Pixo é arte?

Por Emannuel

Vivemos em tempos difíceis para a arte de rua. Aqui em São Paulo o prefeito João Doria tem posto em prática seu plano digno de vilão de uma versão genérica do Castelo Rá-Tim-Bum que consiste em pintar de cinza paredes pela cidade nas quais haviam acontecido algum tipo de intervenção gráfica (e ainda chamar isso de “Cidade Linda”). Um dos lugares mais populares por sua concentração de arte de rua, o Beco do Batman, sofreu um atentado parecido (ainda que o responsável, um morador da região, diga que só pintou a parede por ela “ser sua propriedade”). Esse tipo de coisa não acontece só por aqui, no entanto. As intervenções do Banksy (cuja identidade misteriosa gerou boatos nos últimos dias) sofrem com isso frequentemente, pela atenção que chamam aliada a críticas em geral contundentes. Por outro lado, existe uma apropriação de cima, que se alimenta da popularidade dessa forma de arte e a mercantiliza, tirando de seus lugares originais e levando-as para as galerias, onde podem atingir preços que competem com outras formas de arte mais tradicionais.

No entanto, se paramos para ver, todos esses exemplos que eu citei aí em cima costumam ser colocados na categoria de grafite, não de pixo. Existe uma diferença entre, digamos, um mural criado pelos Gêmeos e aqueles símbolos que surgiram na parede da padaria da sua esquina? Meu argumento aqui é que existe sim, e que é uma diferença parecida com aquela que existe em a caligrafia que usamos para anotar a nossa lista de compras semanais e a caligrafia que no Japão feudal era cultivada como uma forma de arte gráfica mais do que uma forma de comunicação. O pixo é uma forma de expressão cultural, disso não existe a menor dúvida. Ele tem uma função social, ele acontece por um motivo. Sua simbologia consiste tanto numa forma de comunicação quanto numa afirmação de identidade.

É conhecimento geral que diferentes grupos criam alfabetos através dos quais podem se comunicar com seus pares no pixo. Ele tem, portanto, uma forte ligação com a ideia de comunidade. Seu fazer não difere muito das formas que chamamos de artesanato. O tecer de uma rede, o esculpir de uma carranca, todos esses são atos que tem um significado social tanto quanto se utilizam de meios estéticos para isso. O nível estético, pelo qual me refiro à criação da coisa em si, nunca é seu objetivo final. A rede é tecida para que alguém durma nela, a carranca é feita para ser colocada na frente de um barco e afastar os espíritos do rio. O pixo também é feito com o objetivo de comunicar algo, de demarcar um território ou simplesmente de afirmar a existência de uma comunidade. Essa dimensão prática obviamente torna o pixo uma manifestação cultural que merece ser preservada, da mesma forma que nos esforçamos para combater o desaparecimento de línguas que vão sendo suplantada por outras, como o irlandês resiste ao inglês ou diversas línguas indígenas tentam sobreviver no Brasil.

Responder à pergunta de se o pixo constitui arte, portanto, depende muito de como entendemos o que esse conceito significa. Por um lado, temos uma defesa de que tudo aquilo que é manifestação cultural é uma forma de arte, o que incluiria artesanato, línguas em risco e também o pixo. Essa visão é muito útil quando olhamos as coisas pelo ponto de vista prático, ela imediatamente cria argumentos para que preservemos esse tipo de produção. Por outro lado temos aquelas pessoas que, como o prefeito citado acima, acham que arte é só aquilo que é validado por uma ideia caquética de cânone artístico. Essa visão também se baseia em funções pragmáticas: ela reduz o risco de formas de expressão que fujam do controle de uma elite cultural, fazendo o acesso à cultura só ser possível através de mediadores, que lucram muito com isso. Como uma alternativa a essas visões pragmáticas, temos aquela que diz que tudo que é feito com a intenção de ser arte e é apresentada como tal, merece ser assim reconhecida (saber se a arte é boa ou ruim já é algo ainda mais complicado). Essa visão talvez nos seja útil para pensar o pixo, ele não é produzido com a intenção de ser arte, mas sim comunicação, ele é recepcionado como tal ou, para quem não conhece seus meios, apenas como ruído visual, e, portanto, não seria arte propriamente dita.

Por outro lado, a arte é uma categoria histórica. Ela nunca pode ser pensada de forma desligada do ambiente em que se encontra. Eu não costumo considerar, por exemplo, as pinturas renascentistas de um Da Vinci ou Caravaggio como sendo arte propriamente, mas sim objetos da história da arte. Eles são importantes pelo valor que tem na nossa formação histórica, mas não podemos fruir essas obras como podiam as pessoas do século XIV. Elas não falam conosco, só podemos perceber uma parcela de sua aura quando reconstruímos, através do intelecto, as condições que levaram a sua produção. Quando estamos na frente de uma obra de pixo, frequentemente não podemos sequer fazer isso. Caso conheçamos aquele código, ela tem um significado imediato, caso não tenhamos esse vocabulário, não podemos sequer começar a vivenciá-la.

O que nos leva a pensar o grafite. Nele, a experiência estética é posta em primeiro plano. Isso não quer dizer que não tenha conteúdo, que seja arte pela arte ou algo do tipo; muito pelo contrário, seus temas são frequentemente engajados politicamente, numa tradição que remonta o muralismo latino-americano que tornou famosos artistas como Diego Rivera. Sua apropriação, no entanto, é mais fácil. Mesmo quando político, o grafite pode ser dissociado de seu sentido original, de arte de rua, e transformado numa commodity. A partir do momento em que ele pode ser compreendido, está sujeito a entrar no mercado da arte. Muitos grafiteiros tentam evitar isso, não assinar suas obras é uma das estratégias que utilizam, outros não veem a hora de entrarem no sistema.

O fato de o pixo ser uma forma de expressão cultural e o grafite ser uma arte não quer dizer que um seja melhor do que o outro, apenas que os dois têm funções sociais distintas. E, ainda assim, mesmo isso só pode ser dito porque estamos lidando com exemplos simples desses dois lados, muitas vezes as duas coisas se misturam: a marca de um grupo pode ser altamente estilizada, de um jeito que parece saído de um episódio de The Get Down, ou que uma intervenção artística seja feita através dessa linguagem (é bastante comum encontrar intervenções que se utilizam de uma tipografia que lembre o pixo para comunicar uma ideia, que, no entanto, é feita na linguagem comum, seja para comentar uma política contemporânea ou na Roma antiga) enquanto o grafite pode ser usado para reafirmar identidades. Mas pensar que toda forma de expressão é uma forma de arte é se render a uma lógica que tenta capitalizar na realidade de uma comunidade ao torná-la exótica, e banalizar a arte é transformá-la em produto.

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