Sobre terror e empatia

Por Carla

Em 2006, ganhei de um namorado, que estava de mudança, um livro que não cabia na bagagem: “IT – A Coisa”, de Stephen King, que tinha esta capa, mais de mil páginas e virou a grande obsessão dos meus 16 pra 17 anos.

O vestibular e depois a faculdade ajudaram a enterrar o calhamaço e, como a maior parte do Clube dos Otários, passei anos sem pensar na história. O teaser do filme de 2017 foi como a ligação de Mike Hanlon dizendo que A Coisa tinha voltado, me chamando de volta para Derry.

Reli o livro, assisti à minissérie de 1990 (não recomendo) e fui ao cinema munida do olhar criterioso de quem é fã há muito tempo.

O filme quebrou as barreiras que eu tinha levantado e conquistou, mesmo com as mudanças no enredo, aquele espacinho que os nerds guardam no coração para adaptações bem-feitas.

Pros desentendidos, IT é a história de uma entidade maligna que aparece na cidade americana de Derry, no Maine, a cada 27 anos (coincidência esse ser o período de tempo entre as adaptações para as telas?), criando um ciclo de pânico e morte, que a mantém viva até sua próxima hibernação.

Para King, a infância é a época em que a imaginação permite a criação de lugares onde vivem os monstros e é por isso que A Coisa persegue crianças.

O filme começa com o icônico encontro entre A Coisa, na forma de Pennywise, o palhaço dançarino (Bill Skarsgård está incrível nesse papel), e George Denbrough, em 1988 (no livro, escrito nos anos 80, essa parte da história se passa em 1958), que resulta no homicídio do garotinho. O desenvolvimento do filme aborda como essa nova onda de assassinatos mexe com Derry, em especial com um grupo de sete crianças lideradas pelo irmão de George: o Clubes dos Otários.

Livre dos flashbacks, tão marcantes no livro (e na minissérie, que apesar de mal feita, é bem mais fiel à trama original), “It: Chapter One” foca no passado, quando os Otários ainda são crianças, e desenrola a série de interessantes descobertas sobre a cidade, seus habitantes e sobre eles mesmos sem nenhuma interrupção. Sinceramente gostei disso, assim como gostei de que algumas linhas da narrativa original, nauseantes e desnecessárias na minha opinião, foram suprimidas (quem já leu o livro, sabe bem do que eu estou falando).

Parece ser consenso entre os que assistiram que o primeiro capítulo do filme (vale lembrar que uma continuação está prevista para setembro de 2019) é um terror “com coração”. É um filme tenso e violento? É. Dá medo? Dá. Mas também é um filme muito engraçado e tocante, sobre amizade e empatia.

Momentos como as tiradas sem-noção de Richie, interpretado pelo maravilhoso Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things; e os pequenos detalhes de identificação com o livro, como monólogos de um-só-respiro do hipocondríaco Eddie (Jack Dylan Grazer me fez gostar do personagem), ou a cena em que todos derrubam a bicicleta e saem correndo, enquanto Stan (Wyatt Oleff), que gosta de tudo organizado, perde tempo deixando-a em pé, me fizeram gargalhar no cinema. GAR-GA-LHAR. Numa exibição de filme de terror.

Stephen King faz uma coisa no livro que eu acho genial: às vezes ele lembra os leitores que seus protagonistas são crianças. Que sofrem, que lidam com problemas imensos, que têm determinação de eliminar um mal da face da Terra, mas que têm só onze anos. Há uma cena minúscula no livro, em um capítulo particularmente tenso, por exemplo, que mostra o Clube dos Otários pré-Mike indo enfileirado para o Barrens, brincando de safari. É linda na sutileza.

O filme faz uso desse recurso também (os personagens são mais velhos no filme, mas funciona) – eu adoro, por exemplo, quando o Eddie, num ataque de fúria, grita para a mãe superprotetora que seu remédio não funciona de verdade porque é um “gazebo”. O espectador se apaixona pelos Otários e quer protegê-los a qualquer custo.

O jeito como esses personagens se encontram tem algo de emocionante. São todos tão excluídos do mundo em que vivem que conseguem olhar do lado de fora e apontar sua podridão. É por meio dessa observação por-outro-ângulo que conseguem constatar que unidos são fortes contra esses absurdos (quentinho no coração? Só eu?).

O elenco maravilhoso (são todos incríveis, mas meu destaque vai para a excelente Sophia Lillis como Beverly Marsh), o roteiro muito bem adaptado e a cuidadosa direção do argentino Andy Muschietti mantiveram o artifício de King de criar identificação e apego com um grupo de personagens plausíveis e projetar tensão e medo nos momentos em que eles estão em perigo.

O filme também repete das páginas o jogo dicotômico do agradável e do terrível; tiradas de humor em meio a ameaças reais, representadas por Pennywise, mas também por pais abusivos e tóxicos, valentões psicopatas e pessoas indiferentes ao sofrimento.

A Coisa se alimenta do medo e desperta o pior nas pessoas, mas quando o Clube dos Otários se empenha em fazê-la morrer de fome, o espectador também ganha certa coragem. No meu caso, foi o suficiente para ter uma noite de sono livre de palhaços.

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