A vida de John B. Macklemore

Por Carla (em participação especial) e Marília

Há algum tempo, uma das dicas de Felicidades do mês foi o podcast S-Town. Como são quase sete horas de programa, demos um espaço para aqueles que curtem podcasts ouvirem antes de comentar aqui. Vai ter spoiler sim, então, se você ainda quer reservar a surpresa – e recomendamos fortemente que você leia o mínimo possível sobre o podcast antes de ouvir – melhor pular esse texto e ler o texto do Emannuel.

Ah, quase tudo o que mencionamos aqui é produzido nos EUA – ou seja, o material costuma estar disponível apenas em inglês. Pedimos desculpas desde já pela falta de conteúdo em português.

S-Town, abreviação de Shittown, é produzido por um pessoal que entende de rádio e de contar histórias, responsável por dois programas de bastante sucesso. O primeiro, This American Life, é um premiado programa de rádio com um formato bastante diferente dos tradicionais. Para simplificar, a cada semana, o programa se debruça em um tema e retrata diferentes histórias em cima dele. Na real, é mais que isso e vale a pena escutar (a equipe recomenda começar por esses episódios). O segundo, Serial, é um dos podcasts narrativos de maior sucesso dos últimos tempos. Cada temporada conta uma história verdadeira, com episódios seguindo seus personagens e descobrindo onde a história nos leva.

Ambos são muito bem produzidos e essa qualidade se reflete em S-Town. Como Serial, é uma história verdadeira distribuída em vários episódios (é bom avisar porque poderia passar por ficção!). Como This American Life, traz muitas visões e pontos de vista sobre temas mais ou menos divididos ao longo da narrativa.

S-Town narra a história de John B. Macklemore que escreve para Brian Reed (repórter de This American Life), contando sobre sua cidadezinha de merda no interior do Alabama e a corrupção que a impregna. Basicamente, começamos o programa com a investigação de um assassinato: um menino morreu espancado pelo filho do dono de uma empresa local – uma família rica, conhecida por todos na cidade. O rapaz não apenas está solto como ainda se gaba por aí de ter batido mesmo no menino. Depois de um longo período de trocas de e-mail com John B., Reed decide ir para o Alabama entender melhor o que está acontecendo. Temos a expectativa de um Serial 2.0, isto é, acompanhar uma investigação criminal.

Mas aí está a excelência de S-Town: o tempo todo, o podcast frustra nossas expectativas da melhor maneira possível. A primeira, logo no segundo episódio, revela não haver ocorrido um crime, mas sim a exacerbação de um rumor sobre uma briga de bar. Não vamos fazer uma investigação criminal, analisar essa família rica como pretexto para abordar a corrupção numa cidadezinha que abraça e reproduz os estereótipos do sul dos Estados Unidos. Nossa primeira frustração é a última de John B. porque a expectativa dele era maior que a nossa: Macklemore esperava fazer a diferença, remodelar as estruturas de um lugar de perdedores, dar uma solução para uma cidade que amava odiar e odiava amar. Quando essa esperança para Shittown desaparece, é a última gota para ele.

O suicídio do aparente protagonista deixa inúmeras questões em aberto: para quem ficaria sua propriedade? Há um rumor de que John B. teria muito dinheiro escondido ali e a súbita vinda de seus primos – que moram na Flórida – após sua morte nos leva a crer que o podcast, não sendo uma investigação criminal, se transformará numa caça ao tesouro. Essa expectativa também se frustra. Na verdade, a própria imagem dos envolvidos muda ao longo dos episódios e a perspectiva inicial de que os primos seriam interesseiros e manipuladores, e de que Tyler, protegido e supostamente herdeiro não oficial de John B., seria um pobre coitado ludibriado se subverte. Alguém envolvido na história da herança de John está certo ou errado? Há algum lado desprovido de interesses próprios e afetos verdadeiros em relação a John e ao que fica dele?

Em mais uma reviravolta, essa ponta da história é abandonada, embora mistérios e questões ligadas à morte de John B. apareçam em outros episódios. Quem é John? Quem foi John? Quem foram seus amigos? As pessoas com quem ele falava? Reed nos leva a conhecer outros lados desse personagem tão intrigante justamente porque tão falho, tão contraditório, tão próximo de quem também somos.

