#Belinkers

Por Marília e Emannuel

MariliaMy Dad Wrote a Porno é basicamente o que o título diz. Imagina que seu pai resolve escrever um pornô e publicar. Pois é: o pai de Jamie, nome autoral: Rocky Flintstone, decide auto-publicar não um, mas quatro livros digitais da série Belinda Blinked (ou Belinda Piscou, numa tradução livríssima) na Amazon. E, numa excelente amostra de humor britânico, Jamie decide chamar dois amigos – Alice e James – para comentar o livro.

Até agora, temos três temporadas (a terceira foi lançada em maio de 2017) e cada episódio corresponde a um capítulo de um dos livros. Além disso, são lançados episódios entre capítulos, chamados Footnotes, em que os três comentam coisas estranhas do último capítulo, especulam sobre os próximos passos de Belinda, recebem convidados especiais ou respondem perguntas dos fãs para Rocky.

A história é bizarríssima – e teremos alguns spoilers aqui. Tudo começa com a entrevista nada convencional de Belinda para entrar na empresa Steel’s Pots and Pans, onde ela será responsável por coordenar as vendas nacionais e internacionais da empresa – basicamente tudo, pelo visto. Os livros misturam muita coisa de negócios (em tese!) e pornô e as passagens de um para o outro são súbitas, totalmente inesperadas.

Além disso, o pornô em si é muito bizarro. Não faz sentido de qualquer ponto de vista: a logística da coisa não é possível de ser realizada (os comentadores especulam muito sobre isso!), as passagens temporais ocorrem do nada e eventos que pareciam importantes na verdade não são. Rocky muitas vezes abandona um personagem ou linha de acontecimentos sem explicação. A repetição de expressões biológicas para as partes íntimas e o completo desconhecimento da anatomia feminina contribuem para risadas.

Outro ponto alto são os momentos praticamente nojentos. Em dado ponto do segundo livro, temos um pinto que está descascando no pós operatório e a cena toda – bem como as considerações de Belinda sobre o caso – são muito nojentas.

Emannuel: O que causa mais estranhamento de tudo isso é como Rocky consegue se equilibrar numa linha muito fina. Teoricamente, para ele aquilo é escrito com intenção de ser algo excitante, mas é quase impossível imaginar que as situações que ele retrata tenham esse efeito em alguém, independentemente de preferências pessoais. Por outro lado, representações de sexo são sempre uma coisa complicada, é muito fácil descambar para a objetificação pura e simples, mas talvez justamente por não ter nenhum conteúdo erótico de verdade, isso não acontece na saga de Belinda.

É parte da graça imaginar que essas coisas que nos parecem ridículas possam ser, para esse senhor de uma outra geração, consideradas excitantes. Será que as ideias de desejo mudam tanto assim de uma geração para outra, ou seria Rocky Flintstone um gênio do humor? O mais provável é que só seja um tiozão sem noção mesmo, mas com uma empatia que o torna adorável.

Marília: Não consigo acreditar que ele não seja um gênio do humor. Minha outra explicação é que ele escreve sempre muito bêbado. Não tem outra explicação possível para criar personagens como Peter ou a Duquesa… Aliás, os personagens como um todo são… especiais, rs. Belinda tem zero personalidade e quase não fala. Uma piada constante é que seu clitóris fala mais do que ela. Bella/Donna talvez seja minha personagem favorita pela completa falta de noção que vai mostrando ao longo das obras. Ah, Jamie, especialmente do meio do primeiro livro em diante, vai fazendo vozes diferentes para cada personagem e a voz de Bella é muito boa! Entre os personagens recorrentes, fico com a impressão de que a obsessão de Rocky com a aristocracia precisa ser estudada…

Emannuel: Concordo completamente! Bella/Donna (sempre fico me perguntando se foi de propósito, já que essa combinação de nomes pode fazer referência à planta venenosa ou a tantos outros usos na cultura) é aquela personagem que rouba a cena todas as vezes que aparece. Mas também gosto muito de alguns personagens que tem menos destaque também, porque costumam ser os mais bizarros de todos, como Helga e suas roupas de lã ou Gisele, que fica careca quando tem orgasmos.

Sem falar que os lugares que Belinda visita são praticamente personagens. Como responsável pelas vendas internacionais, só nos primeiros dois livros ela já viajou para a Holanda e para os Estados Unidos! E provavelmente veremos a Rússia e a Bélgica em breve. Como um viajante de carteirinha, Rocky poderia falar com profundidade sobre as sociedades de cada um desses lugares. Mas isso só se fosse um escritor bom, o que acaba por fazer é usar os maiores clichês de todos, como o red light disctrict em Amsterdã ou os ranchos do Texas, para dar um twist de bizarrice à sua obra.

Nesta terceira temporada, descobrimos que Rocky passa metade do ano no Brasil, o que pode indicar que a nossa terrinha também vá ser visitada pela trupe da Belinda em algum momento. Já apareceu até um personagem brasileiro! Aguardamos ansiosamente a visita.

Marília: #BelindaPleaseComeToBrazil. Os comentários de James e Alice salvam muito. Aliás, não sei qual dos três eu gosto mais. Alice é muito engraçada e tem boas tiradas. Jamie sofre muito com o que o pai escreve mas, por outro lado, em vários casos acaba defendendo ou tentando explicar o que Rocky queria dizer. James é incrível porque ele quase entra na mente do autor – consegue predizer vários acontecimentos ou rumos dos livros e seu desconhecimento anatômico iguala o de Rocky.

Emannuel: A melhor parte da relação dos três é ver como cada um traz uma perspectiva completamente diferente para a leitura da história. Chega aquele ponto em que fico me perguntando como pessoas tão diferentes são tão amigas como eles parecem ser! No entanto, a minha preferida com certeza é a Alice. Ela é a que faz as piadas mais inteligentes e não tem dó de ridicularizar as coisas absurdas que o Rocky escreve, sem falar que fica indignada quando os outros dois parecem nem perceber que tem algo de errado ali.

Marília: Eu acho ótimo que tenha uma mulher para explicar como as coisas ali são impraticáveis do ponto de vista biológico – ou do bom senso.

Emannuel: Mas o fato é que o podcast é uma combinação muito especial das personalidades de cada um, e provavelmente não ia funcionar tão bem sem as contribuições individuais. Mesmo o Jaimie, que na maior parte do tempo apenas lê o livro, vai cada vez mais mostrando o que acha das aventuras de Belinda através da sua interpretação dos personagens. E o carisma de todos juntos acaba sendo o verdadeiro atrativo do podcast, muito mais do que o livro em si. E essa parece ser uma coisa muito específica do tipo de mídia do podcast. O tema é importante, mas é a sensação de conhecer aquelas pessoas, de ser parte de um grupo de amigos, que nos faz voltar todas as semanas.

Marília: Sim, o podcast já tem 8 milhões de downloads (ou seguidores, agora não lembro o dado) e o livro tem poucas vendas. Eles conseguiram tornar a obra de Rocky bem mais interessante. O que eu acho sensacional é que o próprio Rocky ouve e gosta do podcast e já pensou em estratégias de marketing ou usa citações dos convidados na sua assinatura de e-mail. Um gênio do humor!

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