Por que viajamos? 

Por Emannuel

Todo mundo sabe que viajar é um privilégio. Não importa se é para Ibiza ou Praia Grande, a simples possibilidade de viajar é algo que só está disponível para quem pode se dar ao luxo de tirar alguns dias de folga da rotina de trabalho, que tem dinheiro suficiente para pagar o transporte e a acomodação e todos os gastos que você invariavelmente tem na vida, como comer ou visitar algum ponto turístico. É claro, existem aquelas pessoas alienadas que pensam que basta querer para ir, mas essas geralmente são as maiores beneficiadas pelo capitalismo. Porque viajar é uma daquelas coisas que o senso comum vê como tão universalmente boa que poucas pessoas recusariam um tour pela Amazônia ou um resort em Bariloche se a oportunidade caísse no colo. Mas por que essa opinião é tão positiva assim?

Porque poder viajar representa essa própria desenvoltura no mundo do capital. Poder fazer isso quer dizer que você tem dinheiro suficiente para ter tal liberdade. Essa correlação, no entanto, não costuma ser explícita, ela apenas está esculpida no nosso inconsciente cultural, e muitos de nós a rejeita completamente no nível racional. Mesmo para quem não se importa tanto com essas coisas existem outros valores, mais subjetivos que relacionamos ao ato de viajar. Por exemplo, costumamos considerar a viagem como um período de acumulo de experiências. Sair do nosso ambiente normal nos coloca em contato com todo o tipo de situações com as quais não estamos habituados. Mesmo para quem fica hospedado num hotel onde não precisa se preocupar com muitas coisas tende a se abrir para o mundo de forma que a rotina por vezes nos insensibiliza para conseguir no nosso ambiente cotidiano. Ao viajar mesmo a pessoa tímida se solta e tem que falar com seres humanos fora do seu circulo social. Fazemos caminhadas pela praia e vamos observando os caranguejos e estralas do mar que surgem pelo trajeto, ou nos perdemos em ruas desconhecidas e precisamos nos guiar por prédios nos quais finalmente podemos ver as diferenças arquitetônicas.

O que nos leva ao ponto da cultura. Nada como uma viagem para nos por em contato com hábitos e costumes diferentes. A maioria das pessoas pensa logo em viagens para o exterior nesse caso, aquelas que te obrigam a falar outra língua, comer coisas diferentes e afins. Mas a verdade é que, linguagem à parte, é preciso muito pouco para experimentarmos esse choque cultural. Não existe a menor necessidade de sair do país, do estado ou, muitas vezes, mesmo da cidade para que possamos entrar em contato com pessoas que pensam e agem de modos completamente diversos dos nossos, ou comer pratos de países que provavelmente nem estavam nas nossas listas de destinos ideais. E o argumento de apreciar arte, arquitetura e afins, na maior parte das vezes, cai por terra de forma semelhante. O que não quer dizer não seja uma forma válida de fazer todas essas coisas, só não justifica que valorizemos isso muito mais numa biagem do que nas condições normais.

Pra mim, viajar é como ler um livro. Poder ser um livro daqueles bem difíceis, que a gente lê para dar um nó na nossa cabeça, ou pode ser um daqueles (e acho que isso vai se tornando ainda mais comum conforme a vida adulta vai se desenvolvendo) daqueles que lemos por puro escapismo. Viajar é fugir, afinal. Fugir de rotinas, de cobranças, de relações. Se abrigar num mundo de expectativas, de fantasia, que, na maior parte do tempo, está mais na nossa cabeça do que no mundo real. E, por mais coragem que a gente tenha, de vez em quando a vida vira um monstro difícil de encarar, e aí a fuga é a melhor forma de se reestruturar para poder lutar quando estivermos de volta.

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