Mais um ano, mais um Nobel de Literatura

Por Emannuel

Esse ano Sara Danius me decepcionou. Desde que ela assumiu a secretaria-geral do Nobel de literatura, as escolhas de premiados sempre foram surpreendentes (Modiano, que ninguém conhecia, Aleksiévitch, com narrativas orais, para não falar em Bob Dylan…), mas esse ano a escolha foi tão morna que não gerou uma repercussão nem sequer de perto tão grande quanto as últimas edições.

Eu esperava uma mulher (a Marília também!), para poder me convencer de que a nova direção do prêmio estava tentando diminuir o viés pró-homens. Como todos os anos, fiz minha aposta num post do Facebook e errei completamente (Dylan ganhou justamente no ano em que tentei ser sério e não apostar nele…).

A escolha de Kazuo Ishiguro como laureado é muito pedestre. Se ainda estivéssemos no tempo do alto modernismo, poderíamos até dizer que foi uma escolha de filisteus. É verdade que ele aborda, especialmente em sua obra inicial, a questão do deslocamento, da identidade enquanto algo em jogo e fluído na contemporaneidade, partindo das ideias de nação e etnia. Ishiguro se sentia obrigado a escrever coisas relacionadas com sua ancestralidade japonesa apesar de se sentir um cidadão britânico. E o mercado esperava que ele o fizesse, para explorar seu “exotismo”. Foi só com Remains of the Day que ele conseguiu se desvencilhar desses grilhões que o atormentavam, e que por isso acabou se tornando seu romance mais conhecido (e também pela versão cinematográfica com Anthony Hopkins).

Mas mesmo dentro dessa lógica, Ishiguro não seria a melhor escolha. Um de seus grande amigos literários, Salman Rushdie, teria sido uma escolha melhor. Não só por ter uma obra mais desenvolvida (para não dizer de melhor qualidade), como também é muito mais ativo politicamente. De fato, ter sido Ishiguro o escolhido passa a impressão inescapável de que o comitê estava buscando uma versão mais palatável de Rushdie, que não fosse levantar a ira de ninguém por ter uma fatwa sobre sua cabeça, que não fosse fazer um discurso de recebimento muito explosivo… E também, que tivesse se aventurado apenas sutilmente no campo da ficção especulativa. É triste reconhecer como a academia parece ter mais facilidade em aceitar premiar Dylan por suas letras do que alguém que escreva majoritariamente romances maravilhosos, que não se atrelam à realidade. Pode ser uma falha na capacidade de interpretação dos suecos, mas provavelmente é só uma forma de esnobismo que ainda valoriza a literatura dita realista. Também não consigo deixar de pensar que tanto Ishiguro quanto Rushdie eram discípulos de Angela Carter, a autora que pesquiso no meu mestrado, sendo que o primeiro estudou escrita criativa com ela, o que só me deixa mais triste ainda por Carter ter morrido tão cedo, sem o reconhecimento que mereceu.

Tudo isso quer dizer que Ishiguro é ruim? De forma alguma. É um ótimo escritor, e suas obras dizem muito sobre como pensamos nossas raízes e identidades e modos de vida contemporâneos. Ele é daqueles que faz isso com erudição e estilo, mesmo que por vezes acabe ficando um tanto sem graça.

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