Beleza masculina, ontem e hoje

Por Emannuel

Há alguns anos, estava conversando com a Marília sobre alguma coisa que nem lembro mais o que era, e em determinado momento fiz uma referencia ao James Dean como exemplo de um homem bonito. Ela riu da minha cara e disse que eu tinha que atualizar minhas referencias de beleza masculina, talvez alguém como o Ryan Gosling. Realmente, esse exemplo teria, além de tudo, a vantagem que ninguém ia precisar ir ao Google para averiguar, porque a imagem do Gosling, mesmo para quem não acompanha toda a carreira dele, é bem fácil de conjurar. Em parte por ele estar praticamente em todos os filmes: seja em blockbusters como La La Land ou o novo Blade Runner, mas também em filmes independentes, como Drive ou Lars and the Real Girl (melhor atuação dele, na minha humilde opinião). Mas a coisa é que, mesmo nos filmes em que ele não está, muitas vezes temos a impressão que poderia, por ser substituído por uma versão genérica sua, um outro rapaz com um tipo físico muito semelhante, que está ali mais como arquétipo de homem bonito contemporâneo.

Eu reconheço que sempre gostei de filmes antigos, então minha visão de como eles retratavam a beleza masculina é um tanto mais enviesada. Não nego que nas décadas passadas o uso de arquétipos era tão frequente quanto é hoje, mas eram arquétipos mais variados. Consideremos, por exemplo, os maiores sex symbols entre os anos 50 e 70: Humphrey Bogart, James Dean e Marcello Mastroianni. Cada um tinha um significado muito diferente dos demais. Bogart provavelmente não seria considerado sequer marginalmente bonito hoje em dia: muito baixinho, muito sério (será que me identifico?) e misterioso. Mastroianni era aquele cara bonito por (parecer) ser inteligente, ele não era aquele nerd adorável que faz com que os trolls de internet de hoje em dia achem que são sensíveis e que merecem ter todos seus desejos realizados e retribuídos. Já Dean talvez seja o que mais se aproxima do nosso modelo de beleza atual: loiro, com feições clássicas, roupas despojadas e eternamente jovem; não seria mais do que um galã de segunda categoria no nosso cinema atual, como fica claro pelo lugar ocupado por James Franco, que se parece muito com ele.

Todos esses eram tipos muito específicos, aos quais poderiam se juntar outros exemplos, como Alain Delon e Marlon Brando ou, para sair do cinema, Elvis e Mick Jagger. Podemos ver que existia um padrão de beleza europeia, mas que se fundamentava nas características de cada indivíduo específico. O que faz todo sentido quando pensamos historicamente essas décadas, a explosão do individualismo nos anos 60 e sua sobrevida nas décadas seguintes. Mas a principal característica da era das redes sociais é a padronização, seja de seu feed de notícias no Facebook ou das caras que vemos no cinema. Ou melhor, não só nas caras, até os nomes são os mesmos: já percebeu quantos “Chris” protagonizam os sucessos de bilheteria dos últimos anos? Temos Pratt, Evans, Pine, Hemsworth… (todos nessa imagem acima, onde o Gosling não se sentiria muito deslocado, sem dúvida). Essa semelhança serve para alimentar milhões de memes, mas também reflete uma realidade da nossa visão de beleza. Qualquer um desses Chris poderia ser facilmente substituído por outro em qualquer um dos seus filmes, sem que o significado deles se alterasse de modo significante. O padrão europeu também foi substituído por um mais centrado nos Estados Unidos, que parece gostar dos seus homens como dos seus Big Macs: gostosos, porém genéricos.

Existem exceções e saídas, sem dúvida. Apesar de ainda incipiente, existe um início de diversificação na imagem do homem: Idris Elba, que retoma alguns elementos da beleza de Bogart, Mike Coulter, protagonista de Luke Cage, ou mesmo o fato de  uma sitcom como Crazy Ex-Girlfriend ter um homem de ascendência asiática como principal objeto de interesse romântico e sexual. O fato de conseguirem ter um apelo sem que isso signifique uma fetichização é um bom sinal, mas que ainda acontece apenas raramente, e na periferia dos grandes meios. Elba, por exemplo, sempre interpreta um homem perigoso, nunca está numa comédia romântica e ainda precisamos ver como se sairá na sua estreia como protagonistas de blockbusters (na adaptação de The Dark Tower, um filme que venho esperando há anos). Outra boa saída parece ser o mundo da música. Harry Styles e Ed Sheeran mobilizam milhões de fãs com aparências que, se não fora do padrão cis-branco, ao menos estão fora da escala dos Chris citada acima. A questão aí é mais complexa, no entanto, porque a imagem deles fica em segundo plano, sendo substituída por sua música ou um ideal de bom-moço (que pode gerar mais problemas do que tudo, como vimos acima).

A preferência por uma aparência ou outra é sempre subjetivo, como todos os gostos, mas a sua representação e a visibilidade que tem, sem dúvida são questões importantes. Ainda que nem de perto seja tão problemática quanto as representações da mulher no cinema e na cultura em geral costumam ser, a forma que os ideais de masculinidade são apresentados também pode servir para reforçar as mais variadas formas de misoginia, assim como estimular homens – especialmente os muito jovens – a se adaptarem a padrões que não são saudáveis socialmente ou psicologicamente. Tudo isso para ficar com um Instagram parecido com aquele do protagonista do filme de herói que estreou no mês passado. Voltar no tempo não é possível, e nem seria uma solução (os arquétipos antigos são tão problemáticos quanto os atuais, se não mais), mas a caminhada rumo à padronização sem dúvida é preocupante para as novas gerações.

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