A Vegetariana, traduzida

Por Marília

Faz um tempo que venho tentando acompanhar premiações literárias e uma das mais importantes é o Man Booker International Prize, que, desde o ano passado, escolhe a melhor obra traduzida para o inglês no ano. O vencedor leva a bolada de 50 mil libras. A primeira premiada nesse novo formato foi a escritora coreana Han Kang pelo romance “A Vegetariana”. O livro foi publicado na Coreia do Sul originalmente em 2007 e, se não me engano, saiu no Brasil em 2013.

O hype após o anúncio do prêmio foi imenso. Pipocaram incontáveis análises sobre e elogios para a obra, a autora e para a tradutora, Debora Smith, que dividiu o prêmio com Kang. Tem até uma matéria no Guardian com as duas explicando a relação de escrita entre elas. A autora foi super elogiada pelo seu estilo em praticamente todas as matérias sobre o prêmio e/ou avaliações do livro. Quando vi a sinopse, não tive interesse em ler A Vegetariana, só que os elogios frequentes me deixaram curiosa.

Além disso, Smith ganhou muito destaque na mídia e sua tradução também foi celebradíssima. Ela tinha 28 anos quando assumiu o projeto e estudava coreano há apenas cinco ou seis anos. A moça também faz doutorado na Universidade de Londres, no Departamento de Línguas e Cultura Japonesa e Coreana (não consegui descobrir se já concluiu ou não a pesquisa). Fiquei meio chocada. Cinco anos estudando um idioma é bastante tempo, porém não tanto tempo assim para assumir uma tradução literária. Minha impressão – e era mais ou menos isso que saiu na mídia – é que Smith era uma geniazinha.

Com tantas boas críticas positivas, resolvi ler o livro. E li em inglês, diga-se de passagem, já que o trabalho de tradução tinha sido tão bom. Não gostei. Quer dizer, o livro é interessante e quanto mais penso sobre ele, mais acho a proposta muito louca num bom sentido. Talvez minhas expectativas fossem altas demais, mas parecia que, embora a premissa fosse incrível e a estrutura tenha uma proposta legal para a história, o livro não entregava tudo isso. Aliás, definitivamente não entendi como esse livro tinha ultrapassado Raduan Nassar na corrida pelo prêmio. Bom, gringos são estranhos e, entre tantas esquisitices gringas no mundo, aceitei mais essa.

Até que, na semana passada, achei um post no tumblr elencando problemas na tradução de Smith. Embora surpresa, confesso que não me dei ao trabalho de correr atrás de mais informações. Nesta semana, o assunto ressurgiu no podcast do Book Riot. Os apresentadores linkaram um texto que comentava os problemas da tradução e que também estava referenciado no post original no tumblr.

The Vegetarian é dividido em três partes e, só na primeira parte, diagnosticou-se que 10,9% do texto original foi traduzido de forma errada e 5,7% foi omitido. Em seu artigo, Charse Yun lembra que é normal erros e trocas de palavras acontecerem em traduções – não dá para querer equivalência perfeita. De fato, 10,9% é uma taxa bem alta porém, segundo o autor, a maioria das palavras em questão não chega a atrapalhar o enredo. Nesse quesito, o que pega é que Smith erra ao identificar os sujeitos das sentenças, atribuindo falas e ações a personagens errados. Dessa forma, muda o sentido da obra em várias partes.

Além disso, o tão celebrado estilo da autora coreana foi alterado, sendo mais rebuscado e “lírico” que no original. Yun afirma que a tradutora também ornamentou o texto em diversos momentos, dando outra intensidade a essas falas e ações. Isto é, o tom do texto muda. Aqui, Yun faz um contraponto interessante: aumentar o volume em algumas partes funciona justamente para reforçar a tensão e, desse modo, a obra apela ao público ocidental. Smith, portanto, intensifica os “dramas” e torna a história mais interessante para esses leitores. O artigo é interessante porque o autor não aponta dedos nem fica listando os tais erros da tradutora. No entanto, parte disso para falar dos problemas de um modo mais geral, sugerindo, inclusive, determinações do editor para essas escolhas. Também elogia Smith, por conseguir traduzir um livro não possuindo conhecimento tão extenso do idioma. Gostei particularmente da comparação do ato de traduzir com o ato de cozinhar, bastante elucidativa.

Fiquei frustrada com a história. De certa forma, a premiação armou um circo em torno da tradução e Smith levou 25 mil libras pelo trabalho. Como ficam os leitores? O tão elogiado estilo de Kang não é bem aquele. A versão em inglês parece conter erros graves. Quem é responsável por checar tudo isso?

Estou considerando ler a versão em português e ver se consigo identificar o quão diferente é. O foda é que também estou partindo de uma tradução. E traduções literárias são difíceis. Primeiro, o tradutor precisa encontrar uma palavra equivalente entre dois idiomas que tem evoluções, mudanças e contextos específicos. Essa palavra precisa também transmitir bem o espírito do texto – o que, por si só, é uma treta. Não bastando, a tradução tem que ser justa com a autora ou o autor, sendo capaz de captar seu estilo. Chamar de complicado é pouco e eu admiro muito quem consegue fazer isso.

Só que me dá medo também. Adoraria saber todas as línguas do mundo para sair lendo tudo no original… Seria lindo. Tive o privilégio de estudar outros idiomas e, quando consigo, pego livros no idioma em que foram escritos. Nem sempre rola. Nesse caso, inclusive  – não sei coreano, ou russo, chinês, italiano e por aí vai. E nem todo mundo pode/consegue aprender outras línguas, de modo que precisamos contar com os tradutores.

Como fica quando rola uma presepada dessas? Como saber que a tradução é boa? Quem é responsável por identificar essas mudanças no texto? Dividindo a nóia: e se lermos um livro, gostarmos e descobrirmos que não é nada daquilo? Sei que existem problemas de verdade no mundo, mas fica aí mais um elemento para crises de confiança.

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