Sendo cri-cri: Les Misérables

Por Marília e Aline

Desde março deste ano, o Teatro Renault (antigo Abril) recebe a nova montagem de Les Misérables (Les Mis para os íntimos), musical baseado na obra homônima de Victor Hugo. Dando seguimento às grandes produções com sucesso de público, que recentemente incluíram  Wicked e O Rei Leão, a T4F traz agora versão em português da peça em cartaz no West End londrino desde 1985.

A T4F tem investido em produções nas quais a montagem é trazida toda de fora para ser encenada pelo elenco brasileiro – figurinos, cenário, maquiagem, até diretores – e, portanto, a qualidade é muito alta. Esse tipo de produção tem sido abrigada pelo Teatro Renault desde o primeiro musical da Broadway trazido ao Brasil – que no caso, o próprio Les Mis em 2001, cujas letras, bem traduzidas por Cláudio Botelho, voltam a ser utilizadas.

Esta é a primeira vez que uma produção nesse estilo é repetida por aqui, e é também a primeira vez que não só a montagem, mas parte do elenco é importado – no caso, o espanhol Daniel Diges, que já viveu Jean Valjean em outros países. Infelizmente, Diges havia acabado de embarcar para uma temporada de férias na terra natal e não pudemos testemunhar seu desempenho como Valjean. É importante frisar que, no caso dessas produções “importadas”, é comum a troca de membros do elenco entre os diversos países.

Leo Wagner, entretanto, assumiu o papel de protagonista com excelência. Valjean é um papel exigente tanto no aspecto vocal quanto para a atuação: um prisioneiro que, após passar 20 anos encarcerado por ter roubado uma fatia de pão, obtém liberdade condicional só para descobrir que a sociedade francesa do século XIX não lhe daria chances de reconstruir sua vida, e portanto decide assumir uma nova identidade. O início da peça foca o conflito interno de Valjean, que descrente da humanidade, vê esperanças na caridade estendida por um padre que ele tentava roubar – e Wagner retrata bem os dilemas do personagem. Nessa entrevista, ele fala sobre a experiência sendo cover e tendo que estar preparado para assumir tanto o papel de herói quanto de vilão (Javert) da peça.

Les Mis é um dos maiores clássicos do teatro musical, porém não é dos de mais fácil digestão. Mesmo entre os fãs de musicais, não agrada a todos. Ainda assim, para aqueles que cativa, é de uma beleza ímpar. A história de Victor Hugo é bastante extensa e dramática e sua adaptação para o teatro musical cometeu erros. Dada sua consagração dentro do gênero, há pouco espaço para corrigi-los, tendo o melhor dos trabalhos até hoje sido feito pelo filme de 2012. Por outro lado, no caso de uma produção como a da T4F, não há nenhum espaço para mudanças no roteiro.

Um dos maiores erros da peça é tentar incluir personagens demais. A história se passa em três momentos diferentes com poucas indicações de passagem do tempo e mudança de espaço (o que foi muito mais bem trabalhado no filme). Conforme o tempo passa, personagens mudam de contexto sem aviso, de forma que aqueles que não estão sentados muito perto do palco, onde é possível ver muito bem os traços dos atores, podem demorar ou mesmo não entender que se trata da mesma pessoa. Além disso, de repente, aparecem muitos personagens novos sem uma apresentação minimamente didática em meio aos muitos acontecimentos. Em resumo, a história é confusa para aqueles que já não a conhecem – o Guia da Folha de São Paulo fez um pequeno resumo que pode ajudar os desavisados.

Deixando de lado as questões da peça original, o mais importante a se analisar em relação à montagem brasileira é o elenco. Em Les Mis, um elenco bem escolhido é capaz de minimizar boa parte dos problemas do roteiro. Vale ressaltar que pegamos a sessão das 20h de um domingo, detalhe importante porque não é incomum que a tal altura o elenco já esteja bastante cansado. Aos sábados e domingos ocorrem duas apresentações por dia no Teatro Renault e, embora os substitutos possam entrar em cena para poupar os principais em algumas sessões, não sabemos se foi o caso na data em questão.

Javert, o antagonista da história, é vivido por Nando Pradho, que, embora tenha feito muitos musicais, há algum tempo andava afastado dos palcos do teatro. Como agente do poder público, cabe a Javert aplicar a lei, que é seu deus. Para ele, o mundo é preto e branco, as condições que levam uma pessoa a infringir a lei – como a fome que leva a roubar um pedaço de pão – não fazem nenhuma diferença. Sua obsessão com Valjean, o prisioneiro fugitivo, se arrasta por décadas e o leva a uma espécie de loucura. Nesse aspecto, Pradho, que já havia mostrado excelente atuação em cenas de loucura descontrolada em O Médico e o Monstro, foi um grande acerto, conseguindo mostrar muito bem a espiral psicótica do personagem. A única observação seria o timbre de sua voz. Pradho canta muito bem, contudo, nos agrada a contraposição entre as vozes de Valjean e Javert que o filme de 2012 tentou fazer (estragada pelo fato de Crowe, no papel de Javert, não cantar muito bem). Um Javert com voz mais grave, marcando sua oposição à de Valjean, teria sido uma boa pedida.

