Nossas marcas

Por Juliana

Você já desenhou hoje?

Você conhece o seu traço ou sua linha?

O desenho é uma linguagem tão antiga e permanente, uma anotação visual tão pessoal que reconhecemos os traços de MatisseVan GoghTracey EminLouise Bourgeois, dentre tantos outros, como se reconhece a letra de mão da sua amiga.

O traço expõe sua memória cinética e este traço, produzido naquele instante, com suas reflexões, nunca será igual a outro. Desenhar é trazer ao visível, criar relações, reter informações, dar concretude à imaginação, figurar um processo, investigar, coletar o mundo que nos cerca, confessar… É um ato íntimo. E, como a sua voz, é único. O seu desenho tem a qualidade expansiva de estender seus pensamentos, desejos e atuações no mundo. O quanto você está em contato com ele? O quanto o utiliza nas suas elaborações? Como são seus rabiscos? Já parou para pensar nisso? Não? Então, note-os, elabore-os!

Gostaria de propor a vocês uma atividade – mais uma nesse mundo de atividades. Escolha uma superfície. Qualquer uma, seja uma folha de caderno, um pedaço de papel usado, um plástico, uma planta!, e lance sua linha, designa, puxe, traceje, lance, projete, arraste, pontilhe, e, no meio de tudo isso, se conheça ou se reconheça. Trace revezando suas mãos! Somos diferentes usando mãos diferentes? Perca o controle, esqueça a perfeição e use aquela mão com que você não escreve! Ou melhor, use o braço todo! Movimenta todos aqueles músculos ali para fazer um mero – porém nada simples – risco. Tente recriar uma forma sem retirar o lápis (ou seja qual for o material tenha escolhido para sua linha) da folha de papel (ou o que for). Se aventure, se perca, se encontra, se perca de novo, se divirta.

Muitas vezes, nosso último contato com essa linguagem de traços livres e descomprometidos foi na pré escola. Depois desse período, as letras tomam conta da nossa expressão por via de linhas, uma expressão que ficou ligada à significados pré estabelecidos, de símbolos já criados.

E chegamos, ainda, às telas e letras que nem precisamos desenhar. Teclas quadradas, letras formatadas. Mudamos a fonte mas não varia o traço. Não encurta a distância, não substitui aquele momento tão íntimo, tão forte, tão necessário do lápis e o papel (ou os outros materiais, vocês entenderam!).

Por isso faço essa proposta. Ela pede para que você fuja disso, do já criado, e do nada, do branco da sua superfície, e materialize o seu íntimo. Um traço diz tanto sobre a gente quanto um texto. Se deixe conhecer de outras formas. (Ar)Risque.

Imagens na ilustração:
Tracy Emin – Sex (2007)
Lee Krasner (1939)

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