Hugos diversos

Por Marília

Começo o texto pedindo desculpas por dedicar a “coluna” a outro prêmio mas é que teve novidade essa semana. Na edição #29, comentei duas produções de ficção científica e fantasia e, no meio de tudo, mencionei que o pessoal da Uncanny tinha ganhado alguns prêmios Hugo. E dia 11 eles levaram mais um: o de Best Semiprozine! Na época, linkei caso alguém quisesse saber mais sobre o prêmio. Mas ninguém é obrigado a clicar, não é mesmo? Vou falar mais ou menos o que é e como funciona e depois comentar a seleção deste ano. Se o formato não te interessa, sem problemas, pula pros vencedores e finalistas mais pra baixo 🙂

Os Hugo Awards são uma das principais premiações no mundo da ficção científica. Criada em 1953 e transformada em evento anual em 1955, ela ocorre na Convenção Mundial de Ficção Científica (que rola desde 1939!) e é administrada pela Sociedade Mundial de Ficção Científica. Falando assim, parece até uma daquelas sociedades secretas e malvadas… Na real, essa sociedade existe para promover o interesse na ficção científica e são seus membros que votam nos Hugos. Qualquer pessoa pode se associar desde que pague uma taxa anual. A taxa não é tão absurda se você mora num país dito desenvolvido: 40/50 dólares. Convertendo, no entanto, se torna bastante cara – e isso limita o perfil de quem vota, um problema para uma premiação que se propõe global.

processo de escolha dos prêmios é bem interessante. Cada membro pode indicar até cinco pessoas ou trabalhos em 15 categorias. Esses trabalhos precisam ser publicados no ano anterior em qualquer país e em qualquer língua. Como a premiação é mundial, esse é um aspecto bem positivo, porque, em tese, tem espaço para gente de fora do meio tradicional. O foda é que, na prática, a maior parte dos votantes é dos Estados Unidos, então a coisa acaba focando em trabalhos publicados em inglês ou no próprio território norte-americano/europeu. Tentando minimizar isso, o prêmio permite que um trabalho seja indicado se for traduzido ou publicado nos EUA em outro período. O quanto isso realmente mitiga o problema, não sei – precisaria de uma análise mais profunda.

Bom, em abril, é feita uma lista de finalistas com os cinco mais indicados para cada categoria. Essa shortlist é enviada de volta aos votantes, que, para escolher quem vence, colocam os indicados em ordem de preferência. Dá para saber mais sobre o sistema de votação aqui (somente em inglês). A justificativa para esse sistema meio esquisito é a quantidade de obras de ficção científica publicadas todo ano. Além disso, a ideia do prêmio é abordar a área como um todo, sem restringir por temática ou tipo de produção. Ou seja, você tem uma campo muito grande com diversas obras publicadas e ninguém daria conta de analisar tudo. Por isso, o sistema agiria somando o fato de ninguém dar conta e ter uma boa quantidade de pessoas participando do processo (o que não se concretiza sempre ou em toda categoria). Isso garantiria a seleção e escolha de trabalhos que várias pessoas curtiram.

O processo – embora bastante aberto e democrático – pode gerar problemas, como foi as brechas da campanha dos Sad Puppies (ver abaixo). Fora que, com as restrições de taxa e como a maior parte dos membros é anglófono, pra variar ficam de fora as outras línguas e regiões do mundo. Ainda assim, acho o sistema bem legal e bem mais transparente que os prêmios “normais”. Uma coisa muito legal que descobri escrevendo esse texto: o site oficial, embora simples e pouco atraente, tem muitas informações! Transparência parecer ser um forte princípio e premiações assim sempre me surpreendem. Porém, de novo, tudo apenas em inglês.

Afinal de contas, quem é Hugo? O nome da premiação é uma homenagem a Hugo Gernsback, autor, inventor, editor e criador da primeira grande revista de SciFi dos EUA, a Amazing Stories. Ele é considerado importante por conseguir aumentar o interesse das pessoas pelo tema e pela área. Olha que imagem maravilhosa essa pessoa nos legou!

Como comentei lá em cima, no dia 11 de agosto rolou a cerimônia para anunciar os vencedores de 2017. Há algum tempo, os Hugos vêm mostrando mais diversidade na composição das categorias. Isso gerou forte reação conservadora – nada surpreendente em tempos de nazi-fascistas e supremacistas brancos desfilando nas ruas. Em 2015, o fortíssimo lobby dos Sad Puppies fez o prêmio declarar “No Award” em cinco categorias – quando o número de votos por “nenhuma das alternativas anteriores” supera os votos para algum dos indicado. No fim, esse lobby não foi tão bem sucedido, uma vitória para a diversidade. Mostrou também a preocupação dos fãs de ficção científica com essa questão, cada vez mais importante para o gênero. O debate durou meses e a campanha dos cãezinhos foi bastante intensa e, como era de se esperar, bem bad.

SciFi e fantasia são áreas bem problemáticas em termos de diversidade – de autores, de personagens, de olhares… Os escritores consagrados são homens, brancos, héteros, cis. Mesmo Octavia Butler, sempre citada como exemplo de que a área não é restrita, não é exatamente super reconhecida como Asimov ou Bradbury. Pra quem se interessar, tem uma seleção de autores de ficção especulativa não-brancos na Wikipedia e em um monte de listas pela internet.

Porém, como em outras áreas de produção cultural, a situação vem melhorando. Essa edição dos Hugos é um exemplo. A escritora N. K. Jemisin levou o prêmio de melhor romance pelo segundo ano seguido – detalhe: ela foi a primeira pessoa negra a ganhar a categoria (no ano passado). Os dois romances são parte da série “The Broken Earth”, e o primeiro livro, “The Fifth Seasion”, será adaptado para a televisão pela TNT.

Além disso, as mulheres tiveram destaque em muitas categorias e não houve “No Award”. No âmbito literário, Seanan McGuire levou melhor novela (ela é uma fofa! Sigam no Twitter!), Ursula Vernon ganhou pela melhor novelette (menor que uma novela mas maior que um conto) e Amal El-Mohtar foi escolhida pelo melhor conto. Ursula K Le Guin, grande nome da área, também foi agraciada na categoria Best Related Work. Além disso, Ada Palmer foi escolhida para a categoria “John W Campbell”, que premia escritores estreantes. E Lois Bujold – a única outra mulher a levar o prêmio por dois anos seguidos – ganhou o troféu pela melhor série. Duas mulheres também ganharam nas categorias de edição: Ellen Datlow (curta) e Liz Gorinsky (longa).

Pode melhorar? Claro que pode. Ainda assim, é uma vitória e tanto. Especialmente porque os Sad Puppies continuam fazendo suas campanhas e continuam perdendo (iei!). Inclusive, na categoria de edição de longa, Vox Day, líder de uma facção mais raivosa desse grupo (os Rabid Puppies), perdeu para uma mulher. Há! Que venha mais ficção diversa, por todos os lados e meios.

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