Quadrilha

Por Vanessa e Marília

Nas últimas semanas, vimos parceria atrás de parceria ser lançada. O fenômeno é mundial – quantas participações do Pitbull nas músicas pop você (ou)viu nos últimos anos? O moço foi tão utilizado em parcerias que virou piada nas redes sociais. Qualquer coisa é feat Pitbull.

Mas, por alguns motivos, a coisa se intensificou no Brasil esse ano. Simone e Simaria com Anitta. Anitta com Wesley Safadão e Nego do Borel. Wesley Safadão com Ivete. Você pode jogar os grandes nomes da música pop num saquinho, tirar dois ou três e, no melhor estilo poema surrealista, sai uma parceria.

O negócio é meio que bom para todo mundo. Artistas fazem parcerias, o quê de novidade gera mobilização dos fãs cativos e aumenta curiosidade dos não fãs — ou seja, rola até ganhar uns ouvintes. No tempo da música em formato streaming, esse negócio se expande em alguns níveis.

Parcerias aumentam sua inserção em playlists de outros gêneros. Ou seja, o artista sai daquela bolha de classificações que o cerca. Não é a mesma coisa, por exemplo, de colaborar com um artista do mesmo gênero ou de gêneros musicais similares. Em outras palavras, não basta colocar Ivete e Daniela Mercury, é Ivete e, sei lá, Emicida ou Maiara e Maraísa.

Sair da bolha é interessante. Além de vantajoso para as pessoas envolvidas na indústria de entretenimento, os fãs também são jogados para fora de suas próprias bolhas. Ouvir um artista diferente traz, nas plataformas de streaming, sugestões diferentes e pode levar a novos gostos descobertas.

Temos, no entanto, dois problemas. O primeiro é que essa suposta explosão da bolha não é real. Você continua dentro daquela bolha com um pouquinho de outra bolha junto. É um diagrama de Venn, mas você não tá na mistura – você continua num dos grandes círculos, olhando aquela misturinha rolando ali. Você realmente vai ouvir outros sertanejos quando a Anitta faz parceria com Maiara e Maraísa? Para o negócio continuar, alguém está medindo esse aumento (ou não) de interação. Seria interessante saber como rola e quanto de vantagem traz – para artistas e para as plataformas de streaming.

O outro problema — e, do ponto de vista dos ouvintes, é o principal — é o uso excessivo do modelo. Parcerias dão certo porque aumentam a indexação dos artistas. Se parte do sucesso disso é o elemento de curiosidade dos ouvintes, exagerar no formato acaba com isso. É parceria que não acaba mais. O cenário musical vai se tornando o mesmo porque artistas mais velhos ou estabelecidos acabam entrando no jogo para se manter relevantes (como bem apontou Chico Barney).

Como fazemos para sair da bolha, ter uma heterogeneidade no cenário musical, cumprindo a grande promessa da internet de poder acessar tudo? Temos que aprender a navegar em águas de “você pode gostar de…” mas também buscar mecanismos que ultrapassem as máquinas.

Playlists (alheias e oficiais) costumam ajudar a encontrar novos artistas na linha do que já curtimos. Quantas vezes começamos a ouvir algo no Youtube e, quando vemos, a reprodução automática já nos levou para algo melhor ainda? Sem problemas – é até divertido se perder por esses labirintos, que geralmente acabam quando 1) você cansa ou 2) eles já não conseguem mais te agradar.

Como não só de algoritmos vive o homem, o resto do mundo ainda nos parece um bom caminho para renovar a biblioteca. Pedir indicações musicais para amigos, prestar atenção a trilhas sonoras de filmes e séries, ler caderno culturais e revistas especializadas são fontes potenciais. Ainda é mainstream? Provável. Mas, ainda assim, será que chegaríamos a novos sons ouvindo sempre a mesma coisa no Spotify?

A questão tem também a ver com o modelo de consumo. Não estamos aqui propondo uma volta à época dos vinis, em que você dependia da sorte e de recursos para acessar música e descobrir novas coisas. Com streaming e afins as possibilidades são imensas e o custo relativamente baixo (ou grátis, para quem quiser acreditar que isso existe). Ao mesmo tempo, a indexação ganha peso e norteia certas escolhas — ou ajuda a engatar de vez o piloto automático.

Aí chegamos em outra questão: como fazer isso sem que o cenário musical se torne mais do mesmo? Essa é pergunta do milhão. Quando falamos de artistas populares, daqueles que tocam na rádio de hora em hora, não rola muito esforço em sair da mesma fórmula. E não precisa nem pensar em Anitta: tem muita rádio tocando Bon Jovi, Abba e CPM22 – e agradando os ouvintes com isso. Há um limite do que pode ser gravado, do que é inovador, dançante, envolvente. Não que as gravadoras pareçam ligar muito para isso… Daí a repetição de fórmulas e gambiarras.

As parcerias são só um dos “truques”. E como todo truque, cansa. No fim, equilíbrio e inovação – e, principalmente, espaço para que essas novidades cheguem ao público seja via rádio, seja via streaming – são as palavras chave. Caso contrário, ficaremos em Ivete que cantava com Wesley que cantava com Anitta que cantava com Marília Mendonça que cantava com…

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