91 é aqui: A Bela e a Fera, live-action

Por Emannuel e Marília

É sempre difícil controlar a expectativa quando uma coisa que fez parte da sua infância vai ganhar um remake. Quando somos fãs de algo, sempre queremos mais, como aquela série que tá na 17ª temporada e a qualidade já não é mesma desde a 3ª e mesmo assim continuamos a ver porque tem todo um investimento emocional por trás daquilo. Por outro lado, rever alguma coisa de tanto tempo atrás pode quebrar a ilusão que cultivamos enquanto crescemos.

Hoje, grande parte do que Hollywood faz envolve o lucro por meio da nostalgia e, como já dissemos aqui na newsletter, nossas ilusões vivem em constante risco. Um remake bom consegue respeitar nossas memórias, talvez até capturar um pouco da magia da obra original, e, ao mesmo tempo, trazer algumas coisas novas, seja em formato, tecnologia ou aparando antigos espinhos presentes no roteiro e que, em outro contexto, podem parecer datados ou politicamente indefensáveis. É tentando fazer essas coisas que surge mais uma versão da Disney, dessa vez com A Bela e a Fera – animação de 1991 indicada seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme.

Não custa dizer que nossa análise vai estar cheia de spoilers. Quer dizer, nem faz tanto sentido chamar esses detalhes de spoilers: nenhum deles estraga a história pelo simples fato de que ela é aquela mesma que você já conhece. Existem algumas diferenças? Sim, existem, mas o arco narrativo é o mesmo, algumas cenas são adaptações diretas do desenho e, principalmente, o resultado final você já sabe, nunca houve dúvida. Mesmo para quem não é tão fã assim da história (como o Emannuel), o desenrolar dos eventos logo traz à memória os acontecimentos seguintes, ou ao menos causa essa impressão. Podemos partir, portanto, para os pontos mais interessantes dessa nova versão.

A tecnologia dos efeitos visuais avançou enormemente nos 25 anos que separam a animação do filme atual. Os grandes estúdios (e a Disney, em especial) já conseguem colocar personagens feitos puramente de computação gráfica para contracenar com pessoas reais e ter o mesmo efeito de naturalidade daquele que existe no mundo da animação, onde humanos, monstros e objetos dançantes têm a mesma consistência uns dos outros. Em 2017, o Lumière de Ewan McGregor é aceito pelo o público como um castiçal sem que precisemos suspender totalmente nossa descrença. Talvez porque já estejamos acostumados a esse nível técnico ou talvez porque é convincente o suficiente. Por outro lado, fazer objetos é sempre mais fácil do que criaturas vivas: a Fera não se sai tão bem na comparação com sua versão original. Existe algo de Pixar na forma com que o personagem se expressa, que fica devendo àquela ameaça que a criatura passava no filme de 91. Além disso, no filme original, os olhos da personagem têm uma importância, visto que ajudam a transparecer o viés sexual da Fera. Os olhos de Dan Stevens, além de serem da cor errada (observação da fã maluca, Marília), são quase sem expressão.

Em outras áreas, no entanto, as alterações causam bons resultados. A principal é dar uma função mais ativa à protagonista. Bela não foge completamente do estigma de vítima de Síndrome de Estocolmo, é verdade (Marília discorda da análise da síndrome como um todo), mas, ao ser mais ativa, sua paixão faz mais sentido. O seu romance ganha alguns contornos de Bonnie & Clyde, ainda que essa Fera seja ainda mais boazinha do que a original. Para tornar os personagens mais próximos – afinal, a coisa toda se passa em três ou quatro dias [Marília achou que o live-action esticaria isso para semanas, o que não ocorre, o Emannuel só percebeu quando viu esse comentário] – o filme adiciona elementos do passado de ambos, servindo como ponte para mostrar que têm mais em comum do que pensam. A rosa, inclusive, aparece como referência simbólica para ambos. Outra mudança interessante é o destaque para a educação cara que a Fera recebeu – o interesse por livros também serve de ponto em comum entre as personagens. Explica, ainda, porque aquela biblioteca estava lá.

