A nova máquina mortífera

Por Marília

Você já ouviu aquela frase de que o maior predador do mundo é o próprio homem? Geralmente vem num contexto de destruição ambiental e preservação da natureza. A pessoa pergunta e você chuta, sei lá, a orca, o urso pardo, o tubarão martelo… E a resposta vem num tom de plot twist, sendo nós, humanos, destruindo o planeta para gerações futuras.

Acontece que, ultimamente, um tipo específico dentro do vasto espectro da humanidade vem destruindo tudo o que encontra pela frente. Outro nós: os millennials. Nós, sim, porque não conheço um leitor dessa newsletter que seja boomer ou geração X [se for seu caso, bem vindo! Me manda um email pra contar como chegou aqui, por favor.].

Somos o novo bode expiatório dos problemas mundiais. A gente tá matando tudo! Não sobra pedra sobre pedra – ou melhor, sabonete sobre sabonete. Destruímos a indústria automobilística e o setor de energia. O setor imobiliário não cresce porque esses millennials comem abacate demais (há controvérsias)! No âmbito do lazer, assassinamos o golfe, os cruzeiros e os cassinos. Honestamente, que pessoa com menos de 36 anos curte golfe ou cruzeiro? E, mesmo se curtisse, quem consegue bancar esse tipo de rolê?!

Mas estou me adiantando. Matamos também a cerveja, porque chega desse negócio de afogar as mágoas… Mesmo porque isso nem funciona direito mesmo (é, tá difícil viver). Os ebooks – afinal, a gente não poupa nem as tecnologias das quais somos completamente inseparáveis. Nos arrependemos de quase matar os livros físicos e enfim descobrimos que eles têm um cheirinho gostoso e que vivemos com telas demais. Ah, não posso esquecer que matamos até guardanapos mas só os de papel.

Se você jogar no google “millennials kill”, vai encontrar mais um monte de resultados bizarros. Tem listas e listas de coisas que nós matamos. O Buzzfeede o Mashable, esses sites millennials por excelência, criaram as suas seleções – se você não sabe, a geração Y ama listas e testes, mas isso fica pra outro dia. E se você for um millennial preguiçoso que precisa ter tudo de mão beijada e não quer clicar nesse tanto de link, essa lista e essa outra aqui têm resuminho junto com a seleção serial killer.

Falando sério, sei que pesca-clique é a onda e esses títulos servem justamente pra gerar audiência. Só que culpar uma geração por todo e qualquer problema me dá uma preguiça compatível com o estereótipo geracional (vide abaixo). E, como estamos falando da minha, da sua, da nossa geração, bora trucar enquanto ainda não destruímos os baralhos.

Embora mais discutido no contexto norte-americano, aqui na terrinha também somos analisados e considerados mimados, impacientes, ansiosos (e como isso é um problema para as empresas)preguiçosos… como se traços assim pudessem ser coisa de uma geração apenas – e uma geração inteira, diga-se de passagem.

Claro que a internet também traz textos defendendo os millennials, mesmo porque somos a geração conectada e isso precisa servir pra alguma coisa. Megan Grant escreveu sobre o assunto a partir de um post no tumblr (meta-millennial) ridicularizando esse suposto poder de destruição. E tem uma excelente carta aberta de um millennial no Washington Post.

Business Insider, que traz várias dessas manchetes esquisitas, resolveu analisar um pouco mais a fundo a tendência assassina da geração Y. Levantou o papel da crise de 2008 na forma como nossa geração consome e pensa em investimentos. Além disso, lembrou o papel dos empréstimos para universidade nas contas desses jovens. Estudantes se formam com dívidas imensas, precisam pagar esse montante e, consequentemente, não conseguem economizar dinheiro. No Brasil, estamos lidando com recessão econômica e crise social e política. Na minha bolha, vi muitos amigos demitidos e procurando alternativas e novos rumos, com uma bonus track de crise existencial. Para quem está saindo da faculdade agora, a situação não é nada reconfortante, porque o mercado de trabalho está bem complicado. E, ainda por cima, queremos trabalhar nas áreas de interesse ou de formação. Conseguir um emprego em outra coisa para pagar as contas é a realidade de muita gente, porém não podemos dizer que fazia parte do plano.

Temos outros hábitos e pensamos de outro jeito. Veja só, geralmente, novas gerações trazem mudanças. É um conceito meio louco, eu sei, embora não exatamente novo. Normal ter pessoas mais velhas revirando os olhos para as mais novas. A questão é que essas outras preferências e visões não surgiram do nada. Os fatores econômicos por trás são importantes – e foram criados justamente por essas gerações que reclamam da gente. As condições de trabalho estão mais precarizadas. Vagas anunciam Spotify mas não plano de saúde. Companhias oferecem mesa de ping pong e horários flexíveis que se traduzem em horas extras infinitas. Aparecem propostas para trabalhar pela composição do portfólio em vez de salário fixo e carteira assinada. Não temos o mesmo poder aquisitivo das gerações anteriores e isso tem consequências para a economia. Só que não fomos nós quem criamos esse novo ambiente de trabalho ou essas crises todas.

Além disso, crescemos quando a discussão ambiental muito em voga. Aprendi bastante sobre reciclagem e reflorestamento ainda na escola. Então, sim, pensamos diferente. A decisão de comprar um carro, por exemplo, pode não fazer sentido por diversos motivos. É um bem caro de se manter, só desvaloriza com o tempo, impacta no caos de mobilidade das médias e grandes cidades, tem consequências ambientais e riscos de acidente, especialmente porque as pessoas ainda dirigem embriagadas. Facilita para muita gente? Claro, só que não é mais para todo mundo. As coisas mudam. Às vezes, até para melhor. Nem tudo o que destruímos era tão legal assim.

Culpar uma geração inteira por diversas mudanças só porque ela pensa diferente, como se essas mudanças fossem planejadas e ativamente executadas, é tão preguiçoso que os autores desses textos não podem apontar o dedo para a geração Y. Ou vai saber: talvez eles façam parte do grupo de preguiçosos que somos, rs.

Antes que eu me esqueça: estou ciente de que boa parte dessas questões diz respeito apenas a uma classe média branca cheia de privilégios. Faço parte desse grupo e estou falando de uma experiência similar à minha. Se souberem de artigos/posts que analisem esse tema por outras perspectivas, por favor, me enviem! Compartilharei com os demais leitores por aqui.

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