Clube do Livro: Dentro de ti ver o mar, de Inês Pedrosa

Por Emannuel e Marília

[Atenção: spoilers adiante]

Emannuel: A língua portuguesa é uma coisa que nunca deixa de me impressionar. Às vezes fico muito acostumado a consumir cultura em outras línguas (principalmente inglês), e todas as vezes que pego para ler um livro que foi escrito na minha própria língua fico besta com como temos uma tendência poética forte. Apesar da Inês Pedrosa ser portuguesa, isso não causa dificuldades. Na verdade, antes de começar a ler o livro, eu até achava que ela fosse brasileira. Por causa disso, acho que a experiência de ler esse livro para mim passou muito por essa lógica da linguagem. O fato de Rosa, a protagonista, ser cantora de fado reforça isso.

Marília: Estou na mesma situação. Dos autores que li esse ano, só dois são lusófonos – a Inês (faço a íntima) e o Drummond. Li outras coisas em português que eram traduções e a coisa é bem diferente né? “Compor” diretamente em português dá outro tom, outra cara para a obra. Além disso, não sei bem como explicar, mas português de Portugal já parece vir com um teco de melancolia, uma cadência triste em cada frase. Minha impressão é que Inês Pedrosa pensou muito bem em cada palavra que está no texto. A linguagem é um elemento forte ali.

E: Ainda assim, acho que o começo do romance não foi uma leitura muito fácil, demorei bastante para engrenar. Talvez isso seja porque na primeira metade do livro não existe bem uma narrativa, tudo está voltado para os personagens. E, mesmo assim, a caracterização às vezes fica confusa.

M: Acho que isso acontece justamente pela estrutura do livro, que não tem uma personagem central definida (no começo). Você tá entrando na obra e pá: três personagens que parecem ser principais, cada uma acompanhada por outros personagens e histórias próprias. Me deixou ansiosa porque fico pensando em guardar nomes que podem ser importantes depois. Não sabemos muito bem como aquelas histórias vão se entrelaçar (se é que isso vai acontecer)… Esse tipo de livro gera tensão por isso, essa perspectiva de lembrar detalhes para não me perder depois. E confesso que voltei algumas vezes para ver quem era fulano ou beltrana.

E: Na Rosa, a caracterização é uma coisa bem forte, acho que ela é uma protagonista complexa, suas ações são muito humanas, mas, ao mesmo tempo, não consigo dizer que a conheço, apesar de termos acompanhado muito da vida interna dela. Enquanto isso, personagens como Farimah e Luisa, que achei que fossem ser tão importantes quanto Rosa, acabam se tornando secundárias, mas são as que mais gostei. Queria ter visto muito mais delas.

M: O tanto de páginas dedicadas à personagem da Rosa me decepcionou bastante. Não que eu desgoste dela, não é isso. Como disse, o livro te apresenta três pessoas e você espera não necessariamente uma dedicação proporcional de páginas a cada uma. Mas queria algum tipo de equilíbrio entre elas. Farimah tinha uma história tão legal! Daria para fazer um livro só sobre ela… Achei triste ela ser reduzida à condição de “amiga de Rosa”, com uma ou outra exceção. Luisa me irritou um pouco – ainda assim, simpatizei com ela mais adiante. Um dos pontos fortes do livro é isso de humanizar as personagens: por meio das diferentes histórias, conseguimos (mais ou menos) entender que ninguém é inerentemente mau ou escroto. O negócio é entender como nossas escolhas – e as explicações ou justificativas para essas escolhas – nos levam a lugares, situações, consequências ruins para nós ou para pessoas próximas. Faz parte.

E: Os personagens terciários, nem consegui acompanhar, ficava confundindo Nazaré e Teresa, não fazia ideia de quem era Alberto ou Paulo… Além de Rosa, e talvez até mais do que ela, quem pudemos conhecer melhor foi Gabriel. E quanto mais conhecia, mais eu o detestava.

M: Gabriel é um serzinho desprezível e insuportável. Ainda assim, senti algum grau de empatia por ele. Por isso falo que Inês parece querer humanizar as pessoas. Sabendo um pouco da vida de Gabriel, conseguimos entender melhor quem é, sem chegar a passar pano pra um cara abusivo. Pegando outro exemplo, Farimah não consegue odiar o pai e sente saudades dele. Na verdade, os capítulos sobre a esposa de Gabriel – culminando na cena catártica do avião – são muito mais interessantes. Descobrir esse outro lado que contrasta com a imagem de Penélope que ele faz dela foi genial. Se o livro dedicasse mais atenção a essa personagem, seria lindo.

E: Acho que é um ponto importante que a autora busca trazer esse de como Rosa entrou numa relação de dependência desse relacionamento abusivo, o tempo todo ficamos nos perguntando como ela chegou a esse ponto. Será que era tudo porque “os bons de cama são difíceis de esquecer”, como uma das amigas de Rosa diz no começo do romance? Fiquei surpreso de como a autora se refere ao feminismo e à esquerda em geral, ainda mais considerando esse tema central… O que você acha do posicionamento dela quanto a isso? Essas coisas ficaram melhor definidas na sua leitura?

M: Acho que o livro foi escrito em outro momento (2012). As críticas à esquerda talvez tenham muito a ver com o contexto de Portugal no período que, confesso, desconheço. Uma das coisas que mais gostei é Farimah se recusar a prestar o papel de mulher muçulmana que critica o “oriente”. Ela se incomoda com a redução de toda sua existência a esse papel – que convém ao discurso alheio, não ao dela – e até faz uma comparação com o papel que seu pai lhe impõe. Bem pós-moderno, rs. Sobre a leitura feminista, faço a Glória. O foco da história de Rosa me parece cair menos sobre a superação e a saída de um relacionamento abusivo – que poderia até gerar um texto mais “panfletário” – e mais a situação dentro do relacionamento. Acho que ela nem mostra muito bem como Rosa entrou nessa relação de dependência porque isso aparece já no começo da narrativa. E a saída também é pouco explicada ou detalhada. Há momentos “mais feministas” [não sei bem explicar isso]: as amigas estão ali o tempo todo tentando ajudar Rosa a sair dessa ou simplesmente apoiando quando ela precisa. De novo, o foco, pra mim, é entender melhor as pessoas numa relação abusiva – e o fato de ela não reduzir Gabriel a um personagem maniqueísta me agradou. Quando se trata de pessoas, as coisas não são simples. Partindo para outro tema, o que você achou das questões da narradora?

E: Essas foram as partes que mais gostei, sem dúvida! Principalmente porque fui pego de surpresa. A forma que a Princesa Lina pula de uma fantasia do Gabriel para o papel (literalmente?) de narradora deu uma outra perspectiva ao romance. Sem falar que a cena surreal em que Gabriel ataca a sua personificação dá um tempero ao livro. Apesar de ter tornado a compreensão total como algo impossível, a leitura feita através dessa ótica me fez gostar mais do conjunto da obra. Talvez pelo desprezo ao Gabriel que surge nesses trechos, mas também por nos impedir de naturalizar toda a história.

M: As partes da narradora me cansaram um pouco pelas constantes reflexões sobre o papel de narrador. Só que faz bastante sentido dentro da obra, então não se tornou um grande incômodo. A saída de Lina foi uma boa surpresa, é verdade. E concordo com sua análise da relação entre Lina/narradora/Gabriel. Acho que a obra traz muitas nuances e mudanças de perspectiva que tornam difícil tanto classificar em “gostei x não gostei” como de especificar do que ela trata – precisamente, as características que a tornam interessante.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create a website or blog at WordPress.com

Up ↑

%d bloggers like this: