Divorciando-se do rock

Por Lealdo

Anos antes de me apaixonar num nível, hum, digamos, sério (que palavra problemática) por literatura, mas já gostando de cinema (i.e. Disney, filmes do Macaulay Culkin na fase bebê Johnson e uma ou outra rara obra, hum, digamos, séria, que por razões estranhas me caíra no colo), veio a paixão à música. Por música, compreendendo-se quase que exclusivamente rock, ao menos por uma boa década. E por rock, no meu caso particular de mancebo übernerd de doze anos em Sergipe, compreendendo-se, no início, quase que exclusivamente a menos sexy das grandes bandas inglesas de rock setentista: Deep Purple. Sim. Com direito a camisa preta onde dragões se entrelaçavam num D e num P, ondulando (ela terminava pouco acima dos joelhos) enquanto eu desbravava um shopping.

Tendo antes mal dado atenção ao universo musical, no máximo um Michael Jackson aqui e ali que conheci por causa do jogo de Mega Drive e um CD com músicas do Cavaleiros do Zodíaco, ouvir pela primeira vez Smoke on the Water e correlatas foram algumas das experiências mais próximas de revelação transcendental, sem qualquer hipérbole proposital, que tive na vida. Meio que movido por um sentimento junkie (ouvindo com frequência aquelas músicas, o pico dopamínico logo passava e um drogado, naturalmente e se possível, vai atrás de novas fontes de prazer) e também por uma vaga necessidade – que permanece – de situar historicamente o meu consumo cultural, ao longo dos anos fui me mudando de bairro musical dentro do rock. Claro que não de modo tão sistemático ou excludente – a motivação em algum grau sempre foi, como disse, a dopamina, apesar de o instinto bibliotécario aqui ser forte –, em retrospecto me é perceptível como do som setentista avancei para o noventista, voltando para o sessentista (ah, Beatles e Stones, meus amores clichês), então descobrindo as baterias ecoantes dos oitentistas para por fim vir chafurdar junto com minha geração no indie contemporâneo.

E é nessa questão da geração – a minha, e muito provavelmente a nossa – que agora foco, pois, se comecei a ouvir música só no fim do milênio, quase todo o meu consumo, em especial na pubescência, foi de som antigo. Se o lado bibliotecário estava até satisfeito, em especial com o acesso moderno tão fácil a catálogos inteiros de bandas velhas, um outro lado meu (forçando mais ainda a barra do que eu talvez já esteja forçando desde o primeiro parágrafo, vou chamá-lo de lado político-estético-contemporâneo, P.E.C.) estava insatisfeito. Porque esse lado P.E.C. nunca quis ficar alheio à minha geração, aos sons que a movem e a simbolizam, seja nos movimentos políticos-sociais ou no movimento dos quadris, e me refiro a isso desde no sentido mais desavergonhadamente populista (não eram só a cerveja e o Red Label que me faziam cair no funk no fim das festas de casamento ou formatura) até no de me obrigar (sim, me obrigar) a saber – o que não significa gostar ou mesmo concordar –  o que é mais elogiado e recomendado não só pelos críticos gringos bacanudos (hello, Pazz & Jop, my old friend) como também por jornalistas de diferentes veículos nacionais, vinculados a diversos gêneros musicais. Sem esquecer, é claro, das essenciais dicas dadas por aquele/a amigo/a que manja horrores de música, ou ao menos manja horrores de algum nicho do qual eu só sabia o nome e olhe lá.

Novamente, ok, jamais foi algo tão metódico ou obsessivo, nem mesmo estou entre as pessoas que eu mesmo conheço que mais têm repertório/conhecimento (sempre houve fadiga, preguiça e a mera e gostosa vontade de só ouvir mais uma vez, além das centenas anteriores, o Exile on Main St. ou o London Calling). Seja como for, algo foi se consolidando com esses anos de audições e obsessões. Alguém como eu, que crescera ouvindo rock, que aprendera a tocar mediocramente guitarra e violão por causa de rock e que até se definiria ainda como roqueiro caso alguém viesse com a cansada pergunta “O que você curte de música?”, cada vez via menos sentido no rock como algo que representasse os nossos tempos. Não quero chover no molhado da morte do gênero, até porque não tenho certeza quanto à real consumação desse óbito. Mencionaram-no já quando o fã dos Stones morreu na plateia em Altamont, decretaram-no quando Jim, Jimi e Janis morreram. A cantilena seguiu ainda com o suicídio de Kurt e até quando Radiohead se tornou em larga medida eletrônico. Não sou o mais capacitado ou informado a deliberar sobre a quase que absoluta perda de relevância política e social do gênero – Bono parece ser o único que ainda crê no rock como salvação da humanidade –, mas penso que hamburguerias (via de regra, caras) com pôsteres dos Ramones se tornaram o recanto preferido de vários conservadores (no Brasil!) que votariam com prazer na extrema-direita enquanto ouvem Gimme Shelter. Aos meus olhos e ouvidos, o rock em boa parte se tornou a trilha sonora de todos que nas primeiras duas ou três décadas de existência do gênero o temeram e o repudiaram. Sei que isso não deixa de ser uma generalização e qualquer grande grupo (o dos “roqueiros”) sempre abrigará visões diversas. Ainda assim, a empolgação adolescente com o gênero se tornou basicamente uma grande frustração adulta. O que fazer então para apreciar o som feito hoje em dia?

Pode ser que o garoto com camisa do Deep Purple que ainda há em mim aguarde por uma próxima puta banda, que tenha capacidade de comunicação e algo para dizer. Dou até as minhas fuçadas no que há de raro e novo, mas não consigo ter disposição para ouvir cada promissora e revolucionária banda de Londres que ainda use guitarras. O outro eu, o P.E.C., aprendeu, para não se resignar ante o lado bibliotécario, a gostar de hip-hop. De verdade (o álbum que facilmente mais ouvi e amei em 2015 foi o To Pimp a Butterfly). Também aprendeu a gostar de um pouco de eletrônico. De bastante pop. Até de R&B, a depender do caso. Eu passei a buscar ouvir com prazer cada gênero diferente, sem sentir que estava apenas dando um descanso aos ouvidos antes de voltar ao Led Zeppelin, como teria feito durante tantos anos. Page & cia sempre estarão lá para quando eu quiser voltar a lembrar como o rock já foi bom. No resto do tempo, prefiro ouvir sons novos que busquem ser mais – frequentemente muito mais – do que mera derivação (por definição, pior) de tudo que Berry, Lennon, Richards, Iommi e Strummer já fizeram (melhor), com letras significativas e inteligentes, acreditando até que a revolução (nada tão brega e irresistível como esse romantismo) talvez venha, não com cordas, mas samples. Kendrick Lamar está aí, afinal.

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