E dá-lhe prêmio literário outra vez

Por Marília

Gente, eu juro que sei falar de outras coisas, rs. Confesso que fico meio vidrada nessa época de premiações.Os gringos começam mais cedo mas também temos premiações brasileiras. Nesta semana, foram anunciados os finalistas da 59ª edição do prêmio Jabuti. São 29 categorias e não tenho espaço ou condições de comentar todas elas, então fiz uma pequena seleção.

Acredito que seja comum ouvirmos falar do prêmio, especialmente para livros infantis e infanto-juvenis. O Jabuti foi criado em 1958 e a primeira entrega realizada no ano seguinte. Jorge Amado, com “Gabriela, Cravo e Canela”, se encontra nesse rol dos primeiros autores agraciados. Ele funciona um pouco diferente dos prêmios estrangeiros: em cada categoria, são escolhidos três vencedores. Todos recebem um troféu, mas o primeiro lugar leva um troféu e uma recompensa financeira. Para duas categorias específicas, a recompensa é maior: autoras e autores do Livro do Ano de Ficção e Livro do Ano de Não Ficção recebem o troféu Jabuti Dourado e 35 mil reais (bruto).

Em 2017, duas novas categorias foram incorporadas ao prêmio: História em Quadrinhos e Livro Brasileiro Publicado no Exterior – essa segunda é a única em que o vencedor não leva uma recompensa financeira. Já há algum tempo, autoras e autores brasileiros vinham solicitando a inclusão de uma categoria específica para as histórias em quadrinhos. Isso não quer dizer que só agora HQs podem concorrer. Muitas entravam na categoria Adaptação – o que tirava quadrinhos autorais da jogada. No começo do ano, autores de peso publicaram uma carta aberta pedindo uma categoria própria e foram atendidos.

Olha, não foi sem tempo! Alguns gêneros ou categorias literárias costumam ser olhados de modo suspeito, como se fossem algo menor. Que isso ainda exista é um absurdo em si e considerando o cenário atual com tantas produções boas em tantos gêneros e formatos diferentes faz menos sentido ainda. Nos últimos anos, as graphic novels vêm ganhando força e boa recepção de público e crítica, e parece que tantas obras de qualidade juntas deram um gás para o reconhecimento do gênero.

Nesta primeira edição da categoria, concorrem nomes de peso, como André Dahmer e Marcelo Quintanilha, e autores menos conhecidos do público, como George Schall e Ricardo Hirsch. Gosto muito do trabalho do Quintanilha e embora não tenha lido “Hinário Nacional” (ainda), acredito que tenha boas chances de ganhar. Ouvi falar muito bem de “Bulldogma”, do Wagner Willian, e estou bem curiosa para ler. Estou torcendo por “Hitomi“, que embora não seja perfeita conquistou demais meu coração. Bom lembrar que só uma mulher foi incluída na categoria: Sirlene Barbosa e João Pinheiro concorrem por Carolina, da Vêneta, uma HQ biográfica sobre a escritora Carolina Maria de Jesus (sim, estou adicionando à listinha!).

A categoria de Contos e Crônicas conta com mais mulheres e mistura autores mais e menos conhecidos do público. Além de Rubem Braga e Antonio Prata, temos João Anzanello Carrascoza e Veronica Stigger – os dois últimos compondo minha torcida pra categoria. O livro de Stigger, “Sul”, tem recebido boas críticas e acho que pode se beneficiar desse barulho. Carrascoza é um dos meus autores favoritos e ficou em terceiro lugar nessa categoria em 2006 com “O Volume do Silêncio“. Espero que “Diário das Coincidências” pegue uma posição melhor.

De modo semelhante ao National Book Award, estou totalmente por fora da categoria de Poesia. Vou apenas adicionar os livros à minha lista de leituras futuras. Como não manjo de várias dessas categorias, aproveito para fazer três destaques. Primeira parada: Gastronomia. Embora recheada de nomes da área, como Bela Gil, Paola Carosella e Rita Lobo, um livro muito interessante se mostra ali no meio: “Prato Firmeza: Guia Gastronômico das Quebradas de São Paulo”, publicado de modo independente pelo coletivo Énois Inteligência Jovem. Ou-ié, essa galera tem uma história super bacana e (o Nexo fez uma matéria sobre eles e o livro – aliás, valeu a dica, Lica!) seria super legal receberem prêmio! Vale lembrar que muitas mulheres estão concorrendo nessa categoria – me deixando com sentimentos confusos, uma análise que fica para outro dia.

Próxima parada: Ilustração, também bastante equilibrada em termos de gênero. Ajudei a financiar um dos livros ali e fiquei felizaça com a indicação. “Outras Meninas”, da Manu Cunhas, partiu de um projeto bem legal, ilustrando relatos enviados por mulheres sobre seus corpos. O que começou nas redes sociais (o tumblr não está mais no ar, mas ainda tem facebook e instagram) virou um livro publicado de maneira independente e financiado coletivamente. Além de lindo, as histórias ali mostram como é difícil, complexa e maravilhosa essa relação das mulheres com nossos corpos.

Enfim: categoria Juvenil. Além de um livro sobre Zumbi dos Palmares (ieeei!), concorre na categoria Daniel Munduruku por “Vozes Ancestrais”. Doutor em Educação pela USP, com pós-doutorado em Literatura pela UFSCar, Daniel é um autor renomado na área, com vários livros publicados e inclusive já ganhou alguns prêmios. Seria incrível – em tempos atuais – o primeiro lugar ir para um escritor indígena com uma obra que reúne contos da tradição oral de dez povos indígenas brasileiros.

Por fim, a categoria Romance me parece a mais difícil de prever. Com poucas mulheres e uma predominância da Companhia das Letras (talvez valha pesquisar mais a fundo isso depois…), minha torcida vai para a Elvira Vignaque faleceu recentemente, e é uma puta escritora e que não foi devidamente reconhecida na área “adulta” de suas publicações. Aliás, ela já recebeu um Jabuti de Ilustração por “Primeira Palavra” e outro de literatura infantil por “Lã de Umbigo”. Outro forte concorrente é Silviano Santiago, por “Machado”, que narra os últimos anos de Machado de Assis e tem recebido excelentes críticas. J. P. Cuenca, Maria Valéria Rezende, Cristóvão Tezza, José Luiz Passos, Michel Laub e Bernardo de Carvalho são mais conhecidos dentre a leva “recente” de escritores brasileiros. Não estranharia se ficassem em primeiro lugar, embora tenha lido mais críticas negativas às obras concorrentes dos dois últimos. Não conheço Javier Arancibia Contreras e Eugen Weiss, porém pretendo pegar os livros e me apresentar.

Ah, pra quem ficou curioso: na quarta-feira saíram os finalistas do National Book Award. E, pessoal, errei feio, errei rude (ou seja, podem desconsiderar tudo o que escrevo aqui, rs).”The Hate U Give“, surpreendentemente, está fora da lista, mas “I Am Not Your Perfect Mexican Daughter” entrou. Fiquei bem curiosa com quem vai levar a categoria YA. Dentre os livros de não ficção que destaquei, só o “Killers of the Flower Moon” figura entre os finalistas. Alarcón e Egan não seguiram para a segunda etapa do prêmio, porém dei mais sorte nessa categoria: Jesmyn Ward (vencedora do National de 2011), Lisa Ko e Min Jin Lee estão ali, firmes e fortes. E, por coincidência, essa semana um podcast querido fez bons elogios ao livro de contos da Carmen Maria Machado, “Her Body and Other Parties“, também finalista de Ficção. Conheceremos enfim os agraciados no dia 15 de novembro.

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