Clube do Livro: Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur

Por Emannuel e Marília

Emannuel: Quando eu penso no que pode ser popular com a nossa geração, em relação à literatura, é pouco provável que eu pense em poesia. A gente sempre escuta aquela velha história que livros de poemas vendem pouco, são coisa de nicho. Por isso foi bem surpreendente quando, há uns dois anos, essa antologia da Rupi Kaur ficou entre os mais vendidos nos EUA, o que estimulou sua publicação por aqui esse ano.

Marília: Fiquei bem surpresa também, especialmente porque a autora se auto-publicou. Ela não tinha editora, soltou o livro lá na Amazon e fez um tremendo sucesso.

Emannuel: Mas, se o sucesso da versão em livro é algo inesperado, fica mais fácil de entender quando pensamos na base de fãs que a autora criou nas redes sociais, onde seus escritos – e desenhos – são originalmente publicados. Kaur faz parte de um movimento crescente de Instapoets, pessoas que usam o Instagram para divulgar seus poemas.

Marília: Aqui eu fiquei numa dúvida a la tostines: ela já tinha tanto sucesso nas redes sociais e isso impulsionou o livro ou o contrário? As duas coisas com certeza se retroalimentam. Me pergunto o que veio primeiro justamente para entender o fenômeno de vendas e saber se o segundo livro conseguirá feito semelhante. Acho que essa uma análise vai depender dos resultados das vendas dessa obra.

Emannuel: Até mesmo por conta da mídia que escolheram, a questão visual é bem importante na sua obra: os desenhos são, de certa forma, tão importantes quanto as palavras em si para a carga poética, e essas duas partes de sua arte compartilham muitas coisas, como a simplicidade. Se os desenhos são feitos apenas contornos feitos a caneta, em preto e branco e sem muitos detalhes, os próprios poemas também buscam ser sempre simples e diretos, sem preocupação alguma com rimas, metros e afins. São também em geral muito curtos, muitos deles apenas duas ou três linhas. Provavelmente uma exigência do formato do Instagram e do nível de atenção que as pessoas dedicam nessa mídia. O próprio feed de Kaur é construído alternando uma postagem de seus poemas/desenhos e outra foto tradicional (embora essas sejam em geral muito glamourosas, nas quais a poeta parece saída das passarelas de uma Fashion Week).

Marília: Sendo sincera, fiquei com preguiça do Instagram dela, rs. Não faz meu estilo. Concordo com sua análise, faz sentido… De novo, é difícil separar o livro e as redes da autora, porque são dois meios que ela usa para divulgar o trabalho. Só que não sei ao certo se o formato dos poemas vem disso, embora se relaciona com as redes sociais. Será que é necessariamente pensado pra isso? Aqui, já dou um spoiler da minha “resenha” do livro: gostei, mas não achei tudo isso. A Rupi Kaur foi a poeta desse estilo (curtinho e simples, compartilhável nas redes) que gerou mais repercussão e atingiu mais pessoas. Só que existem outras autoras que seguem um estilo parecido (como a Yrsa Dailey-Ward e a Nayyirah Waheed) e que, pra mim, são melhores. E me parece que um dos grandes motivos para o estrondoso sucesso e para essa repercussão da Kaur é a inovação do formato. Talvez, por já conhecer o formato de texto por meio dessas outras autoras, acabei não entendendo todo o barulho. Ressalto que essas duas autoras não recorrem ao desenho e nenhuma das duas foi traduzida para o português.

Emannuel: O salto da internet para o livro parece ter consistido em coletar vários poemas postados na rede social (um pouco no modelo de livros que crescem a partir de Tumblrs) e organizá-los em quatro temas ou capítulos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Cabe aqui dizer que li a primeira dessas partes comparando entre a tradução e a versão original, porque ainda tenho um pouco daquela ideia velha de que poesia muda completamente de uma língua para outra. Acho que, pelo menos nesse caso, esse é um medo infundado. A tradução é bastante literal, e pela natureza livre dos poemas, nada acaba se perdendo. Por incrível que pareça, a única diferença que consegui identificar foi no título, e isso é uma vantagem para a tradução; mesmo “Milk and Honey” sendo uma imagem bem bonita, ter optado por “Outros jeitos de usar a boca” foi uma ótima estratégia.

Marília: Não li comparando mas teve dois poemas em que eu peguei o original para ver, porque a tradução me pareceu um pouco dissonante. Não estava ruim, de modo algum, é que me deixou curiosa pela escolha de palavras. Sobre o título, acho que a mudança foi uma excelente escolha. “Milk and honey” é uma imagem linda mas que é muito própria do mundo anglófono (lembra da música do Roxette?) e acho que não faz tanto sentido pra gente.

