Clube do Livro: Reparação – Ian McEwan

Por Emannuel e Marília

[Atenção: spoilers adiante]

O livro que escolhemos para abrir o nosso clube de leituras é um daqueles que, apesar de não ser velho (2001), já pode ser considerado um clássico. Um pouco disso se deve ao sucesso da adaptação de Reparação para os cinemas em 2007 (em português, o filme se chama “Desejo e Reparação”). Contudo, o próprio livro é o grande responsável. À primeira vista, se trata de uma narrativa bastante simples, linear, que tem no seu centro um dos temas mais comuns na literatura britânica (e europeia) dos últimos 70 anos: a II Guerra Mundial. Isso quer dizer que Reparação é um romance de guerra? Não exatamente.

Toda a primeira parte do livro, sua mais longa, se passa antes do conflito, em uma casa de campo inglesa. Aos poucos, vamos conhecendo os personagens da família Tallis, dona da propriedade e daqueles que a rodeiam. Aqui temos um estilo de livro muito clássico, que lembra, propositalmente, o tipo que era escrito não só antes da guerra, mas mesmo no século XIX. Algumas pessoas (como o Emannuel) não gostam muito dessas histórias em que não acontece quase nada, que focam em apresentar aos poucos os personagens (que nem sempre são tão interessantes assim). Porém é justamente nesse ponto que entra o talento de McEwan: o escritor consegue nos conectar com aqueles personagens de uma forma muito natural, e aos poucos vamos nos importando cada vez mais com o que lhes acontece, até chegar a um ponto em que estão acontecendo coisas inesperadas na narrativa, numa espécie de clímax. O ritmo da narrativa é bastante interessante: se começamos a leitura mais devagar, ela acelera conforme avança. Ficamos com a impressão de que os acontecimentos realmente se originaram nos personagens, e não surgem do nada no mundo exterior.

O que define quem gosta ou não de Reparação é justamente o quanto a pessoa que lê foi convencida pelas personalidades daqueles personagens que acompanha no tempo. Caso pareçam artificiais, toda a história perde seu sentido e, principalmente, seu peso. E é uma conexão que nem sempre é fácil, pois os personagens são, de forma geral, complexos. A protagonista – e, de certa forma, narradora – Briony é o maior exemplo disso. Se não compramos o seu senso de justiça, sua ingenuidade e determinação, ela parecerá uma criança boba pela maior parte do romance.

O talento de McEwan se manifesta claramente na construção dessas personalidades: é possível visualizar, naquele tempo e espaço, aquelas personagens. Aproveitando o exemplo de Briony, a menina chega a ser irritante, mimada e, ainda assim, simpatizamos com sua determinação e seu gênio. Geralmente, é difícil escrever personagens infantis sem soar artificial, a visão de um adulto para o que crianças pensam e sentem. Em Reparação, no entanto, essas personagens são bem feitas – e isso se estende a Briony, Pierrot e Jackson e mesmo a Lola (que já é adolescente). Remetemos a como nos sentimos quando tínhamos a mesma idade, ainda que existam as devidas diferenças de classe, local e época.

O que fazer quando o ponto alto do livro está no meio? Ainda que as partes seguintes sejam interessantes, a qualidade não é a mesma. Especialmente enquanto seguimos Robbie Turner pela guerra – uma seção que parece muito arrastada, tratando de um tema que poderia, à primeira vista, parecer mais propenso a emoções ou reviravoltas. Contribui para isso o fato de que os personagens que tínhamos visto interagir na primeira parte estão agora separados, cada um em um contexto diferente. É como se o desenvolvimento anterior tivesse acabado e o resto da história passasse a contar mais com acontecimentos do que com suas vidas psicológicas. Ou seja, o foco da obra muda: de dentro para fora. Isso não significa necessariamente uma queda brusca de qualidade.

Por ser narrada por Briony, a história dos momentos em que os personagens estão distantes se torna mais dependente das criações da protagonista, passando a impressão de não se aprofundar tanto assim na vida interna de cada um. Esse recurso faz sentido quando percebemos que todo o livro que estamos lendo foi escrito por Briony, e por isso esses dois momentos de ritmos distintos dependem muito da percepção que ela tem sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Ainda assim, McEwan nos reserva um plot twist – dessa vez verdadeiro ao conceito – para as últimas frases do romance. Algo que até poderia ser esperado e, mesmo se o for, não deixa de conferir ao romance um tom ainda mais melancólico do que aquele que perpassa todo o livro.

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