Fantine é uma operária que, por fugir dos constantes assédios do gerente da fábrica onde trabalha, acaba na rua e se vê obrigada a vender seus dentes, cabelo e, finalmente, a se prostituir para sustentar a filha. Kacau Gomes é responsável por interpretar o clássico I dreamed a dream (quem não lembra de Susan Boyle?!) e lhe faz jus. Dona de uma voz é maravilhosa – que alguns podem inclusive reconhecer, visto que dublou Mulan e Tiana nas versões brasileiras da Disney (mais sobre sua trajetória aqui) -, Kacau acerta todas as altíssimas notas da canção. No entanto, pareceu faltar alguma coisa em sua interpretação. A cena acontece quando Fantine está no mais completo fundo do poço e notas perfeitas não são suficientes sem uma dose de emoção – os soluços de Anne Hathaway (que a interpreta no filme) que o digam.

Conforme o tempo passa, entra na história um triângulo jovem: Marius, Cosette e Éponine. Cosette, a filha de Fantine criada por Valjean, é uma personagem muito chata, uma menina criada com todos os mimos e que só entra na história como uma jovem romântica, não tendo sequer grandes números musicais. A escolha de Amanda Seyfried para vivê-la no filme foi bastante acertada, pois a atriz, assim como a brasileira Clara Verdier, conseguiu minimizar a chatice da personagem. Verdier, tal qual Seyfried, tem uma voz bastante adequada à personagem, mais lírica e romântica.

Marius é um jovem estudante, proveniente de uma família abastada, que se envolve no levante republicano de Paris de 1832. Amigo de Éponine, um belo dia Marius esbarra em Cosette na rua e se apaixona. Filipe Bragança, em um primeiro momento, pareceu não dar conta do papel, que precisa de força para não cair no cliché de jovem mimado e ingênuo: sua voz e atuação estavam fracas comparadas às de Pedro Caetano, Clara e Laura Lobo (segunda sessão de domingo?). No entanto, ao entoar o grande número de Marius, Empty Chairs at Empty Tables, o rapaz, que tem apenas 16 anos, mostrou a que veio. Convenhamos que o nível de comparação, depois de Eddie Redmayne ter quebrado tudo no papel, não é para qualquer um.

Laura Lobo encarna Éponine, a pobretona filha dos Thénardier que é secretamente apaixonada por Marius. Éponine tem uma das melhores canções da peça, On My Own, que exige muito. No filme, Samantha Barks foi um dos poucos casos de intérpretes levados do palco do West End para a telona justamente porque não é possível escalar qualquer pessoa para o papel. Laura tem uma incrível potência vocal e sabe dar a emoção que a música exige [Marília é apaixonada por ela desde que a viu como Marta em O Despertar da Primavera]. Participou inclusive do elenco infantil na primeira montagem de Les Mis no Brasil, em 2001. É possível vê-la detonando em Só Pra Mim aqui.

Aaron Tveit foi outro ator que fez a passagem dos palcos para o filme, interpretando Enjolras, um dos líderes dos estudantes revolucionários. O personagem é muito carismático e pede uma voz marcante e forte. Pedro Caetano foi uma escolha acertadíssima, entregando tudo que o papel pede e destacando-se entre os demais – as cenas dos estudantes são as mais confusas, com muitas pessoas descontextualizadas, por isso, é importante reconhecer Enjolras e Marius entre os demais. É também um dos poucos atores negros da peça e, felizmente, tem um papel de destaque. Aliás, em tempos de Hamilton, o casting poderia tranquilamente incluir diversidade maior entre os personagens – lá fora, tanto Valjean quanto Javert já foram vividos por atores negros.

O casal Thénardier é um mistura: cumprem o duplo papel de vilões e alívio cômico. Canastrões, enganam os clientes de sua hospedaria e tentam sempre levar vantagem. São interpretados por Ivan Parente e Andrezza Massei. Em Master of the House, Ivan parecia cansado (de novo, sessão de domingo?), mais preocupado em acertar as notas do que com a atuação, que neste caso é até mais importante. Andrezza acaba roubando a cena, garantindo as boas risadas da plateia para as quais serve o número. Seu currículo é extenso, já tendo contracenado com Ivan em A Madrinha Embriagada, onde ele também mostrou seu talento cômico. O ator acabou recuperando o fôlego no segundo ato, e o número final do casal é divertidíssimo.

Se você não gosta de musicais inteiramente cantados, talvez não seja a melhor alternativa para os muitos dinheiros investidos – o preço dos musicais da T4F é bastante alto e tem aumentado nos últimos tempos. No entanto, têm sido feitas muitas sessões populares, sempre anunciadas antes pelas redes sociais, e recomendamos a ida. Les Mis pode ser cansativo, porém há um motivo pelo qual se tornou um clássico tão consagrado. As canções são lindas e a história é tocante. Os números coletivos, como One Day More, são arrepiantes, especialmente ao vivo (e o ensemble por aqui está de parabéns). A produção brasileira está muito bem feita, vale a pena aproveitar a oportunidade de conhecer um musical desse calibre – que, afinal, já demorou 16 anos para voltar ao Brasil, nunca se sabe quando teremos outra chance!

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