Comentário nada breve sobre mais um prêmio literário

Por Marília

Na mesma semana em que começa a FLIP, numa edição bastante preocupada com diversidade* (é a primeira edição do evento com 30% de convidados negros!), saiu também a lista dos semi-finalistas do Man Booker. Uma lista mais diversa e mais interessante que a do Man Booker International, pra ser bem sincera..

Antes de falar mais da lista, um adendo sobre o prêmio. Existem duas premiações Man Booker por ano – ambas baseadas no Reino Unido. Uma é o Internacional, mencionado rapidamente na newsletter passada. Criada em 2004 para complementar o Booker, essa categoria premiava, a cada dois anos, um autor de qualquer nacionalidade que tivesse um corpo de obras publicadas em inglês ou traduzidas para o inglês. A partir de 2016, o formato mudou: além de ser anual, concorrem obras específicas traduzidas para o inglês e publicadas no Reino Unido naquele ano. Além disso, o montante em dinheiro é dividido entre autores e tradutores.

O Man Booker Prize “normal”, por sua vez, escolhe anualmente o melhor romance original escrito em língua inglesa e publicado no Reino Unido. Criado em 1969, valia apenas para autores de países da Commonwealth (bom dia, século XX), Irlanda, África do Sul e Zimbabwe. Em 2014 (!!), ele foi ampliado, podendo concorrer qualquer obra anglófona. O primeiro americano vencedor do prêmio foi Paul Beatty, no ano passado, por “O Vendido” (The Sellout) – que saiu agora no Brasil pela Editora Todavia. Inclusive, Beatty também é destaque na Flip deste ano.

Voltando para a lista de semi-finalistas, conhecida na gringa como long list, a premiação de 2017 tem de tudo um pouco. Mulheres, negros, paquistano-britânicos (é assim que chama?), uma indiana… Fiquei surpresa com algumas inclusões. Colson Whitehead, por exemplo, estava pau a pau com Beatty nas premiações em 2016 e concorre só agora no Booker porque seu livro acabou de sair na terra da rainha. Aliás, ele ganhou o Pulitzer de ficção este ano. No Brasil, “The Underground Railroad – Os Caminhos para a Liberdade” foi publicado pela HarperCollins e O Globo fez uma matéria sobre o autor. Whitehead deve entrar para a short list mas não sei se ganha… O autor já levou prêmios bem importantes nos EUA e, para dificultar, o Booker do ano passado foi para um americano. O fator “repeteco de nacionalidade” talvez influencie na escolha final, pesando negativamente para as chances de outros americanos.

Também rola uma boa mistura entre autores estabelecidos e estreantes. Paul Auster (amor eterno, amor verdadeiro) e Arundhati Roy (que inclusive foi a primeira pessoa indiana a ganhar o Man Booker em 1997) estão na lista. “O Ministério da Felicidade Absoluta” é a segunda obra da autora e tem sido bastante celebrada pela crítica. Ou-ié, essa mulher publicou dois livros de ficção na vida e os dois receberam indicação pro Booker. Ah, para quem se interessar, “O Deus das Pequenas Coisas”, seu primeiro romance, está disponível no Brasil em versão de bolso, pela Companhia das Letras.

Já Fiona Mozley e Emily Fridlund concorrem por seus primeiros livros lançados – só por isso, vale ficar de olho nas duas. A britânica Mozley concorre por “Elmet”, que, pelo que entendi, aborda os limites das relações entre pai e filho. A americana Fridlund disputa com “History of Wolves”, que parece bem estranho. Pela descrição, percebemos que este é um livro angustiante, envolvendo questões difíceis, como pornografia infantil, num lugar afastado – na verdade, a ambientação das duas obras me parece similar. Considerando o que vi na internet, sei que vou sofrer lendo.

Zadie Smith e Ali Smith (não são parentes) são duas queridinhas da literatura contemporânea – e do Emannuel (um beijo, Mannu!). Ali é uma escritora escocesa, lésbica, que ganhou repercussão mundo afora com o romance “How to be both”, de 2014 – publicado no Brasil pela Companhia das Letras (a editora traduziu quase tudo da autora, para quem se interessar). Ela concorre com “Autumn”, que foi mencionado nesta newsletter em dezembro. Palpito que Ali tem grandes chances: a autora já foi semi-finalista do Booker três fucking vezes. Zadie, por sua vez, é uma escritora inglesa que também vem recolhendo indicações e louvores nos últimos anos. Ganhou notoriedade com “White Teeth”, seu primeiro romance e um best-seller instantâneo. No Brasil, também é traduzida pela Companhia das Letras. A segunda Smith concorre ao Booker por “Swing Time”, a história de amizade e rivalidade entre duas amigas que se conhecem na aula de dança (influências de Ferrante?).

De todos da lista, dois foram muito inesperados – pelo menos pra mim. “Lincoln in the Bardo” é o primeiro romance de George Saunders, autor americano conhecido por seus contos. O livro ficcionaliza um evento real: a morte do filho de Abraham Lincoln, Willie, durante a guerra civil americana. A história se passa ao longo de uma noite no cemitério, quando Lincoln visita a cripta do filho e acaba visitado por seus próprios fantasmas. Tenho praticamente zero interesse em história americana. No entanto, esse livro foi muito elogiado pela maneira como fala de luto, morte e possibilidades de vida. Tô quase convencida a ler? Sim.

O segundo livro é “Exit West”, de Mohsin Hamid. Desde o começo do ano ele aparece e reaparece no meu radar, sempre acompanhado de comentários extremamente positivos. Justamente pelo hype, não levei o negócio a sério. E não é que tomei na cara? O livro conta a história de um rapaz e uma moça que moram num país a beira de uma guerra civil. Quando Nadia e Saeed finalmente engatam um relacionamento (secreto), a guerra explode. Mas eles podem fugir: existem algumas portas que te levam a outros lugares ao redor do globo. A treta é que, quando você entra, não sabe onde vai parar. É uma grande metáfora para a experiência dos refugiados pelo mundo. A temática é relevante e acho que, por isso, tem chances de seguir para a short list. Ah, talvez alguns já conheçam o autor paquistanês: seu livro “The Reluctant Fundamentalist” (2007) foi adaptado para o cinema há uns anos atrás.

Por enquanto, minha torcida – na base do puro achismo e sem ter lido qualquer um desses livros – está com as Smiths, Hamid e, principalmente, Paul Auster. Eu sei, a gente fala da importância da diversidade, celebra listas que mostrem isso, e aí eu escolho mais um homem branco para receber o prêmio. Auster é um dos meus autores favoritos. Tô esperando pelo “4 3 2 1” desde o começo do ano passado (por enquanto, não consegui ler). Ainda por cima, fuçando na internet, descobri que essa é sua primeira indicação ao prêmio! Ele tem 70 anos, pode morrer a qualquer momento, sabe?!, rs. Se alguém tiver curiosidade, o autor é publicado no Brasil pela – adivinha só! – Cia das Letras.

Os finalistas serão anunciados em setembro. Até lá, vou tentar priorizar esses 13 (!) livros na eterna lista de leituras pretendidas para o ano. Ah, a Cia das Letras não me patrocina – mas bem que poderia, rs.

*Para quem se interessar pela FLIP, o Nexo Podcast convidou nove escritores de língua portuguesa que participam da edição de 2017 para ler alguns trechinhos de obras recentes. Tá bem legal!

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