Clube do Livro: Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Por Emannuel e Marília

[Atenção: esse texto contém alguns spoilers, mas bem sutis]

Emannuel: Nem acredito que finalmente vamos falar desse livro! Por causa das minhas férias acabamos tendo que adiar essa discussão (desculpa, leitores!) até agora, mas tenho que dizer que, se isso não tivesse acontecido, provavelmente não teria conseguido ler a tempo.

Marília: Na verdade, temos dois responsáveis por isso. O Emannu tinha a viagem, mas eu também me enrolei e só consegui terminar o livro no final de julho. Então, desculpas duplas.

Emannuel: Apesar de ser uma obra bem curta, Pedro Páramo se revelou bem mais difícil do que eu esperava. Eu sabia que a obra é considerada como a principal precursora do realismo mágico, e por isso comecei a leitura esperando algo que me lembrasse, mais ou menos, alguns dos meus autores preferidos, como Gabriel Gacía Márquez ou Julio Cortázar. Mas o que encontrei foi algo bem diferente. O estilo de prosa que o Juan Rulfo tem é muito mais próximo daquelas grandes obras do modernismo, inclusive em língua inglesa. A experimentação com a forma narrativa e o fluxo de consciência lembram mais James Joyce e Virginia Woolf do que os nomes que citei acima. E essa foi a principal dificuldade que encontrei, aquela leitura que tinha tudo para ser rápida foi se desdobrando e revelando camadas, mas acho que ainda assim fiquei sem entender a maior parte das coisas.

Marília: Ufa, que alívio. Terminei o livro com um grande ponto de interrogação na cara. É uma obra bem difícil apesar de só ter 127 páginas. Quis ser metida e resolvi ler em espanhol – que erro. Desisti no meio e peguei a versão traduzida, recomeçando do zero. Achei as versões um tanto diferentes. Em espanhol, Rulfo escreve numa linguagem bem mais popular e, por isso mesmo, cheia de termos locais, o que dificulta ainda mais a leitura. O tempo todo, eu precisava consultar a internet (não, o dicionário não foi suficiente). A tradução de Eric Nepomuceno não me pareceu transmitir todo esse “localismo” e, a bem da verdade, não sei se era possível. O conteúdo é só aparentemente simples e a forma dificulta ainda mais. Temos muitas vozes e muitas histórias que se entrecortam, dão saltos e voltam e muitas vezes elas não se fecham. Engraçado você achar diferente do Márquez, porque me lembrou “Cem anos de solidão” em mais de um momento. A história de um povoado e uma família, muitos fantasmas, espectros… mas definitivamente menos gerações.

Emannuel: Nós passamos a maior parte do romance conhecendo aquelas figuras que moravam na cidadezinha de Comala (que até rendeu uma referência na saga ‘A Torre Negra’, de Stephen King) pelos olhos e ouvidos do narrador Juan Preciado. Estando nessa posição, é de se esperar que ele seja um personagem mais amorfo, ainda mais se levarmos em conta que toda a história pode ser vista como uma busca para completar sua identidade. Mas boa parte do tempo eu sequer sabia se era ele quem estava falando ou outro personagem, de onde vinham as vozes.

Marília: O fluxo de consciência, as aspas e indicações de falas no meio de outras falas, tudo isso é bem maluco e muito legal. Quero ler mais uma vez, agora já conhecendo os diferentes personagens e entendendo mais ou menos a história. Assim consigo prestar mais atenção na forma. São muitos fantasmas que rondam a cidade, cada um com um pequeno trecho que conta sua própria história, porém contam sobretudo a história de Comala e Media Luna e o que aconteceu naquele povoado para estar tão abandonado.

Emannuel: Tem razão, acho que esse é um livro que se beneficia muito de uma segunda (ou terceira, quarta…) leitura. Acho que só assim mesmo eu conseguiria ter uma ideia melhor do conjunto da obra. Para você ter uma ideia, nem consegui ver muito bem esse lado de saga familiar até você comentar, porque para mim todas as gerações acabavam meio que habitando um mesmo tempo. Esse recurso de transformar os personagens em espectros, em mostrar a história de uma cidade morta, é o mais interessante do livro. Os momentos em que os fantasmas surpreendem o senso comum são a confluência do conteúdo da história com a forma em que ela é contada, se formos ver de perto, é esse elemento que faz com que todo o livro se sustente. Sem ele não existiria livro.

Mas esse elemento torna difícil de enxergar os contornos dos outros personagens. Alguns, como Susana ou o Padre Rentería parecem ser muito ricos, mas não saem do campo da ambiguidade. Talvez o próprio fato de observarmos apenas parcelas de suas vidas e personalidades faça com que possamos, na nossas leituras, torná-los ainda maiores, imaginar uma quantidade de detalhes e possibilidades que não poderiam ser todas postas no papel. Que é exatamente o que o romance se propõe a fazer com Pedro Páramo, fornecendo várias facetas para que possamos construir nossa própria imagem dele. Só me parece que usar esse recurso para todos os personagens que o rodeiam acaba por dissipar um pouco esse efeito, o que me deixou perdido em alguns momentos.

Marília: Acho que essa ambiguidade é proposital. Nem tudo se fecha e Rulfo sabe bem como fazer e não o faz à toa. Susana é mencionada logo no começo e, quando de fato aparece, a personagem é bastante inesperada, não é o que eu previa. O livro frequentemente subverte nossas expectativas. Abundio é mudo mas não é. Eduviges abre uma porta que não é possível abrir. A própria Susana… pelos relatos iniciais, achei que tivesse morrido e, de certa forma, tinha mesmo, só não como ou quando eu imaginei. O Padre Rentería tem suas contradições também. Gostei de como todo mundo tem alguma coisa a esconder ou uma faceta que tira aquele personagem do “tradicional”. Bartolomé San Juan poderia ser apenas o pai enganado ou um mineiro assassinado e, no entanto, a cena dele com a filha, na mina, procurando por moedas (ou ouro) é horrível. Contribui muito para aprofundar a visão que temos dois dois, sem estancar ou definir totalmente os personagens.

De fato, essa quebra constante contribui muito para a confusão do leitor. Porém não achei que dissipou o efeito; pelo contrário, corroborou. Temos fragmentos de Pedro Páramo e fragmentos de todos os outros personagens e do próprio povoado. Isso nos faz questionar as várias facetas apresentadas, não confiamos totalmente em nada e ninguém. Isso torna a leitura complicada e rica. É um livro de muitas leituras, tanto porque podemos ter diferentes interpretações quanto porque, de certo modo, exige que voltemos a ele para buscar novas compreensões.

Além disso, gostei muito dos personagens apresentados. Um interior não localizado exatamente mas rico e identificável em tantos outros interiores de tantos outros países. São figuras que, como latinos, já vimos em momentos e espaços diferentes. Isso faz do livro específico para o México (com referência, inclusive, à Revolução Mexicana) e ao mesmo tempo um livro global, que viaja com facilidade. Acho que isso explica parte do seu sucesso.

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