Dois livros, algumas questões

Por Marília

Tentando cumprir meu desafio de leitura de 2017 – e ignorando boa parte das minhas responsabilidades -, esbarrei com dois livros que trouxeram incômodos diferentes.

“O Fazedor de Velhos”, de Rodrigo Lacerda, é uma história de pessoas crescendo e passando para a fase adulta. Não lembro de ter lido muitos livros do gênero escritos por brasileiros, então essa foi uma surpresa feliz. Comprei o ebook há um tempo e, em meio a volumes se empilhando virtualmente no Kindle, resolvi atacá-lo.

Pedro, o personagem principal, está em crise. Aos 20 anos e cursando a faculdade de história, não sabe bem se serve para ser historiador. Até que encontra um antigo professor da escola que passou por algo similar e o encaminha a outro professor, mais velho, que talvez consiga ajudá-lo. A história é legal e os personagens são interessantes, especialmente a figura do “mestre” que vai dar rumo pra vida do garoto.

Deu um quentinho no coração. O final é um tanto bobo, quase previsível. Lendo com oito anos a mais que Pedro, pensei na(s) crise(s) por que passei na faculdade. Lembrei de questões, medos, receios similares que fazem sentido numa experiência típica de classe média universitária. Porém, justamente essa distância etária muda a análise do livro: gostaria que tivesse encerrado a história de outro modo, talvez até antes.

Acho que, se tivesse lido o livro quando foi lançado, justamente com a idade de Pedro, teria aproveitado mais a leitura e talvez gostado mais do final. Essa vontade de voltar no tempo e ler um livro em outro momento da vida já rolou antes. “O Apanhador no Campo de Centeio” é um clássico desses coming-of-age. E eu gostei do livro, só que teria gostado mais (e talvez até entendido melhor o hype) em outra época da vida.

“Nossas Noites”, de Kent Haruf, por sua vez, aborda a vida na velhice. Num condado do Colorado, Addie Moore resolve fazer uma visita e uma proposta a seu vizinho, Louis Waters. Ambos viúvos e já na casa dos 70 anos, eles resolvem dormir juntos para tentar acalmar a solidão das noites. Não demoram para surgir boatos na pequena cidade e a reação dos filhos também não é fácil. O romance é delicioso, a escrita de Haruf é muito simples e impactante. Li em português e confesso que fiquei com vontade de ler outra obra sua no original, para ver se algo muda.

Conforme passei da metade do livro, fiquei esperando uma grande reviravolta, daquelas que te pegam quase desprevenido e fazem chorar baldes. Não vou dizer se essa reviravolta vem ou não para não estragar a leitura (vale a pena!). O que me incomodou foi esse condicionamento de esperar o desastre iminente, a mudança brusca que mexe com o que os personagens construíram e mudam o rumo das coisas. Ainda não encontrei uma explicação para isso e estou aberta a sugestões.

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