A descoberta do papel (ou, senta que lá vem textão)

Por Marília

Motivos simplistas para fenômenos complexos não faltam pela internet. O mercado imobiliário está mal porque os millennials só querem viajar, viver de jobs, não curtem estabilidade. A indústria automobilística precisa repensar seu futuro porque esses millennials danadinhos não querem saber de carro e preferem formas alternativas de locomoção. Quem dera nossa geração tivesse todo esse poder…

Nos últimos meses, tenho visto links semelhantes analisando outro mercado: o de ebooks. Essa geração que vive no celular e não dá a devida atenção pra família e pras conexões pessoais, que não consegue assistir vídeos com mais de 2 minutos ou ler um texto inteiro da Eliane Brum, finalmente descobriu o papel! Encontramos, enfim, o prazer de se desligar de toda a tecnologia e todos os estímulos visuais e finalmente aprendemos a nos distrair com livros. Mesmo porque eles são bem mais instagramáveis que e-readers… Bitch, please.

Ironias à parte, a questão é que as vendas de ebook têm diminuído pelo segundo ano seguido de acordo com relatório da Nielsen (em inglês), sendo a maior queda no setor de ficção juvenil. O site da Publisher’s Weekly fala que, dentre os diversos fatores que podem explicar essa queda, o relatório destaca o preço como o mais importante.

Antes: outro fator considerável, de acordo com o documento, é a preferência dos leitores por ler em celulares e tablets em vez de e-readers. De fato, há indicativos apontando a queda de vendas dos dispositivos específicos para ler ebooks (como Kindle e Kobo). Essa é uma outra questão mas, para não dizer que não falei dos Kobos, nem todo leitor de ebooks tem e-reader. Querendo ou não, é um peso extra no orçamento e na mochila. Para que gastar comprando um Kindle se um celular cumpre a mesma função?

Voltando aos ebooks em si, essa queda foi noticiada em vários portais. Há quem anuncie desde já a morte desse tipo de mídia sem dar explicações para a previsão. Quando a matéria propõe uma explicação, diferentemente do relatório da Nielsen, ela não é o preço. Ele pode até aparecer, mas não é o foco. Pessoas cansadas de olhar telas o tempo todopossibilidade de se desligar, a facilidade das trocas com amigos (olha, tem até conexão pessoal!), o prazer tátil de pegar um livro, o delicioso cheiro do papel… Só que tudo isso já estava aí em 2011 quando os ebooks começaram a bombar.

Cheguei atrasada para essa festa – comprei meu Kindle em 2014. Achei que nunca ia me adaptar a um e-reader e na real se mostrou muito prático. Não carregava mais tanto peso e podia mudar de um livro para outro com facilidade. E, detalhe importantíssimo, os preços dos ebooks valiam muito a pena: era praticamente metade do preço do livro físico. Tinha um ou outro mais caro; ainda assim, raramente ultrapassavam 30 reais. [Cabe adendo: não entendo como um ebook pode custar mais de 30 reais MESMO. Se souberem de uma explicação razoável, me mandem, serião.] Não preciso carregar tanto peso e ainda é mais barato? Shut up and take my money.

Agora o cenário é outro. Os preços absolutos aumentaram consideravelmente e a diferença em relação aos livros físicos é ínfima. É só fuçar a Amazon para ver. Fica difícil basear a compra só no argumento dos quilos na mochila. Orçamento sempre vence.

Cheiro de livro é maravilhoso mas cê me jura que, até agora, ninguém tinha visto um livro de perto? Não tem escola, não tem biblioteca, não tem livraria, não tem nem parente com livro… Para o argumento da troca de livros, também já tínhamos soluções: bibliotecas e pirataria. Ou seja: a troca não estava impossibilitada pelo ebook. E, diga-se de passagem, a troca do físico pelo digital não zerou a compra de livros físicos. Ainda dá para emprestar livro.

Agora vem essa de que as pessoas estão cansadas de olhar telas o tempo todo. Desde o começo dos anos 2000, mais e mais pessoas trabalham, compram, se entretém, se comunicam, editam fotos, assistem vídeos e o caralho a quatro usando uma tela. Mas, pelo visto, a gota d’água foi o ebook e a estafa só rolou mesmo em 2016. Curioso… Mais bizarro ainda é que a maneira de se desligar de tanto estímulo é o livro físico. Não tem rua, não tem bar, não tem gente, não tem planta, não tem parque, não tem comida, não tem jogo de tabuleiro, cartas ou dominó. Tudo foi perdido quando a nação do fogo atacou.

O mais bizarro é ver tantos links não falando do preço. Sério, tá difícil não dar uma de doido das conspirações aqui. Para se ter uma ideia do quão complexa é a questão, a venda de audiobooks aumentou em 2016. Ou seja, as análises do mercado têm que passar por outros fatores além do cansaço da tecnologia. Algumas reportagens, como essa sobre os audiobooks, analisam bem a queda de vendas dos digitais. Com títulos menos apelativos, talvez gerem menos cliques. Só que essa coisa sensacionalista de plot twist: o livro impresso viveenche o saco. É pedir demais uma análise um pouco mais séria?

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