A adaptação do romance entre os dois também compatibiliza com a vontade de Bela em escapar da vila em que mora. Esse instinto de aventura é mais convincente pela forma como se demonstra sua não conformação com a cidade no começo do filme. Na versão de 2017, temos conseguimos olhar para a própria cidadezinha e seus habitantes, subindo a escala de problemas: passamos de uma mera diferença de pensamento entre Bela (e seu pai) e os demais para pessoas machistas, bastante conservadoras e até mesmo cruéis. Um filme estrelado por Emma Watson, embaixadora da Boa Vontade da ONU para Mulheres, não poderia deixar de acenar para certas questões – nesse caso, a cena em que lava roupas.

Com isso, a capacidade de Gaston mobilizar a massa dos habitantes a investir contra a Fera depende não mais de seu carisma somente. Na animação original, era possível pensar quão bobas essas pessoas eram para seguir um doido numa investida contra um castelo sobre o qual nada se sabe. Aqui, existe, por trás, um pensamento contrário a diferenças e mudanças. Gaston, inclusive, ganha (um pouquinho) mais de profundidade. Se era o cara boa praça, caçador e comicamente ególatra, passa a ser um veterano de guerra, com saudades das batalhas, possivelmente vítima de estresse pós-traumático, cujo egocentrismo sai do cômico para algo mais assustador. De certa forma, é um retrato do homem de bem que chega a absurdos para conseguir o que quer. Gaston protagoniza um dos melhores números musicais do filme (na opinião do Emannuel) e é o típico vilão que adoramos detestar.

LeFou é possivelmente um dos personagens mais interessantes dessa nova versão. O tolo é humanizado. Sua relação com Gaston ganha nuances e o personagem deixa de ser o padrão de sidekick sem personalidade. Ele fica em dúvida sobre e chega a questionar certas atitudes do vilão. Em um momento decisivo, sacrifica a verdade por Gaston e, mais tarde, fica na mão quando precisa da ajuda do vilão. Momento típico dos filmes Disney em que a lição acaba servindo para redimir o personagem – como não lembrar de Iago em O Retorno de Jafar? (E você aí achando que faríamos uma referência a Shakespeare aqui no meio!)

Tanto se falou, antes da estréia do filme, que, nessa iteração, o personagem seria assumidamente gay, causando alguns protestos. O subtexto – que estava ali na animação original – da sua adoração por Gaston seria transformada em texto. O potencial era ótimo, podendo reconfigurar todas as relações entre os personagens, além de reconhecer que nem o mundo dos contos de fada deve se ater aos padrões heteronormativos. E aqui divergimos um pouco. Para Emannuel, esse potencial simplesmente não é explorado. Apenas no epílogo do filme, uma cena de dança que dura menos de dois segundos, indicaria que LeFou teria uma sexualidade que foge dos padrões normativos e, ainda assim, difícil afirmar, pois não sabemos como a pessoa com quem dança se identifica, por exemplo. Para Marília, esse texto aparece em diversos momentos do filme, embora bastante suavizado. A cena final é algo bem mais simples do que o esperado pelas reações na mídia. Concordamos, no entanto, que essa questão poderia ser melhor desenvolvida. Em tempos atuais, poderia sim fazer um pronunciamento mais forte e aberto. Além disso, LeFou é a personagem gay que já vimos em tantos outros filmes: alívio cômico por sua feminilidade. Embora reconheça a importância de sua presença num filme da Disney, não é inovador ou chocante, é apenas o estereótipo comum. Ainda assim, Josh Gad manda muito bem no papel.

Por fim, não podemos esquecer da trilha sonora. O live-action inclui músicas originais que não são as mesmas do musical para teatro, ou seja, temos praticamente três trilhas possíveis. Temos alguns profissionais da Broadway, como (diva) Audra McDonald e até o Gad. Dan Stevens canta, num estilo muito Les Mis, uma música nova que mostra um pouco o lado da Fera. Se a inserção é interessante pela nova perspectiva, sua inclusão acontece em um momento bastante triste, gerando uma quebra muito brusca na cadência do filme. Falta uma preparação para o número. De resto, as canções novas são interessantes porém não muito marcantes. As antigas, por sua vez, parecem mais lentas – talvez pela falta de experiência dos atores com musicais. A Bela e a Fera exige mais do que ajuste via auto-tune em suas músicas. Watson não alcança as notas da Bela, o que não significa que ela cante mal ou estrague as músicas. Fica aquém das vozes originais mas os fãs podem ir ao cinema sem grandes preocupações.

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