Como John, somos feitos de contradições e antíteses. Ele quer sair da cidadezinha de merda mas não sai. Cuida tão carinhosamente de Tyler embora não dedique a mesma atenção às necessidades de sua mãe doente. Odeia tatuagens a ponto de falar abertamente como elas são parte do problema na cidade mas, ainda assim, fez tatuagens – por motivos que não conseguimos definir com exatidão. Tem momentos misóginos, homofóbicos e racistas contrastados com momentos em que fala abertamente sobre a importância do feminismo, sobre sua sexualidade mais fluida e contra termos e atitudes racistas. É preciso entender sua localização para entender a relevância disso tudo: uma pequena cidade no interior do Alabama. O modo como o podcast explora as relações entre o individual e o estrutural é um de seus pontos mais fortes.

John é uma pessoa real, logo complexa – o que só deixa tudo mais intenso. Fosse um personagem fictício, seu sotaque soaria exagerado, suas opiniões e falas relegados a caricaturas. Sua atitude – em parte, a atitude de toda a cidade – de “not give a fuck” contrasta com o tamanho do impacto que os rumos do mundo têm sobre si. Fosse fictício, argumentaríamos que as pontas estão soltas ou que o personagem não tem liga: afinal, quem mija na pia e deixa uma pilha de lenços sujos no chão ao mesmo tempo em que é extremamente culto e conversa com propriedade sobre os mais diversos assuntos? John cumpre e descumpre todo o tempo o estereótipo de redneck. Ele é um gênio que não se desliga do meio em que está, em que foi criado. A série é estruturada para nos fazer sentir que esse cara incrível, esse gênio, não pode ser colocado num pedestal e que nós não temos qualquer direito de julgá-lo porque os lados de uma história são muitos. É devastador e maravilhoso na mesma medida.

O podcast assume, então, seu caráter mais extraordinário: não se prende a assassinatos ou caças ao tesouro, trata de pessoas e analisa o ser humano enquanto um conjunto de várias narrativas. Sob diferentes ângulos, podemos observar essa complexidade, vemos como somos multifacetados e contraditórios, como nossas ações afetam os outros e como o mundo pode nos afetar.

O conteúdo complexo nos aproxima de pessoas que, a princípio, são muito diferentes de nós. Tanto que o programa foi considerado um monumento à empatia por alguns críticos. Também contribui para isso a qualidade da produção: sua estrutura, sua edição. As músicas, as histórias e suas divisões são feitas para estreitar nossos laços com aqueles desconhecidos. Possibilita um envolvimento entre ouvinte, narrador e personagens, criando uma interação quase direta.

Contudo, S-Town não está isento de críticas. Se por um lado, humaniza pessoas reais, por outro, também as expõe. O lançamento dos episódios em um bloco procura – parcialmente – evitar uma possível devassa a essas vidas. Fossem episódios semanais, googlearíamos o tal assassinato, bem como o rapaz e sua família, centrando atenções em algo que pouco importa para o decorrer da história. Evita, de certa forma, conspirações. No entanto, toma decisões que são bastante complicadas. Em determinado ponto, Reed revela algo que John B. lhe contou em off. Sua justificativa para fazê-lo não nos pareceu forte o suficiente. Na verdade, deixa um gosto amargo na boca. Não é um fato essencial para a compreensão do personagem ou a cadência da história. Então, por que revelá-lo?

Outras críticas envolvem a forma simplória com que Reed fala sobre as tatuagens de John e uma possível insinuação a preferências sadomasoquistas. Ou, ainda, se John daria autorização para fazer o podcast tal qual foi feito (a Vox abordou muito bem a questão da invasão de privacidade no podcast, vale a pena ler). Após o lançamento do programa, houve várias buscas por fotos de suas tatuagens, sua casa, seu labirinto. E aqui também entra uma questão ética: considerando as condições em que as tatuagens nas costas foram feitas, será que ela deveria ser divulgada? Essa não é uma responsabilidade direta dos produtores. Ainda assim, a questão não surgiria não fosse Reed levantar a ponta no programa. [O que recomendamos mesmo é buscar vídeos de fire gilding! São incríveis!]

Decisões que tornam o programa complexo – assim como sua personagem. Não é apenas louvor e premiação. S-Town entra em terrenos complicados, levantando histórias e problemas sem aviso aos ouvintes. Na verdade, a ligação com os personagens é tão forte que só conseguimos realmente parar para pensar sobre essas questões quando ele acaba. Sim, as quase sete horas de programa são facilmente maratonáveis. E achamos que valem seu tempo, inclusive para procurar as críticas e entender melhor seus pontos problemáticos.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create a website or blog at WordPress.com

Up ↑

%d bloggers like this: