Sono dos justos

Por Emannuel

Dormir é um dos mais simples prazeres da vida e, por isso mesmo, um daqueles que experimentamos com mais frequência. Algumas pessoas gostam muito de dormir, outras acham que é um desperdício de tempo que poderia estar sendo utilizado para trabalhar, criar, ou simplesmente aproveitar outras coisas da vida, como passar mais tempo com as pessoas que amamos. Independentemente disso, o sono traz muitas vantagens, sendo, talvez, as mais importantes aquelas relativas ao aprendizado e memória. O nosso cérebro simplesmente não consegue ficar em atividade o tempo todo e ainda assim criar novas ligações sinápticas. O tempo é uma necessidade do aprendizado, sem uma pausa de ao menos quinze minutos após entrar em contato com um novo conhecimento, o cérebro não consegue inscrever o que recebeu em sua rede de ligações, por isso aulas muito longas costumam ser assimiladas apenas parcialmente, pois não temos o tempo necessário para criar essas ligações entre uma exposição e outra.

Mas a verdade é que poucas pessoas conseguem seguir aquela rotina recomendada pelos médicos de dormir oito horas por dia, mesmo quando queremos. As necessidades da vida muitas vezes nos obrigam a ceder algumas (ou muitas) horas desse ritual diário para outras atividades. Eu mesmo, nos últimos anos, havia me habituado a uma rotina noturna, graças ao fato de trabalhar de madrugada, mas conseguia manter uma rotina de sono estável dormindo durante o dia. Esse ano, com aulas de mestrado durante a manhã, minha rotina se tornou caótica, variando muito de um dia para outro. Como aspirante a escritor, sempre tive interesse nos hábitos diários de pessoas criativas. Nem tanto para justificar os meus, mas para buscar inspiração, ainda que com algumas adaptações. Com essas recentes mudanças da minha rotina, no entanto, me vi saindo um pouco dos âmbitos da cultura e vendo como o sono é encarado de modo diferente por pessoas em outras áreas do pensamento, como os cientistas.

sono polifásico é aquele em que consiste em quebrar as nossas horas de sono ao longo do dia. Pode ser simplesmente aquele cochilo depois do almoço para recarregar as forças e compensar uma deficiência noturna, ou pode ser algo mais complexo, como as rotinas de sono de Leonardo da Vinci e Buckminster Fuller. As teorias dos dois partem do princípio que o ser humano tem duas reservas de energia, uma de longo prazo e outra de curto. Quando passamos o dia acordados da manhã até a noite, por exemplo, teríamos esgotado a reserva de curto prazo e parte da de longo, o que nos faria precisar das famosas oito horas de sono. Mas, dormindo de quatro em quatro horas, por exemplo, só precisaríamos recarregar a reserva de curto prazo, por isso Da Vinci tirava cochilos de vinte minutos e Fuller de trinta. Os dois, no entanto, não conseguiram manter essas rotinas por muito tempo, ao menos em parte porque ninguém mais podia manter o ritmo de trabalho. Mas alegaram que essas rotinas lhes faziam bem, o que sem dúvida deve ter alguma relação com a satisfação dos impulsos workaholic de ambos, o que por si só já deve ter um efeito placebo.

Mas o interessante é ver que, mesmo nesses casos extremos, a constância é uma coisa essencial. O nosso corpo – e nosso cérebro – tem uma plasticidade muito alta, que permite que se adapte às condições mais exigentes. Desde de que essas condições sejam constantes. Se esses cientistas (ou mesmo escritores como Kafka) são exemplos de como a regularidade acaba sendo mais importante do que a quantidade de sono. E, ainda que provavelmente não seja saudável seguir seus exemplos, pelo menos podemos nos consolar de ainda não termos chegado no ponto de seguir rotinas assim tão loucas.

 

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