Como viajamos?

Por Emannuel

Há algumas edições – e logo depois de voltar de viagem – eu escrevi um texto sobre as coisas que nos levam a (gostar de) viajar. Ali eu tratei das mecânicas de viajar apenas muito brevemente, ao dizer que para viajar precisamos de dinheiro; e isso levou o Lealdo, que já escreveu aqui na newsletter, a sugerir que falasse mais sobre essa questão em especial. Um trecho do que ele escreveu resume muito bem:

“Olha como poderia ser incrível abrir a discussão também para o mito do jovem (quase sempre jovem, mas não necessariamente homem) que quer viajar mas não tem dinheiro. E busca viajar de todo jeito que for – pedindo carona, etc. Meio beatnik. Aliás, quase sempre inspirado, direta ou indiretamente pelos beatniks. Aquele mito da pessoa que com 100 dólares roda toda a América Latina, se virando do jeito que dá.”

Acho que só a partir disso já temos muito pano para manga. Novamente, vou começar pela questão do dinheiro. Existe realmente o mito dessa pessoa que, com 100 dólares ou outras economias que nos parecem curtas, consegue rodar a América Latina ou alguma outra parte do mundo. Para nós, de classe média, parece fácil juntar pouca grana assim, e também é fácil esquecer que muitas pessoas, aqui na América Latina mesmo, não ganham 100 dólares mesmo ao longo de um ano inteiro. A pessoa que faz esse tipo de viagem também tem outras vantagens, que se concretizam de forma monetária. Se conseguiu viajar só com aquela grana, isso quer dizer que não tem que contribuir para as contas de uma família, por exemplo, quando sabemos que muitos jovens, inclusive aqui no Brasil, começam a trabalhar não para terem um dinheiro próprio, mas para garantir a sobrevivência de pais, filhos, companheiros e afins. Nesse ponto, portanto, concordo com o Lealdo quando ele usa a palavra mito para descrever isso.

Por mais que a aparência seja de engenhosidade, de que é possível fazer pouco com muito, essas histórias na verdade costumam esconder um nível de privilégio, por mais que as pessoas que fazem esse tipo de jornada possam se recusar a reconhecer a sua existência. Quer dizer que essas pessoas são tão ricas quanto aquela que fazem turismo ficando em hotéis cinco estrelas? Claro que não. Ao menos não necessariamente. Mas com certeza continua sendo um luxo.

Recentemente, uma amiga muito querida – oi Taís! – tentou se mudar para São Paulo. Enquanto buscava formas de se estabelecer por aqui, ela ficou hospedada em hostels, nos quais trabalhava em troca do seu alojamento. Ela, admiravelmente, conseguiu passar um bom tempo na cidade vivendo de economias que tinha feito antes de vir, e se aproveitando de oportunidade que pessoas que vivem aqui, como eu, muitas vezes não fazem ideia de que existem. Eu fiquei um tanto impressionado e, a partir da experiência dela, imaginei que possibilidades semelhantes também existem para pessoas que querem ir pulando de cidade em cidade se aproveitando de oportunidades de baratear os custos.

O que quero dizer é que viajar, como quase tudo no mundo, é um ato político. E daqueles que muitas vezes a gente não percebe que é. Os beats serviram para romantizar muitos aspectos ao alcance da burguesia média, e a viagem certamente foi um dos seus focos. Quando não existe a consciência disso, quando vemos a viagem como um simples ato de libertação, na verdade estamos igualando o viajar ao turismo. Para quem exerce um privilégio sem saber, não faz diferença ficar num hotel cinco estrelas ou no sofá que você encontrou no site de couchsurfing. O que não quer dizer que o ato de viajar deva ser demonizado, é só uma prática como tantas outras que fazemos enquanto classe média, como ver seriados americanos ou comer num restaurante “exótico” (o que já é problemático por si só). Nem quer dizer que não existam outras formas de deslocamento, como as migrações forçadas. Minha birra só está mesmo em achar que estamos fazendo algo “roots” quando na verdade só estamos exercendo um privilégio de classe.

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