Clube do Livro: Na boca da baleia, de Sjón

Por Emannuel e Marília

[Atenção: esse texto contém spoilers sutis, exceto pelo último parágrafo, que tem um mais pesado]

Emannuel: Lançado originalmente em 2008 e traduzido para o português agora em 2017, “Pela boca da baleia” foi escrito por um escritor islandês que é conhecido apenas pela alcunha de Sjón, e que além de romances também é colaborador da sua conterrânea mais famosa, a Björk (aliás, vale a pena colocar um disco dela para tocar para acompanhar a leitura).

Marília: O Sjón também foi indicado ao Oscar pela música de “Dançando no Escuro”, do Lars von Trier. E era um ex-punk. É um escritor bem interessante…Falando especificamente do “Pela boca da baleia”, estamos numa sequência de livros confusos pelo visto, rs. Apesar de ter gostado da experiência, eita leitura confusa. A estrutura do romance contribui para isso: começamos com o narrador nos contando sua situação presente (bastante sofrida) e aos poucos vai apresentando não apenas os elementos de como chegou ali mas também quem é essa figura e porque foi tão atacado.

Emannuel: Sim, parece que é isso mesmo. Se bem que achei que as formas de confundir dos dois (“Pedro Páramo” e “Pela boca da baleia”) são tão distintas… Já no começo o que me chamou mais a atenção foi justamente o uso de muitas reticências, sem quebras em parágrafos (li em inglês, mas imagino que a tradução para o português deve ter mantido isso, confere produção?). Era uma coisa que faz com que precisemos ler direto, quase que sem pausa, exceto pelas pequenas notas de tom enciclopédico.

Marília: Confere, Arnaldo. Muitas reticências, bem em tom de fluxo de pensamento. São formas de confundir diferentes mesmo e, pra mim, embora faça esse “disclaimer”, a estrutura não foi um problema. Pelo contrário, gosto desse tipo de livro. A dificuldade, pra mim, veio dos vários elementos estrangeiros. Desconhecia o contexto da Islândia no século XVII, como foi a inserção do protestantismo na ilha, suas relações com a Dinamarca… Aos poucos, o leitor vai pegando isso e ajuda muito ler um pouco sobre o próprio livro depois – por exemplo, por meio de entrevistas com o autor (que veio para a Flip desse ano). Então, o setting do livro é um contexto desconhecido mas relativamente fácil de compreender ao longo da obra ou de pesquisar mais depois. Agora, mesmo em português, precisei muito de dicionário e recorri ao Google em diversos momentos. O texto conta com descrições de pássaros, peixes, plantas e afins que não conhecemos. Alguns inventados (ou, ao menos, reais dentro do imaginário islandês da época), outros não.

Emannuel: Acho que meu jeito de lidar com essas questões foi tratar o romance mais como um livro de fantasia do que uma peça histórica. Os pássaros, que são um tema recorrente, por exemplo, eu assimilei meio que do mesmo jeito que os Mockingjays da saga Hunger Games. Acho que conforme o ritmo vai se assentando, até conseguimos aprender um pouco daquele contexto, mas a forma que a fantasia é usada também nos dá uma liberdade para ler com mais atenção para a parte literária. Mas a Marília é quem é a estudante de história nessa conversa, afinal!

Marília: Bacharela, agora, haha. Não tratei o livro como peça histórica porque não é, é uma ficção. Googlei porque queria formar bem a imagem apresentada ali. Aliás, bom exemplo do Hunger Games: na época, googlei os dois passarinhos que compõem o mockingjay para formar uma ideia de como o bicho se pareceria. Somos exemplares de diferentes atitudes de leitura… Também são apresentadas várias figuras e personagens, que desaparecem e reaparecem mais adiante no livro. Pessoalmente, tive um pouco de dificuldade no começo para lembrar quem era quem. Não é difícil como Pedro Páramo. No entanto, é um livro mais trabalhoso para o leitor e que exige uma imersão naquele mundo. Acho que é bem possível ler isso sem pesquisar nada e ir seguindo, como fez o Mannu. Como disse, não foi meu caso e as constantes interrupções para pesquisa atrapalharam um pouco esse processo de imersão e de dedicação à prosa mais lírica (que, aliás, é muito bonita). Você teve essa percepção em relação aos termos na tradução para o inglês?

Emannuel: Na verdade, achei a narrativa bem fluída, depois de me acostumar com os recursos usados pelo escritor. Chegou ao ponto de a terceira parte, que é narrada em terceira pessoa e tem uma visão mais distanciada, que não toma aquelas superstições da época como se fossem verdades, se revelou o trecho do livro que menos gostei, ao mesmo tempo sendo o que melhor entendi. Se existe uma coisa em comum entre a minha leitura desse livro e de Pedro Páramo é o fato de que queria que alguns personagens fossem melhor explorados. Especialmente Sigga, a esposa do protagonista. Ela era uma personagem rica em nuances, que roubava a cena sempre que aparecia, o seu destino acabou me parecendo muito triste, no sentido de como foi subaproveitada…

Marília: Concordo totalmente com você sobre a terceira parte. Ela funciona como ponto de pausa daquele relato e explicação de diversos elementos e contextos. Só que esse trecho começa a partir da descrição em primeira pessoa de uma visão, que é uma parte muito linda! Dá um contraste e uma quebra interessantes… Só que, como você, entendi mais e gostei menos. Taí uma coisa a se pensar, rs. E a Sigga é uma figura muito cativante e especial. Pela descrição de Jonas, dá a entender que ela se posicionava de modo diferente e era quase que uma “voz da razão”. E ela fica de lado… Achei um tanto machista isso. Ela simplesmente é esquecida por todos.

Emannuel: Por outro lado, Jonas se revelou um personagem que fascinou pela sua paixão pelo conhecimento. Acho que esse é, aliás, o grande tema do livro. A própria ambientação é aquela Islândia ainda medieval justamente para mostrar a ideia de sabedoria como ainda cercada de uma aura mística, ao mesmo tempo caracterizando-a como algo perigoso, que, de um modo ou de outro, arruinou a vida de Jonas, mas que ainda assim não deixou de ser sua paixão. A parte do exílio do Jonas, aliás, foi uma das que ficou mais confusa para mim, porque não aparece diretamente no livro. Ou se aparece foi em alguma parte que eu não captei muito bem. Fica sempre subentendido que foi porque ele queria passar seu conhecimento para outras pessoas, mas na maior parte do tempo parece que foi punido simplesmente porque os poderosos do país não gostavam dele, nunca ficando muito certo o motivo disso ou sequer como ele se relacionou como essas pessoas…

Marília: O exílio que não é sequer exílio porque nem sair do país ele consegue. Acaba indo para uma pequena ilha próxima à costa islandesa. Da causa, entendi que ele ganhou fama por um exorcismo muito difícil. Porém acabou optando por não ficar do lado dos poderosos locais no caso dos baleeiros espanhóis. Aliás, em um episódio do podcast No such thing as a fish (primeira recomendação do Mannu aqui), descobri que existia uma lei na Islândia permitindo matar um espanhol que estivesse por lá por conta da época dos baleeiros espanhóis caçando na costa islandesa… Como Jonas deu o testemunho contrário às autoridades, rolou uma resposta em forma de perseguição e difamação, culminando no exílio. Não vou estender sua análise sobre o tema do livro porque é bem isso mesmo. Ambição, conhecimento, mistura do místico com o científico… E isso tudo com a linguagem lírica é uma combinação bem legal (mesmo me deixando confusa, rs).

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