Porém todo prêmio é político por ser espaço privilegiado e, por isso mesmo, propícios para marcar posição, defender causas e se fazer ouvir. No caso do Nobel, essa politização sempre esteve presente: quem não lembra de Obama levando o Nobel da Paz em 2009?

Quando penso nessas mulheres do Nobel de literatura, lembro de “Um teto todo seu”, da Virginia Wolf, ensaio em que defende a independência financeira e o espaço próprio como condições para que se possa produzir ficção. A obra é passível de muitas críticas, especialmente por desconsiderar diferentes condições e características sociais entre as mulheres. No entanto, o texto não deixa de ser importante: as condições de produção para homens e mulheres, em todas as áreas do Nobel (e da vida), são diferentes.

Além de cumprirmos uma tripla jornada, somos desconsideradas. A produção literária de mulheres é imensa e, ainda assim, as obras costumam ser tachadas de literatura de nicho, feita apenas para mulheres. Uma das maiores autoras contemporâneas, Elena Ferrante, é mulher (quer dizer, não se sabe ao certo, mas para todos os efeitos é mulher). E, apesar de ser celebrada pela crítica internacional, são mulheres que vejo com seus livros. Conheço apenas dois homens que já leram suas obras.

Pensando no ensino de literatura nas escolas, praticamente não estudamos mulheres. Os clássicos passados aos alunos são homens. Elas aparecem mais pelo século XVII, mencionadas rapidamente, e, na literatura brasileira, só no XX, com uma ou outra autora modernista. Apresenta-se uma visão do vasto mundo literário enquanto aquele praticado apenas por uma parte da população. E isso é empobrecedor em todos os sentidos. Falo da mulher aqui e, no entanto, minorias como um todo são esquecidas na produção cultural: negras, latinas, trans, muçulmanas, indígenas…

Por isso a importância de premiar justamente quem é deixada de lado pelo cânone. Porque estimula a procura por outros pontos de vista. Falei da poesia na edição 12 mas a literatura como um todo proporciona essa aproximação com o outro. É instrumento para estimular a empatia, que tanto falta no mundo. Daí a indignação com o Nobel. E nem precisa voltar a 2016: nesta semana, saiu a lista com os finalistas do prêmio Bravo! de Melhor Livro – composta apenas por homens. Logo abaixo, no mesmo post, a Bravo! lista todos os vencedores desde 2005 e, surpresa, nenhuma mulher está ali. Premiar mais mulheres é dar destaque a excelentes autoras e aproximá-las do público. O próprio Jabuti tinha finalistas mulheres nas categorias Romance e Contos e Crônicas. Existe produção de qualidade. Qual a desculpa para seu não reconhecimento?

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