Estado da Arte

Por Emannuel

Demorou, mas finalmente vou falar um pouco dos milhões de discussões que surgiram desde a polêmica (e eventual censura) da exposição Queermuseu e que se intensificou com o rechaço em relação à performance “La Bête” no MAM de São Paulo. Uma tendência de combate à presença de certos temas na arte que não se limita ao Brasil, acontecendo também no Louvre. O MASP, que recebe a exposição “Histórias da Sexualidade” até fevereiro de 2018 também deu um passo para trás ao permitir a entrada apenas de maiores, numa forma de autodefesa preventiva.

Seria um pouco chover no molhado ficar simplesmente na crítica a esse reacionarismo, e ressaltando a necessidade que a arte tem de se abrir para o diálogo, tornando visíveis questões e paradoxos que outros setores da sociedade costumam ignorar. A necessidade de reagir, para defender as manifestações artísticas, é essencial. Mas também é importante observarmos o que leva a arte a ser tão vulnerável, a ponto de ser uma das primeiras coisas a ser atacada por ondas autoritárias como a que tem se levantado nos últimos anos.

Uma das funções da arte, talvez a mais relevante no plano social, é a de questionar os pressupostos do público. Seja apresentando um novo ponto de vista sobre algo que aquela pessoa já havia considerado ou trazendo à tona algo que até então escapara da sua percepção. Isso pode incluir desde levar alguém a reconsiderar sua forma de interagir com o espaço ao redor ou com seus ideais de beleza até explicitar realidades sociais diferentes daquela do público. Toda essa gama de possibilidades veio a tomar as formas contemporâneas ao longo de uma longa história de construção de arte sobre um fundamento sedimentado de história da arte. Se algumas dessas funções já existiam desde os primórdios da arte, as formas que tomam atualmente é algo que se consolidou de forma relativamente recente, com a arte conceitual ou formas ainda mais jovens, como as que relacionam arte e digitalidade. Esse desenvolvimento se deu em paralelo com a consolidação de um sistema próprio, o “mundo da arte”, que não só pode ser muito auto-referencial como também extremamente excludente. Basta que consideremos, por exemplo, como o fator econômico prefigura a seleção daquilo que sobrevive na arte contemporânea. As galerias e mesmo os museus, influenciados pelas coleções particulares (ou vice-versa), acaba por criar panoramas que não necessariamente refletem as ânsias e questionamentos da sociedade como um todo, mas sim de uma classe privilegiada, o que pode distorcer a imagem do nosso tempo para a história do futuro. As Guerrilla Girls, que fazem atualmente uma exibição no MASP, vêm há décadas lutando por maior representação feminina nas instâncias artísticas, mas a resistência a isso continua sendo alta.

Mas a questão que vemos aqui não é justamente a de ataque às poucas ocorrências de uma diversidade no meio artístico? Isso acontece porque essa evolução paralela de um mercado da arte competitivo teve reflexos também no aspecto formal. Desde o modernismo, e mais evidentemente nas últimas décadas, a arte, até mesmo para ganhar espaço, passou a se utilizar mais comumente de provocações, de uma vontade de ser risqué, que, no contexto geral de uma grande produção com essas características, tende a se escalar. E aqui vemos como a ideia de Baudelaire sobre a classe artística dos dandys e sua cooptação pela classe dominante se concretiza mesmo hoje. Nos EUA, 37% das pessoas que vão a museus de arte não os consideram cultura. O número é ainda maior entre as pessoas que nem sequer vão a museus porque acham que “não é para alguém como eu”. Não seria surpreendente uma pesquisa com resultados semelhantes no Brasil, a despeito das exibições-blockbuster que o país tem recebido. Essas, quase sempre, são de arte pré-moderna, sendo que as formas mais recentes costumam ser alvo de crítica como as feitas num vídeo muito compartilhado pelas redes sociais no último ano e feito por um movimento de extrema-direita. Persiste aquela sensação de que muitas pessoas “não entendem” arte contemporânea. Eu mesmo sinto vontade de usar essa expressão quando vejo em alguém relacionar arte que explora nudez ou sexo ou simplesmente questões de gênero com pedofilia. Mas a verdade é que essa é uma correlação forçada. É um argumento que as pessoas que o fazem sabem não ser real, mas que viabiliza mobilizações políticas, porque as pessoas que se sentem excluídas da compreensão da arte contemporânea tendem a aceitar até mesmo para dar sentido a um sentimento que não conseguem mobilizar de outra forma. A arte contemporânea se torna um alvo fácil justamente por aquilo que, como Umberto Eco definiu em Obra Aberta, é sua característica primordial, a permeabilidade para diferentes leituras. Não ter um significado estático, mas sim uma concentração de processos em sua forma (em especial aquelas mais provocativas) possibilita também essa apropriação, esse esvaziamento de sentido. Se isso já acontecia com os pós-impressionistas e abstratos que a Alemanha Nazista caracterizou como degenerados, o argumento é muito mais fácil hoje em dia. Embora também ainda mais sem sentido.

A única forma de proteção que pode existir quanto a isso, por mais clichê que seja, é a de buscar uma reconfiguração da forma de as pessoas lidarem com a arte. Um professor de história da arte com quem tive aula costumava dizer que a arte contemporânea era a mais fácil de nos relacionarmos. O fato de ser do nosso tempo, lidando com questões que estão ao nosso redor o tempo todo, faz com que ela fale diretamente conosco. Essa reflexão foi muito importante para a minha compreensão atual da arte, e pelo meu gosto especial pelas formas contemporâneas. Mas foi algo que só tive num ambiente privilegiado, ao qual muitas pessoas não tem acesso, e que é inóspito mesmo para algumas que tem. A mudança precisa ser mais estrutural, portanto, pensando os museus, as galerias, os formatos de arte e nosso acesso a eles. A arte do futuro precisa percorrer um caminho inverso ao do grafite. Não sair das ruas e passar a fazer parte do mercado, mas deixar de se guiar por questões econômicas e passar a se preocupar mais em relvar uma estética relacional a todos os aspectos da vida social.

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