Emannuel: Mas, voltando à divisão por partes. Acho que a primeira, “a dor”, foi a que que mais gostei. Em grande parte porque me surpreendeu. Talvez seja uma certa inocência da minha parte ainda ficar chocado com alguns temas que aparecem ali, ainda mais quando contados de forma tão direta quanto a de Kaur, mas os poemas sobre abuso e sobre crescer num ambiente completamente opressivo me pareceram constituir a maior força do livro. Aliás, os momentos mais pesados também em outra das partes “a ruptura” poderiam muito bem estar ao lado desses como pontos altos da antologia.

Marília: Gostei muito de “a dor” também. Acho que ainda vemos muito pouco escrito sobre abuso de uma forma tão lírica e ao mesmo tempo tão direta. O tema já apareceu pela literatura ou mesmo por outras mídias. Não é exatamente uma novidade. No entanto, o modo como é relatado vem mudando e isso parece trazer o debate mais e mais à tona. O que é bom, especialmente para quebrar o tabu, empoderar vítimas (que veem como não estão sozinhas) e trazer uma perspectiva feminina e feminista do assunto. Kaur faz isso é bem.

Emannuel: E os momentos de candor erótico, quando Kaur traz à tona seu desejo de forma mais direta em “o amor” também são interessantes, embora muitas vezes acabem descambando para imagens que, ainda que não cheguem a ser de todo problemáticas, são formas quase infantis de ver o sexo. O poema que compara as pernas abertas com cavaletes prontos para receber uma obra de arte, por exemplo, ficou marcado na minha memória como o pior do livro, ao ponto de achar um pouco ridículo a forma que ela tem de levar isso a sério.

Marília: Tenho sentimentos dúbios quanto a essas partes. Primeiro porque o modo como vemos ou lemos sobre sexo é majoritariamente masculino e acho ótimo ter uma mulher falando disso. E é importante trazer uma visão não tão metafórica do sexo. Por outro lado, da seção “o amor”, os poemas que eu mais gostei não eram sobre sexo. Não achei o modo como ela trata necessariamente infantil; achei fraco. O poema que fala sobre os outros jeitos de usar a boca (p. 68) me deixou encabulada, porque pode ser algo sexy ou algo super agressivo. Que mulher já não ouviu essa cantada na balada de um desconhecido? A seção dá o tom de interpretação, claro, ainda assim, me deixou angustiada ao notar como poderia ser lido de outras maneiras. Não sei se isso é bom ou ruim, na verdade.

Emannuel: Também é um pouco paradoxal a imagem que as três primeiras partes fazem das mulheres com o tom da parte final, “a cura”. Acho que essa foi a parte que ficou mais prejudicada no formato de livro. Acredito que, para quem segue Kaur no Instagram, muitas vezes deve ter um poder especial entrar na rede social e se deparar com uma mensagem de empoderamento no seu feed. Especialmente num dia em que essa pessoa pode estar duvidando de si mesma ou se sentindo sozinha num mundo hostil. No entanto, no livro, ainda mais por estarem agrupados, esses poemas me pareceram acabar seguindo um caminho fácil da auto-ajuda. Muitas vezes se utilizando de lugares-comuns do gênero. A própria tentativa de se conectar com o público que surge nesses poemas passa a impressão de uma jogada de marketing.

Marília: Foi a seção que eu menos marquei, haha. Porque, apesar de não ter achado o livro tão incrível assim, marquei vários poemas com post-its – mais pela identificação com a autora e seus tema e isso é a parte que afeta a apreensão da poesia dela. Não é que não seja universal. Contudo trata de experiências que nem todo mundo tem e aí não sei se atinge/impacta todos de maneira tão intensa. Não creio que seja uma jogada de marketing – embora no mundo das redes sociais não duvido de nada. Tem muito mais a ver com o tipo de experiência relatada à qual nem todos têm acesso. De fato, alguns me parecerem quase auto-ajuda. E aí volto no meu ponto acima: embora Kaur tenha bombado mais, pra mim, ela não é a melhor poeta recente que faz uso desse formato de poema. E isso pega aqui: se relaciona menos com a questão das redes sociais e mais com a própria qualidade do trabalho. Nem todos os poemas desse livro são bons, e muitos dos ruins também me atingiram e me emocionaram. Reconheço que não é um trabalho com qualidade constante. É interessante e especial justamente porque traduzido para o português (tornando o conteúdo mais acessível para outros públicos), ainda que não seja a melhor expoente dessa onda.

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