Seguindo: mais premiações literárias

Por Marília

edição #31 trouxe um longo comentário sobre os semi-finalistas do Man Booker Prize. Dia 13 agora saiu a lista com os finalistas e resolvi retomar o assunto aqui. Composta por três homens e três mulheres, três americanos, dois britânicos e um pasquitanês*, estreantes, veteranos e indicados anteriormente, a lista continua diversa. Um problema: ainda é majoritariamente branca – uma triste constante nos prêmios literários. Vamos a eles:

Algumas pessoas se surpreenderam por Colson Whitehead e Arundhati Roy terem ficado de fora. Whitehead foi o queridinho das últimas premiações e acho que isso pesou um pouco contra ele. Além disso, seu livro saiu no Reino Unido um pouco mais tarde do que nos Estados Unidos e, por isso, parte do frisson da obra parece já distante do Booker. E, embora o retorno de Roy fora muito comemorado, não vi tantos comentários sobre a obra em si. Quero dizer, o livro parece ter gerado menos barulho que a autora.

De novo, vieram surpresas (pra mim). A primeira foi a quantidade de autores americanos. Quando a premiação se estendeu aos EUA, muitas críticas surgiram apontando o peso de autores e publicações norte-americanas na indústria de livros. Argumentava-se que o prêmio poderia perder sua identidade e a inclusão de americanos impediria ou dificultaria a inserção de novos autores britânicos. A segunda surpresa é que as duas autoras estreantes – Mozley e Fridlund – estão incluídas na final. De certo modo, isso rebate parte dessas críticas: o prêmio permitiu e promoveu duas novas escritoras – uma de cada país. Ou seja, espaço para novidade e inovação existe.

Fiquei muito, muito feliz por ver SmithAuster e Hamid entre os finalistas. E é aqui que meu coração se divide. Paul Auster é amor eterno, amor verdadeiro. Além disso, como disse naquela edição, ele já tem seus 70 anos, nunca ganhou esse prêmio e sabe-se lá se ainda vai escrever outro livro. Ali Smith já foi indicada três vezes, é uma escritora bastante elogiada, reconhecida como uma das melhores de sua geração. E só jogando um dado aqui: a última vez que uma mulher ganhou o Booker foi em 2013, com Eleanor Catton. Por fim, temos Mohsim Hamid, que é um puta escritor, finalista em 2007, e a única pessoa não branca da lista. Estou na metade de Exit West e o livro é incrível. Não achei que gostaria tanto. Além disso, Saunders e Hamid têm recebido fortes elogios da crítica pelas duas obras. Meu coração está com Auster porém, se for para apostar, acho que Hamid leva (o Emannuel também aposta nele). Saberemos no dia 17 de outubro.

E, aproveitando a temática das premiações, no dia 15 de setembro saiu a lista de semi-finalistas ao National Book Award. A premiação existe desde 1950 e tem cinco juízes para cada uma das quatro categorias: Ficção, Não-Ficção, Poesia e Literatura Juvenil. O National Book tem foco total nos EUA – para concorrer, o livro precisa ser escrito por um cidadão norte-americano e publicado por um editora norte-americana (haja patriotismo, rs).

Como são quatro categorias, não vou comentar todas a fundo mas deixo o link para quem se interessar. Estou bem por fora da categoria de Poesia – melhor nem arriscar palpites. Dentro de literatura juvenil, acho difícil alguém bater The hate u give, da Angie Thomas (publicado no Brasil pela editora Record). O livro, sucesso de público e de crítica e presente por 18 semanas na lista de best sellers do New York Times, fala sobre violência policial e racismo. I Am Not Your Perfect Mexican Daughter, de Erika Sánchez, também recebeu elogios, porém não deve desbancar o favorito de 2017.

A parte de Não Ficção foca bastante em política: livros sobre democracia, raça, totalitarismo, Rússia, Trump, fake news… De todos os listados, ouvi falar (bem) de Killers of the Flower Moon, de David Grann, que conta história de uma série de crimes numa comunidade indígena e o papel do recém-criado FBI na investigação; No is Not Enough, de Naomi Klein, sobre resistência em tempos de governo Trump; e The Blood of Emmett Till, de Timothy B. Tyson, que aborda raça e democracia partindo do linchamento de Emmett Till, em 1955. Fiquei bem curiosa com Locking Up Our Own, de James Forman Jr, que fala sobre a crise carcerária americana e analisa as relações entre raça e o judiciário dos EUA. Acho que deve ter paralelos interessantes com a realidade brasileira.

Dentre os 10 semi-finalistas de Ficção, fiquei surpresa em ver o nome do Daniel Alarcón. Seu livro mais conhecido no Brasil é À noite andamos em círculos, publicado pela Objetiva. Inclusive, Alarcón veio à Flip em 2014 para falar sobre a obra. Descobri que o autor tem nacionalidade peruana e norte-americana e por isso pode concorrer ao National com a coletânea de contos The King Is Always Above the People. Duas autoras bem queridinhas da crítica estão na disputa: Jennifer Egan com Manhattan Beach e Jesmyn Ward com Sing, Unburied, Sing (que é, inclusive, minha aposta de vencedora da categoria). Enquanto Egan aborda o Brooklyn nos tempos da Depressão americana, Ward faz uma espécie de epopéia e road trip pelo interior do Mississipi. Também ouvi boas críticas a The Leavers, de Lisa Ko, que conta a história da busca de um menino chinês adotado por uma família branca em busca de sua mãe desaparecida (vencedor do Prêmio PEN/Bellwether de ficção de 2016); e Pachinko, de Min Jin Lee, uma saga geracional de uma família coreana no exílio.

Aliás, vale destacar a grande quantidade de mulheres e pessoas não-brancas dentre os semi-finalistas – ponto para o National! A shortlist sai dia 04 de outubro e os vencedores são anunciados no dia 15 de novembro. Em tempos de tantos retrocessos pelos EUA e pelo mundo, vai ser interessante ver quem será escolhido.

(*) Vi fontes se referindo ao Mohsin como paquistanês, como britânico e como paquistano-britânico. No site do autor não tem uma definição. Optei por paquistanês em vez de paquistano-britânico para deixar o texto mais fluido.

Obs.: Rolou Emmy Awards recentemente e ainda pretendo comentar a premiação. Veremos se consigo antes de o assunto ficar (mais) velho. Enquanto isso, recomendo babar por Donald Glover e seu lindo terno roxo.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create a website or blog at WordPress.com

Up ↑

%d bloggers like this: