Trago comigo… muito didatismo.

Por Marília

Em meio à programação do Festival CineSesc de Melhores Filmes, assisti Trago Comigo, um filme de 2013, da Tata Amaral, que aborda a ditadura civil-militar brasileira. A versão é uma adaptação da minissérie de 2009, da mesma diretora.

O filme se inicia com um depoimento de Telmo, diretor de teatro que participou da luta armada na década de 60, para um documentário sobre o período. Quando indagado sobre uma moça, possivelmente sua companheira, Lia, ele fica confuso. Não sabe quem é. Quando pergunta para Lopes, amigo da época, ele se recusa a falar sobre o assunto – alega que são coisas que devem ficar no passado. A memória é uma das principais questões do filme, especialmente como eventos traumáticos podem afetá-la. Afinal, quem é Lia? O que aconteceu com ela? Por que Telmo não se lembra e por que Lopes não quer lembrar?

Telmo decide, então, montar uma peça sobre aquele período numa tentativa de resgatar suas memórias aparentemente perdidas da ditadura. A premissa é bem interessante. Gosto de obras de ficção que resolvem lidar – de maneira direta ou indireta – com períodos traumáticos. No entanto, essas mesmas obras raramente trazem novas perspectivas ou novos formatos.

Ao contrário da II Guerra Mundial, a produção sobre a ditadura brasileira não foi tão abordada no cinema. Nos últimos anos, isso tem mudado. Há disputa nessa abordagem: existem temas, situações, memórias que devem ficar no passado? O filme de Tata Amaral, em partes, busca responder essa pergunta. E já adianto a resposta: é preciso lembrar.

Nesse sentido, é uma obra importante e que tem seus méritos. A diretora marca uma posição em prol da importância e mais, da necessidade de resgatar a memória do período. Entender o que aconteceu e como impactou o presente, apresentar pessoas que fizeram parte da época e suas próprias histórias. A ideia de fazê-lo por meio da montagem de uma peça é muito legal.

Contudo, o didatismo excessivo prejudica o filme. Telmo explica mais de uma vez para o grupo de atores (mais novos) porque Jaime, o personagem principal da peça, é um guerrilheiro e não um terrorista. Trata esses jovens atores de modo bastante infantilizado, como pessoas totalmente apolíticas ou desinformadas. Os diálogos, por vezes, soam falsos, caricatos. A tensão geracional é proposital e, no entanto, se torna cansativa.

O objetivo educativo da obra é claro. Quando saí do cinema, pensei que seria uma boa alternativa para exibir em salas de aula para debates sobre o período com estudantes do ensino fundamental ou médio. A mistura entre ficção e depoimentos reais de sobreviventes da ditadura também serve a esse propósito. No entanto, as duas coisas não se conectam bem, gerando quebras ao longo da obra.

Claro que o filme tem bons pontos. As cenas da peça pronta são bem feitas e muito bonitas – inclusive, gostaria de vê-la no teatro. Os depoimentos aproximam mais a estória da história e são emocionantes. Carlos Alberto Riccelli está ótimo no papel de Telmo.

É preciso, no entanto, ver o filme dentro de um contexto e de um propósito – didático, educativo. Visa estabelecer um diálogo com as novas gerações. Para as pessoas que já têm algum contato com o tema, não traz novidades de conteúdo. O formato, embora interessante, não entrega o que poderia. E essas são informações importantes antes de entrar na sala do cinema.

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