Dedicado a todas as outras.

Por Fernanda Perrin

“Desconstruindo Una” é anunciado em sua contracapa como “um relato alarmante sobre a violência de gênero”. Para mim, porém, a essência da obra é justamente ir além disso. Una (pseudônimo escolhido para representar histórias compartilhadas por muitas) mescla autobiografia com pesquisa jornalística para mostrar em frases curtas e ilustrações de fôlego que sobreviventes de violência sexual e misógina são mais do que “vítimas perturbadas”. Os traumas e as sequelas estão todos lá, sim, mas eles não definem quem você é, e não te impedem de criar algo tocante, forte e delicado como essa obra.

A dedicatória não poderia ser mais potente.

Una cresceu em Leeds, no Reino Unido, em um período em que o país perseguia o “estripador de Yorkshire”, um homem que durante anos matou pelo menos 13 mulheres e feriu outras tantas porque a polícia botou na cabeça que tratava-se de um degenerado social cujo alvo eram outras degeneradas sociais (mulheres de “moral questionável”). No fim das contas, era um “homem comum”, caminhoneiro e casado, que havia sido interrogado diversas vezes. Mas como o perfil não batia, ele era liberado, e voltava a matar.

A revolta cresceu de fato, conta Una, quando ele atacou uma adolescente que ninguém conseguiu destruir a reputação. Prostitutas tudo bem, mas mulheres de respeito? Aí a sociedade se revoltou… Pedindo para as mulheres tomarem mais cuidado. Não saírem à noite.

Una crescia à sombra desse noticiário, em um subúrbio pequeno e conservador. Quando ela própria foi vítima de abuso sexual, entendeu que o problema era ela. Fragilizada, sem apoio, estigmatizada pelos colegas pelo seu comportamento (“vadia!”) e sem conseguir falar com ninguém sobre isso, tornou-se a vítima de novos abusos. A esperança triunfava sobre a pouca experiência, diz. Foi estuprada por um colega e por um namorado.

Em tempos em que Hollywood parece estar disposta a expurgar seus predadores, me incomoda que as mulheres vítimas-e-sobreviventes, que estão tomando a coragem de denunciar em uma indústria em que imagem é seu maior bem de troca, recebam tão pouca atenção. Exceto quando são grandes nomes do ramo, as pouco conhecidas ou desconhecidas são logo transformadas em números. “Pelo menos sete mulheres, incluindo essa aqui super famosa que vamos citar nominalmente, denunciaram fulano”. E o foco passa a ser ele: sua carreira, seus atos obscenos e suas estatuetas do Oscar, lado a lado.

Mas e a mulher diante da qual Louis CK se masturbou? Ela não tem mais nada a dizer? Como foi para ela seguir em frente com sua carreira depois de sofrer essa violência de um ícone do ramo? Como é para ela ter que trabalhar com algum roteiro que se valha de violência sexual como muleta narrativa, algo tão absurdamente corriqueiro?

Esse contínuo silenciamento, esse foco no lugar errado, fazem com que eu desconfie enormemente das tais “mudanças” que dizem estar acontecendo. Li em alguma coluna hoje que provavelmente daqui a 10 anos veremos um documentário dirigido por um homem sobre esse momento que estamos vivendo. Podem estar queimando algumas bruxas, como teme Woody Allen, mas nada vai mudar enquanto os homens continuarem ocupando as posições mais importantes da indústria, relegando a mulheres um papel coadjuvante.

A força de Una está justamente em conseguir inverter essas posições: ela rompe o silêncio, fala sobre experiências que seus amigos acham desagradáveis para uma conversa de bar, sobre a peregrinação em psiquiatras e curandeiros, sobre aprender a se reconstruir depois de desmoronar sem um pingo de auto-ajuda: tem dias que ficar na plataforma do trem assusta, mas tem outros em que você escreve e ilustra uma obra prima.

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